A maravilha do feminismo imperialista, por Susan Abulhawa

A maravilha do feminismo imperialista Ou como a Mulher Maravilha virou de heroína à apoiadora de crimes de guerra. Por Susan Abulhawa *Susan Abulhawa é...

A maravilha do feminismo imperialista

Ou como a Mulher Maravilha virou de heroína à apoiadora de crimes de guerra.

Por Susan Abulhawa

*Susan Abulhawa é uma escritora palestina. Autora do livro best-seller internacional “Morning in Jenin” (Bloomsbury, 2010). Ela também é a fundadora do Playgrouds for Palestine, uma ONG para crianças.

Texto publicado originalmente em inglês no site do Aljazeera.

Tradução de Carolina Braga.

Nota da tradutora 1: Essa tradução foi publicada com a autorização da autora.

Quando eu era criança, assim como inúmeras outras mulheres da minha geração que cresceram assistindo programas de tv americanos (mesmo quando dublados em árabe), eu costumava girar e girar, tentando alcançar super poderes como os da Mulher Maravilha. Eu queria contrair o meu nariz e magicamente transformar tudo ao meu redor, como Samantha de Bewitched.

Essas personagens femininas eram exceções entre as doces donas de casa, as secretárias eficientes e as donzelas em perigo que dominavam a mídia popular da minha época. A Mulher Maravilha e Samantha tinham o poder de mudar as próprias vidas, mesmo se esses poderes precisassem permanecer escondidos, sempre mantidos em segredo.

Eu sabia que as aquelas personagens não era reais, que os poderes delas eram mera fantasia feita para o entretenimento. Mas eu não parei de acreditar que talvez, apenas talvez, eu poderia ter poderes em algum lugar dentro de mim. Não importava se girar só me deixava tonta e se torcer o nariz não completava magicamente minhas tarefas domésticas. Eu continuava tentando.

Eu estou com 40 e poucos anos agora e o mundo mudou muito desde da minha juventude, quando o jornal impresso, o rádio e a televisão só mostravam às mulheres como serem esposas obedientes e agradáveis, boas mães e donas de casa eficientes.

Naturalmente, eu estava empolgada quando ouvi falar que finalmente Hollywood estava produzindo um filme da Mulher Maravilha com grande orçamento, depois de múltiplas interações de Batman, Homem-Aranha, Super Homem e outros filmes com super heróis homens. E, melhor ainda, o filme seria dirigido por uma diretora mulher.

Então, veio o choque e a traição.

Veio a tona que a Mulher Maravilha (ao menos nesta versão hollywoodiana) é uma sionista declarada e líder de torcida de crimes de guerra. Gal Gadot, a atriz do papel principal, foi um soldado ativo no exército quando Israel invadiu a bombardeou o sul do Líbano em 2006.

Em 2014, Gadot enviou uma mensagem de apoio para os soldados israelenses no momento que eles estavam abatendo mais de 2.100 seres humanos presos em uma praia sem nenhum lugar para se esconder ou chance de escapar. Vizinhanças inteiras foram bombardeadas, famílias inteiras ficaram soterradas dos escombros das suas próprias casas. Por 52 dias, eles fizeram a morte chover do céu, da terra e do mar nos cidadãos indefesos do lugar mais densamente povoado do planeta.

Aqueles que não foram assassinados, foram mutilados ou feridos de um jeito ou de outro. O bombardeio não parou até o pouco que sobrou da infraestrutura construída em Gaza depois da chacina anterior ser destruído de novo, incluindo hospitais, eletricidade, tratamento de água, agricultura, negócios, estradas, escolas e barcos de pesca.

Israel tem um dos exércitos mais mortíferos do mundo, com máquinas de guerra da mais avançada tecnologia, e usam esse poder na maioria das  vezes e com mais frequência principalmente contra populações desarmadas sem possibilidade alguma de se defender. O que Israel fez com a Palestina, e com a Faixa de Gaza em particular, é incontestável. É uma das piores formas de opressão e injustiça e, atualmente, já virou antiga.

