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08 de janeiro de 2019, 16h31

Monica Benicio: “São 300 dias de um dos crimes políticos mais bárbaros da história ainda sem justiça”

“É lastimável que após uma semana da posse o presidente não tenha se pronunciado publicamente ou procurado a família para quaisquer esclarecimentos ou prestação de solidariedade, embora não me surpreenda”, afirma a viúva de Marielle Franco

Foto: Reprodução/Facebook Os assassinatos da ex-vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes completam 300 dias nesta terça-feira (8) sem que os culpados tenham sido punidos. Apesar disso, Monica Benicio, arquiteta, militante feminista e LGBTI, defensora dos direitos humanos e viúva de Marielle não perde a esperança: “Não acho que seja possível, de nenhuma forma, que esses crimes fiquem sem solução”. No entanto, ela alerta para a necessidade de se manter na luta: “O tempo traz, de alguma forma, um ‘conformismo’ com o passar do tempo. A ausência passa ser algo associada à rotina e o sentimento de indignação vira...

Foto: Reprodução/Facebook

Os assassinatos da ex-vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes completam 300 dias nesta terça-feira (8) sem que os culpados tenham sido punidos. Apesar disso, Monica Benicio, arquiteta, militante feminista e LGBTI, defensora dos direitos humanos e viúva de Marielle não perde a esperança: “Não acho que seja possível, de nenhuma forma, que esses crimes fiquem sem solução”. No entanto, ela alerta para a necessidade de se manter na luta: “O tempo traz, de alguma forma, um ‘conformismo’ com o passar do tempo. A ausência passa ser algo associada à rotina e o sentimento de indignação vira outra coisa. Não podemos permitir que a ausência da Marielle caia no conformismo. Para mim, no campo pessoal e político, não há possibilidade de me conformar”, declara, em entrevista à Fórum.

Fórum – Você ainda teme que os assassinatos de Marielle e Anderson fiquem sem solução e sejam esquecidos?

Monica Benicio – Não acho que seja possível, de nenhuma forma, que esses crimes fiquem sem solução. O Brasil passa vergonha internacional. São 300 dias de um dos crimes políticos mais bárbaros da história ainda sem justiça.

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Fórum – Em sua avaliação, o que é preciso fazer para evitar que os assassinatos caiam no esquecimento?

Monica Benicio – Comprometimento e prioridade do Estado brasileiro, em parceria com a delegacia que está investigando o caso no Rio e Janeiro, ou que haja logo o deslocamento de competência para que o caso seja federalizado, considerando que são dez meses sem resultado efetivo. Além das organizações internacionais e da sociedade civil, todos devemos permanecer em vigilância para que não caia no esquecimento.

Fórum – Durante todo esse período, alguma autoridade procurou você para atualizá-la sobre o andamento das investigações?

Monica Benicio – Não! Eu somente sou informada quando vou cobrar.

Fórum – Evidentemente você jamais vai esquecer ou se conformar com a perda de Marielle. Mas acredita que isso pode acontecer com a opinião pública, caso a solução dos crimes demore ainda mais?

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Monica Benicio – O tempo traz, de alguma forma, um “conformismo” com o passar do tempo. A ausência passa ser algo associada à rotina e o sentimento de indignação vira outra coisa. Não podemos permitir que a ausência da Marielle caia no conformismo. Para mim, no campo pessoal e político, não há possibilidade de me conformar. A vida da Marielle representava muitas vidas. Representava as vidas que esse Estado assassino julga descartável, que é a vida LGBTI, a vida Negra, a vida Favelada, e nós não podemos admitir isso. O fato de nos mantermos constantemente indignados com a execução da Marielle é dizer que não aceitamos essa sociedade tão desigual e que, sim, nossas vidas importam.

Fórum – Na segunda-feira (7) você e Marielle completaram mais um ano de união oficial. Essas inúmeras datas marcantes servem também para que encontre mais forças para continuar a luta que é sua e era dela?

Monica Benicio – Dia 7 era nosso aniversário de relacionamento. Foram muitos anos comemorando muitas datas felizes. Marielle amava comemorações e celebração da vida. Todos os muitos momentos maravilhosos que tivemos juntas, sem dúvida, me inspiram a seguir. Continuar nessa luta por ela é uma forma de estar com ela e tê-la presente diariamente. A construção de uma sociedade menos desigual e mais justa para todos era um sonho nosso. Para mim, continuar lutando pelo que sonhávamos juntas é uma forma de seguir dizendo “eu te amo, vamos juntas”.

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Fórum – O que você acha do fato de que Jair Bolsonaro não se pronunciou nenhuma vez sobre o caso e a necessidade de apuração?

Monica Benicio – É lastimável que após uma semana da posse o presidente não tenha se pronunciado publicamente ou procurado a família para quaisquer esclarecimentos ou prestação de solidariedade, embora não me surpreenda. O silêncio ou omissão num caso como esse vira conivência. Um presidente sério não pode ser cúmplice de um dos crimes de maior repercussão desse país.

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