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09 de Março de 2015, 14h40

“Não dá para ficar em silêncio no caso do estupro de Frota”, diz Juca Ferreira

Para ministro da Cultura, confissão do ator em uma concessão pública "evidencia, mais uma vez, a naturalização da violência contra as mulheres, a subjugação do corpo feminino por uma cultura machista e destrutiva"

Para ministro da Cultura, confissão do ator em uma concessão pública “evidencia, mais uma vez, a naturalização da violência contra as mulheres, a subjugação do corpo feminino por uma cultura machista e destrutiva. Depois, o preconceito contra religiões de matriz africana e, por fim, expõe o uso abusivo da televisão, uma concessão pública, que deve servir e honrar a cidadania em vez de desrespeitar, segregar e agredi-la”; confira a íntegra do artigo 

Por Redação 

No último domingo (8), Dia Internacional da Mulher, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, escreveu um artigo sobre a violência e discriminação e como os meios de comunicação carregam enorme responsabilidade na perpetuação desses conceitos. Ele cita o episódio que ganhou grande repercussão da semana passada: a confissão, em um canal de televisão, de um suposto estupro cometido pelo ator Alexandre Frota

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Confira a íntegra do artigo. 

A mudança está na distribuição do poder simbólico 

Não dá para ficar em silêncio diante do caso do ator que simula, entre risos e aplausos, a agressão sexual contra uma mãe de santo transmitida em rede nacional de televisão. Esta história escancara mazelas da nossa sociedade sobre as quais nenhuma pessoa minimamente comprometida com a vida brasileira pode se omitir.

Primeiro, evidencia, mais uma vez, a naturalização da violência contra as mulheres, a subjugação do corpo feminino por uma cultura machista e destrutiva. Depois, o preconceito contra religiões de matriz africana e, por fim, expõe o uso abusivo da televisão, uma concessão pública, que deve servir e honrar a cidadania em vez de desrespeitar, segregar e agredi-la. 
 
Não sou chegado a moralismos do tipo politicamente correto, que cerceiam o riso, a troça ou o sarro, como se diz na Bahia. Sou ainda menos adepto do modismo do bullying, tão apropriado à sociedade norte-americana, quanto inadequado ao nosso modo de vida. Não é por aí.
 
A cena patética que o ator decadente diverte o público simulando sexo violento fala do nosso eu profundo, da matriz de violência e desprezo reproduzida incessantemente nas telas e em nossas relações cotidianas.
 
A cena, ao mesmo tempo em que mostra a nossa verdadeira face, nos indaga: é assim que queremos ser para sempre? A verdade é que estamos diante de uma encruzilhada civilizatória. Chegou a hora de fazermos as escolhas que definirão o nosso lugar no futuro.
 
Não há dúvida de que é na rota da comunicação e da cultura, e não simplesmente pela via da ascensão econômica, que faremos a travessia para uma sociedade justa e igualitária onde todos, homens e mulheres, poderão exercer não apenas cidadania e direitos de contribuinte, mas também sua singularidade e sua subjetividade livres de qualquer forma de opressão e preconceito.
 
Em pleno Brasil do século XXI, salvo bravos movimentos de resistência, estes direitos ainda se restringem a grupos dominantes estruturados na cultura dos homens brancos, conservadores, ocupantes do alto da pirâmide econômica e cultural.
 
Como ministro da cultura,  antes de tudo, trabalho pela democratização da liberdade de expressão e pela ampliação do acesso ao poder simbólico – o direito de produzir e compartilhar significados, visões de mundo e valores culturais. Isso passa pela produção de políticas públicas de democratização dos meios de comunicação, passa pela ampliação do acesso à cultura e, ainda, pela abertura de amplos canais de participação social na vida pública.
 
É por aí que vamos consolidar a nossa democracia, construir uma sociedade baseada no amor e na generosidade e encontrar o nosso lugar no mundo contemporâneo.
 
Por Juca Ferreira
Ministro da Cultura