Ainda, poucas mas preciosas opiniões tentaram examinar qual o significado de elencar uma Sionista para uma personagem feminina icônica. As reações da mídia tradicional foram, na maioria das vezes, laudatórias. A maioria da crítica focou na incongruência de colocar no elenco um mulher bonita para refletir uma imagem de poder feminino. Onde a ideologia de Gadot era mencionada, era no sentido de tentar reprimir a indignação pública quando veio a tona que ela era uma Sionista.

A defesa é familiar: Israel está lutando contra terroristas. Estão só se protegendo, tentando manter seus judaísmo iluminado no meio da barbárie da região não judaica. Isso é a mesma narrativa que o apartheid da África do Sul teve quando prendeu Nelson Mandela, quando cortou crianças de escolas em Soweto, ou quando massacrou protestantes em Sharpeville. Eles, também, estavam se defendendo contra as pessoas nativas que não gostavam de ser oprimidas.

E se Hollywood fizesse esse filme nos anos 1980s e colocasse no elenco uma militante do aphartheid para o papel de Mulher Maravilha? A mídia dos EUA iria focar no talento da atuação dela e na sua beleza, ao invés de no fato dela abertamente e com orgulho afirmar seu direito, enquanto mulher branca, de subjugar as pessoas do seu próprio país?

O que é mais desconcertante é que Gadot vem sendo chamada de feminista (por sua própria reivindicação), e, notavelmente, vista como uma mulher de cor. Queen Latifah se encaixa e teria feito um papel excelente de Mulher Maravilha, mas estou divagando.

A família de Gal Gadot veio para Palestina como colonizadora e conquistadora. Como a maioria dos Sionistas, a maioria de seus familiares mudou o nome Greenstein, para “indigenizar” eles mesmos. Mas isso não mudou quem realmente são. A posição de privilégio de Gadot na vida está baseada no desespero, desapropriação, roubo e destruição da sociedade indígena do lugar onde ela vive. Sobre isso, ela não oferece vergonha ou desculpas, mas sim orgulho.

Os debates feministas sobre esse filme têm ignorado esse fato crucial sobre ela. Eles têm omitido os aplausos da atriz sobre matanças desonestas que tiraram a vida de 547 crianças em menos de dois meses. No lugar disso, o foco das discussões vem sendo nas impossíveis proporções físicas dela. Essa é apenas mais uma maneira de como a destruição está normalizada na nossa sociedade.

Mas, não errem.

Não há conciliação entre Sionismo e feminismo. Esse feminismo imperialista antiquado pertence a outra era, quando as feministas lutavam pelo direito ao voto, mas apenas para as mulheres brancas.

Nas palavras de Jaime Omar Yassin, “O feminismo não pode ser Sionista, assim como não pode ser  neonazista. Feminismo que não tem um entendimento de como ser interseccional com as opressões raciais e étnicas é simplesmente uma diversificação da supremacia branca.”

Eu não vi o filme e nem pretendo. Mas milhões de meninas assistiram ou vão, incluindo garotinhas Palestinas, como uma versão mais nova de mim mesma. Elas vão ver superpoderes femininos simbolizados numa super heroína que tem desdém, desrespeito e desprezo por vidas Palestinas. É uma pintura dolorosa de ser contemplada. Eu só posso agradecer ao Líbano e a Tunísia – e as pessoas individualmente no mundo todo – por boicotarem o filme.

Texto original no site: http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2017/06/imperial-feminism-woman-170613101125222.html

Nota da tradutora 2:

Enquanto mulher feminista que defende um feminismo intersec, negro e classista, resolvi traduzir esse texto de Sandra Abulhawa buscando ampliar a possibilidade de debate. Quero deixar registrado, por fim: feminismo que cola com opressões étnico-raciais não é feminismo, é supremacia branca.

Carolina Braga é pernambucana, feminista, jornalista, historiadora e mestranda em História Social na UFF.