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29 de novembro de 2013, 16h18

“Minha vida se tornou um inferno”, reclama educadora, alvo de ex-articulista do Millenium

"Não existe professor que não entre em sala de aula com a sua visão de mundo", afirma Cléo Tibiriçá, acusada por Miguel Nagib de incutir nos alunos sua "visão esquerdista"

“Não existe professor que não entre em sala de aula com a sua visão de mundo”, afirma Cléo Tibiriçá, acusada por Miguel Nagib de incutir nos alunos sua “visão esquerdista”  Por Igor Carvalho Artigo de Miguel Nagib (Imagem: Escola Sem Partido) Alvo de perseguição ideológica, a educadora CléoTibiriçá passou a última semana se defendendo dos ataques incitados pelo advogado e ex-articulista do Instituto Millenium Miguel Nagib, que coloca a professora da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec) como alvo de um artigo, no qual é acusada de desenvolver uma “visão esquerdista” em seus alunos. Para Nagib, em seu artigo publicado...

“Não existe professor que não entre em sala de aula com a sua visão de mundo”, afirma Cléo Tibiriçá, acusada por Miguel Nagib de incutir nos alunos sua “visão esquerdista” 

Por Igor Carvalho

Artigo de Miguel Nagib (Imagem: Escola Sem Partido)

Alvo de perseguição ideológica, a educadora CléoTibiriçá passou a última semana se defendendo dos ataques incitados pelo advogado e ex-articulista do Instituto Millenium Miguel Nagib, que coloca a professora da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec) como alvo de um artigo, no qual é acusada de desenvolver uma “visão esquerdista” em seus alunos.

Para Nagib, em seu artigo publicado no site Escola Sem Partido, a educadora é uma “ameaça” pois incute nos alunos “a maior aversão possível a tudo o que não se identifique com uma visão esquerdista ou progressista da sociedade, da cultura, da economia e da história.”

Entre os autores recomendados pela docente a seus alunos estão o historiador Eric Hobsbawn, o linguista Marcos Bagno e o sociólogo Ruy Braga, além de uma canção de Chico Buarque e documentários sobre Milton Santos e a participação dos Estados Unidos no golpe militar.

O texto do advogado provocou discursos inflamados nas redes sociais. “Tenho verdadeiro nojo das pessoas que tem me procurado anonimamente na internet”, afirmou Tibiriçá.

Tudo começa quando a Cléo, em conversa privada com os alunos em um grupo de e-mails, discorre sobre a produção de uma atividade extra-sala, pedida por ela. “Não sei como, isso foi parar no artigo do Sr. Nagib, completamente deturpado e descontextualizado”, afirma a educadora, que não sabe dizer se há alunos seus fornecendo informações do curso ao advogado.

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Em nota, o Instituto Millenium (Imil) diz que Miguel Nagib “não faz parte do atual grupo de articulistas e que não mantém nenhum vínculo ou parceria com a iniciativa ‘Escola sem partido’”, ainda que seu nome constasse na página eletrônica da instituição até a realização dessa matéria.  “O Imil, que é formado por intelectuais e empresários, visa promover valores e princípios que garantem uma sociedade livre, como liberdade individual, direito de propriedade, economia de mercado, democracia representativa, Estado de Direito e limites institucionais à ação do governo”, diz a nota. “Os especialistas que participam do think tank  defendem ideias distintas, já que a pluralidade de pensamento é um valor importante para a instituição. São publicados no site do Imil e debatidos em eventos institucionais temas que tenham afinidade com os valores. O Instituto Millenium não responde, no entanto, por todas as ideias defendidas pelos especialistas.”

A campanha contra a professora foi condenada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Centro Paula Souza (Sintesp), que promete apoio jurídico à educadora caso ela deseje levar o caso aos tribunais. Confira entrevista na íntegra com Cléo Tibiriçá.

