Delírio entre ruínas em “O Estranho que Nós Amamos”

por Cesar Castanha Na peça The glass menagerie, de Tennessee Williams, o autor apresenta uma família de classe média baixa que foi abandonada pela figura paterna. Amanda, a excêntrica mãe, Laura, a filha retraída, e...

por Cesar Castanha

Na peça The glass menagerie, de Tennessee Williams, o autor apresenta uma família de classe média baixa que foi abandonada pela figura paterna. Amanda, a excêntrica mãe, Laura, a filha retraída, e Tom, o filho poeta e afeminado, vivem em um apartamento pequeno na cidade, isolados do resto do mundo enquanto Amanda sonha com a juventude no Sul suntuoso, Laura cuida da sua frágil coleção de miniaturas de cristal e Tom procura um jeito de também deixar a casa. No último ato da peça, a monotonia fora da realidade dos personagens é interrompida por um gentlemen caller, um visitante masculino, o que perturba Laura imensamente e leva Amanda a se perder em seus delírios nostálgicos.

A propriedade em que vivem as personagens de O estranho que nós amamos (dir. Sofia Coppola, 2017), uma escola para garotas, lembra-me um pouco o apartamento da peça, um espaço para o delírio, para o sonho com um passado de suposta elegância. Assim como Laura protege as suas figuras de vidro, polindo-as com frequência, as garotas da propriedade atendem a aulas de francês, lições de piano e preces antes das refeições. Enquanto isso, o mato cresce ao redor da casa e ervas daninhas sobem por colunas greco-romanas, dando ao espaço um certo aspecto de ruínas habitadas.

É também uma Grey Gardens do tipo, a fazenda em Kentucky eternizada pelo documentário de mesmo nome de 1975, onde viviam em condições precárias a tia e prima de Jacqueline Kennedy, Edith Beale Mãe e Filha. São espaços do imaginário branco estadunidense, os fantasmas de uma falência moral, a denúncia da perversidade por trás do decoro que cada propriedade revela, mas aqueles que ainda a habitam tentam esconder em um comportamento alienado.

O estranho que nós amamos, é, afinal, um conto sulista do fim da Guerra Civil. As garotas na escola não estão sozinhas por acaso, elas estão impedidas de voltar para suas casas. Os escravos, como é mencionado por uma das meninas nas primeiras cenas do filme, “foram embora”. Essa única observação ao contexto da escravidão no Sul do país foi recebida com controvérsia. Questiona-se se o filme poderia realmente se dar ao luxo da ausência de personagens negros. E, enquanto concordo que devemos estar atentos aos riscos de apagamento racial nas narrativas brancas, acredito que os vestígios do recente passado escravocrata estão presentes no filme para bem além de algumas poucas indicações do enredo. É justamente a partir do reconhecimento das decorridas perversidades dos crimes sulistas que a diretora Sofia Coppola procura se aproximar das suas personagens, com as contradições de seus “bons modos” sempre evidentes pela maléfica inadequação de seu falso pudor.

O gentlemen caller do filme é um cabo ianque ferido, McBurney (Colin Farrell), resgatado no bosque pela jovem Amy (Oona Laurence), enquanto a garota colhia cogumelos. A sua presença entre as mulheres parece justificar, como em The glass menagerie, a mais delirante tentativa de resgate de uma esbelteza regional. Agora, as mulheres vestem tecidos finos, expõe suas pérolas, servem tortas de maçã e cantam em coro para seu prisioneiro, em uma excêntrica performance dos costumes sulistas. Ao exagero teatral desses gestos, segue-se a ironia de vê-los encenados entre ruínas de uma casa grande. As personagens também se dedicam ao transe cotidiano do repetitivo trabalho na propriedade, que é intercalado pelo filme com os mencionados momentos de exaltação, mas que também funcionam como um contraplano para o delírio, a materialidade do tédio a que essas garotas se aplicam.

Coppola está acostumada a filmar o entediante isolamento de pessoas privilegiadas. Neste filme, ela redescobre uma espécie de malícia patológica de se estar distante do resto do mundo que já acenava em Bling ring, seu filme anterior, sobre um grupo de adolescentes ricos que se organizavam para roubar a casa de pessoas famosas. Em O estranho que nós amamos, a diretora encontra na linguagem gótica uma forma para essa malícia. Quando Amy percorre o bosque ao início do filme, seu movimento inocente pela floresta ao crepúsculo a fazem uma chapeuzinho vermelho sem o chapeu, uma que se compadece pelo lobo mau e o acolhe em sua casa. Este conto de fadas, no entanto, é tão obsceno quanto A companhia dos lobos (dir. Neil Jordan, 1984), à moda da tradição oral do gênero, de avisos contra estranhos degenerados e recomendações violentas sobre como lidar com eles.

O título original, The beguiled, implica uma indeterminação na relação entre os personagens, podendo ser traduzido tanto como “o seduzido” ou “as seduzidas”. O que se revela nesse contexto de sedução mútua é uma ansiedade sexual em estado de repressão, o misto de excitação e medo pelo toque das anáguas na pele e no farfalhar de tecidos. As consequências dessa ansiedade podem fazer crer a acusação do Cabo McBurney de aquelas mulheres seriam, cada uma delas, vingativas maquiavélicas. Ou talvez o Sul seja também o seu delírio febril, um espaço que só pode ser acessado pela lembrança maníaca e alucinada.