Reconfigurações neorrealistas em “O Matador de Ovelhas”, por Alan Campos

O segundo dia do X Janela Internacional de Cinema do Recife começou com a exibição de O Matador de Ovelhas (dir. Charles Burnett, 1977), esse sendo parte da mostra L.A Rebellion. Fortemente enraizado...

O segundo dia do X Janela Internacional de Cinema do Recife começou com a exibição de O Matador de Ovelhas (dir. Charles Burnett, 1977), esse sendo parte da mostra L.A Rebellion. Fortemente enraizado em preceitos do neorrealismo italiano – simplicidade estética, locações reais, desejo por histórias reais, cenas, no geral, desdramatizadas – e interessado pelas diversas banalidades que sustentam o cotidiano de seus personagens, o filme de Burnett transforma os eventos do dia a dia em um mosaico de situações que independem umas das outras. Portanto, este não é um filme de casualidades, onde uma cena indica a próxima e assim por diante, mas, um filme de acontecimentos, um filme feito de registros. Pequenos, é claro, mas nunca insignificantes.

Nesse contexto, uma cena que retrata dois personagens levando uma peça de motor para uma caçamba de camionete ganha igual importância a de uma criança brincando com uma máscara de borracha. O interesse por essa comunidade negra e pobre dos anos 1970 nunca se revela distanciado ou despolitizado de um projeto de meditar e poetizar – as imagens de ovelhas são frequentemente cravadas na imagem – acerca das memórias daquelas pessoas.

O que me chegou de maneira tão forte foi como O Matador de Ovelhas conseguia ser movido por essa política do banal sem abdicar do teor social, que certamente também me parece existir em seu gesto de criação.

Para além das já citadas preferências pelo neorrealismo, O Matador de Ovelhas entendeu que a maior proeza de tais filmes é a dimensão reveladora e perturbadora na qual vivem àqueles personagens dos filmes neorrealistas. Essa dimensão neorrealista é provocada de duas maneiras no filme de Burnett: No afrouxamento da narrativa com início, meio e fim bem delimitados e resolvidos, e no próprio contexto temático do filme. Porém, o diretor a faz aparecer de maneira ligeiramente diferente.

Existia o trágico no neorrealismo. Tais personagens existiam e eram filmados sob o peso do plano longo, da música melodramática, do estreitamente continuo de suas existências. Tal caráter metamorfoseia-se, ou melhor, se dissipa em certo sentimento de melancolia que paira sob O Matador de Ovelhas, aparecendo com mais força em algumas cenas – em particular na cena das crianças brincando e o refrão de uma música questiona o que a palavra “América” significa, ou quando o personagem Stan sai em busca de emprego. Ao compor sua trilha sonora por canções populares, com apreço específico por blues antigos, o filme se livra do peso melodramático neorrealista e adquire, frequentemente, o caráter de celebração da comunidade retratada, celebração de uma cultura.

No filme de Burnett a metamorfose neorrealista adquire um estágio menos vinculado ao trágico e mais expressivo à própria situação retratada. O puro êxtase das brincadeiras infantis, o trabalho braçal, o deslocamento pela cidade, etc. Situações que são registradas por Burnett simplesmente por estarem lá. A encenação daqueles personagens parece ocorrer simplesmente porque eles “existem” e que no próprio contexto do filme, tal significado frequentemente se torna “persistem” ou ainda, “resistem”.

Matador de Ovelhas será novamente exibido como parte da programação do X Janela Internacional de Cinema do Recife no sábado, 11 de novembro, às 14h20, no Cinema São Luiz.