Fórum – Como a senhora tomou conhecimento de que estava sendo perseguida?
Cléo Tibiriçá – Recebi dois e-mails do coordenador do blogue [Escola Sem Partido]. No primeiro e-mail, ele me dizia que publicaria nas semanas seguintes alguns artigos denunciando uma suposta “prática doutrinária” da minha parte. Achei que fosse alguma brincadeira e nem respondi. Quatro dias depois, recebi um segundo e-mail dele dizendo que estava publicado o primeiro artigo e que eu tinha o direito de resposta.

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Bom, aí percebi que era algo sério. Fui pesquisar quem era esse cara [Miguel Nagib] e o que significava esse blogue, aí fiquei apavorada, óbvio.

Fórum – Algumas pessoas, nas redes, defendendo o Nagib, afirmam que a Fatec, como instituição pública, não pode difundir orientações políticas em seus cursos. O que a senhor pode dizer sobre isso?
Tibiriçá – Isso é um absurdo. O que eles chamam de orientação política? A Fatec é sim uma instituição pública, mas em educação não existe professor que não entre em sala de aula com a sua visão de mundo e não existe instituição de educação em cujo espaço não conviva diferentes visões, tanto na gestão, como nos docentes e nos alunos.

Fórum – Houve divulgação de mensagens particulares suas com os alunos?
Tiibiriçá – Quase todo professor constrói, no Yahoo, um grupo de e-mails com os alunos, para discutir questões da disciplina. No grupo de uma determinada turma, nós trocamos informações sobre uma atividade que solicitei aos estudantes, de produção textual. Essa atividade tinha como base um artigo publicado pela Carta Capital, que falava de quando os alunos do curso de Economia de Harvard, do professor Mankiw [Gregory] se recusaram a assistir a aula dele. O epsódio acontece no auge da crise americana e os alunos queriam que Mankiw abordasse outras teorias econômicas. Eles saíram e deram apoio aos manifestantes do “Occupy. Pedi a leitura desse artigo e que lessem, também, sobre as referências citadas no texto. Os alunos precisam saber quem é Gregory Mankiw, o que foi o “Occupy”, o que é liberalismo clássico, neoliberalismo, enfim, nosso curso é de Comércio Exterior, e esses alunos têm que saber sobre esses assuntos.

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Alguns alunos fizeram a recomendação de um livro, que eu desconhecia, e fui perguntar para alguns professores da área de Economia, e esses colegas me desaconselharam a usar o livro. Na correspondência interna, com os alunos, eu desancoselhei a leitura e pedi que lêssemos gente boa, os clássicos mesmo. Não sei como, isso foi parar no artigo do senhor Nagib, completamente deturpado e descontextualizado.

Fórum – Ele chama o material utilizadode “subversivo”. Isso lhe remete a outras épocas?
Tibiriçá – Sem dúvida. Me leva para épocas horrorosas, em que até o “Pequeno Princípe” era considerado “subversivo”.

Fórum – Desde a publicação do artigo, como tem sido sua rotina?
Tibiriçá – Minha vida se tornou um inferno, meu telefone não para de tocar em nenhum momento. Na Fatec, meus alunos tem falado muito sobre isso. Tenho visto meu nome envolvido com acusações das quais não posso me defender. Me chamam de marxista, meu Deus, peço desculpas aos meus amigos marxistas, isso é de uma ignorância tão grande, pois é tão difícil se encontrar um de verdade, e eu não sou. Tenho verdadeiro nojo das pessoas que tem me procurado anonimamente na internet…

Fórum – Você já foi ameaçada?
Tibiriçá – Não, tenho sido intimidada. São ofensas e também há pessoas que dizem que vou para o inferno, que vou pagar em outras vidas, enfim…

Fórum – A senhora pretende processar Miguel Nagib?
Tibiriçá – Não sei ainda, tenho refletido sobre isso. Alguns advogados me procuraram sugerindo que eu o processe, mas estou pensando.

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