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17 de Março de 2014, 14h17

“A minha luta me faz merecedora de ser morta em um assalto?”, questiona Manuela D’Ávila

Deputada foi à rede social criticar o vazamento dos Boletins de Ocorrência e as críticas dos internautas que escreveram que ela "mereceu o assalto" por ser comunista

Deputada foi  à rede social criticar o vazamento de boletins de ocorrência e ataques de internautas que escreveram que ela “mereceu o assalto” por ser comunista

Por Redação

A deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) foi assaltada no domingo (9) quando chegava em sua casa acompanhada do músico Duca Leindecker, no bairro Mont’Serrat, em Porto Alegre. O casal foi rendido por dois homens armados que levaram o celular e o carro, um Peugeot 3008. O que a deputada não esperava era a reação de internautas frente ao assalto, que, entre outras coisas, disseram que por ela ser comunista “mereceu ser assaltada, pois era distribuição de renda”.

Indignada com os comentários na rede, Manuela D’Ávila escreveu um longo texto rechaçando as acusações e deboches com a cena que vivenciou. “Tive acesso a comentários inacreditavelmente maldosos relacionados ao que nos aconteceu. Motivados por dois ‘jornalistas’, diziam que, por ser comunista, merecia ser assaltada, pois estava distribuindo renda. Fazendo deboche com o assalto e com a minha ideologia, como se o fato de eu defender distribuição de renda mais justa justificasse a violência que sofri”, desabafou a parlamentar.

Em outro momento, a parlamentar responde a outro um comentário. “Li também que o que passamos havia sido pouco. Que deveria ter sido violentada por defender direitos humanos. Não imagino por que minha luta em defesa da livre orientação sexual, direitos das mulheres, condições carcerárias dignas, me faça merecedora de ser morta em um assalto à mão armada. Mais um gesto típico dos que não respeitam quem pensa diferente”, questionou D’Ávila.

A seguir, confira o texto da deputada Manuela D’Ávila na íntegra:

“Uma reflexão

Na madrugada de segunda, cheguei da delegacia de polícia em casa, como outros tantos brasileiros chegam, após serem vítimas da violência urbana – cansada, perplexa, triste e contraditoriamente feliz por estarmos ali, vivos. Repassava em minha cabeça detalhes do assalto – como a feliz coincidência de meu enteado não estar no automóvel – quando fui surpreendida por uma ligação de um jornalista. Nosso boletim de ocorrência com todos os seus detalhes – como o fato de reconhecermos ou não os ladrões – estava nas mãos da imprensa e eles, os jornalistas, telefonaram na madrugada. Foi pela imprensa que minha mãe ficou sabendo. Não tive nem sequer tempo de telefonar. Claro, entendo o trabalho dos jornalistas. Tenho dificuldade de entender o vazamento do boletim de ocorrência.

Um pouco depois, fui para a internet agradecer as pessoas que, carinhosamente, estavam preocupadas e nos escreviam.
Tive acesso a comentários inacreditavelmente maldosos relacionados ao que nos aconteceu. Motivados por dois “jornalistas”, diziam que, por ser comunista, merecia ser assaltada, pois estava distribuindo renda. Fazendo deboche com o assalto e com a minha ideologia, como se o fato de eu defender distribuição de renda mais justa justificasse a violência que sofri. Um dos jornalistas chegou a chamar de gesto de solidariedade o assalto. Algo tão maniqueísta como dizer que alguém que não é de esquerda defende a miséria ou como defender que alguém de direita seja torturado para ver como a ditadura militar doeu nos comunistas. Um desrespeito com a situação que vivi, típico de quem é totalitário, não me respeitando enquanto indivíduo porque penso diferente.

Li também que o que passamos havia sido pouco. Que deveria ter sido violentada por defender direitos humanos. Não imagino por que minha luta em defesa da livre orientação sexual, direitos das mulheres, condições carcerárias dignas, me faça merecedora de ser morta em um assalto à mão armada. Mais um gesto típico dos que não respeitam quem pensa diferente.

Mais ainda: outros tantos diziam que os ladrões estavam certos em roubar de mim por ser deputada, pois políticos são todos ladrões e apenas estavam pegando de volta o dinheiro roubado do povo. Como nunca roubei um centavo, não tenho centavo algum para devolver. O salário que recebo como parlamentar, há dez anos, devolvo com atuação séria e comprometida. Muitos podem não concordar com minhas ideias, mas ninguém pode questionar com solidez a minha seriedade e honestidade. E mais, os corruptos devem ser tirados da política de forma democrática com julgamento pelos espaços adequados e não sendo vítimas de violência ou bandidagem.

Claro que entendo a indignação da população com os políticos! É essa indignação que me motiva há 15 anos, e me faz lutar para mudar a política e, sobretudo, a forma como são financiadas as campanhas. Entendo as pessoas que pensam diferente de mim. E as respeito. Mas, para mim, o protesto contra a má política deve ser feito, em outubro, nas urnas. Contra as ideias que não concordamos também. Assim é a democracia. Que ela viva!

O que não entendo são as pessoas que reproduzem a violência e escrevem na internet como se isso não significasse nada. Como vamos enfrentar a violência no Brasil com essa postura? Como construir uma sociedade mais generosa, humana, respeitosa?
Alguns podem se perguntar: E sobre os ladrões, ela não vai falar? Sobre esses, falei com a polícia. Quero que todos paguem pelos erros que cometem, quem me assaltou inclusive. Contra a criminalidade, a violência, o tráfico de drogas, que transformam nossas cidades em palco de guerra, luto há quinze anos de minha vida. Há dez anos com mandatos. Apresentei leis, aprovei algumas. Disputei, por exemplo, duas vezes a prefeitura por entender que poderia mudar muitas questões na cidade. Perdi. Respeitei os vencedores.

Inspirada num pensamento de Nietzsche, “Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você”, quando fui para Brasília transformei uma frase em mantra – “não vou me transformar naquilo que combato”.

Luto por uma cultura de paz, que respeite as diferenças e construa relações mais solidárias e generosas entre as pessoas. Que o abismo não olhe tanto para dentro de nós e que possam refletir sobre a violência que cometeram contra mim e minhas pessoas queridas em cada comentário desses. Lutar para mudar o Brasil, com amor no coração, vale mais a pena”.