07 de maio de 2018, 15h34

Moonlight, ou como um menino negro navega o mar, por Viviane Pistache

Se Moonlight é a possibilidade de sairmos do clichê homem preto, heteronormativo falocêntrico, criticando assim a hiperssexualidade negra; também nos faz retornar à estaca zero: sem saber nadar, esse homem negro é um eterno menino

Mais uma vez a Viviane Pistache* traz para a coluna uma reflexão sensível e cativante sobre cinema. Desta vez, ela escreve sobre Moonlight, vencedor do Oscar de melhor filme em 2017 e destaque na crítica recente ao “cinema branco demais” de Hollywood.

 

 

Moonlight, ou como um menino negro navega o mar, por Viviane Pistache

Pois pisamos na lua para assistir a este raro missaré nas telas, ao som de Every Nigger is a Star, na voz de Boris Gardiner. Nós que também temos ancestralidade indígena e sabemos que missaré é o casamento que acontece nos céus; podemos ver em Moonlight um singelo encontro de astros celestiais. E assim como a lua abraça a estrela, também derrama sua luz na pele dos meninos negros para que o azul de suas almas resplandeça.

Esse é certamente o argumento manifesto do filme; mas o truque do diretor do filme, Barry Jenkins, é deixar como argumento latente que todo menino negro precisa do mar para que sua alma possa brilhar incontestavelmente azul. Assim, todo menino-homem negro merece um oceano de oportunidades para estar no meio do mundo e poder navegar pelo menos com confiança.

No caso em tela, a insegurança foi a fiel companheira do Little-Chiron-Black, seja incorporada nos cachimbos de pedra nas ruas ou nas mãos de sua mãe, seja na companhia de outras crianças no campinho de futebol, seja nas fugazes figuras paternas, seja na ameaça da panela de água fervendo ainda que prometendo o conforto de um banho quente ou seja na crueldade dos colegas de classe. Assim, a saga do homem negro que nasce na criança e desemboca no adulto é talhada a remo como numa difícil travessia Cuba-EUA a bordo de uma canoa quebrada. Sendo o mar a campa para as lágrimas e os gritos que nunca serão ouvidos.

Há uma cena em que Chiron pergunta a Kevin se ele chora e este diz que não, que só tem vontade. Mas Kevin continua: “E você, chora por quê?” Chiron por sua vez responde: “Choro tanto que, às vezes, acho que vou virar lágrimas.”. E Kevin arremata: “É só entrar na água que nem esses idiotas que querem afogar as mágoas.” Esse diálogo certamente nos lembra uma belíssima fala do personagem Donato, bravamente interpretado por Wagner Moura no filme Praia do Futuro: “Te escrevo pra dizer que eu não morri. Aqui, nessa cidade subaquática, tudo pra mim faz mais sentido. Eu não preciso me esconder no mar pra me sentir em paz. Nem preciso mergulhar pra me sentir livre.” Assim, estes dois meninos precisam do mar até que ele não se faça mais necessário. Esse foi o caminho para Donato poder ser gay, e trilha semelhante percorre Chiron para ser gay e negro. Mas o protagonista de Moonlight enfrenta noites muito mais densas de pesadelos e de solidão. O personagem Juan, que fez as vezes de pai com muita sensibilidade, foi também uma estrela cadente que passou na vida do Little Chiron como um raio para anunciar o futuro: ser um solitário traficante de desgraças, lhe deixando como herança além da coroa dourada no para-choque do carro; o espectro da morte que cobre a cabeça como um turbante de seda negra.

Por sua vez, Teresa, a namorada de Juan, é um projeto de maternidade cuja perfeição é absolutamente estéril, tão inoperante como água doce para curar tumores. Assim, a face materna do afeto mais cotidiano é também a mais assustadora, que ao fumar a dignidade em pedras, embaça e interdita um possível espelho de reconhecimento para o filho quando lhe diz: “Don’t look at me!”, deixando rastros de traumas. Assim Chiron, Black, busca em Kevin alguma possibilidade de ser, mas aí permanece sitiado. A mão amiga que lhe traz o gozo macio e quente como afundar a mão na areia; é a mesma mão que lhe oferece as asas de ganja e é a mesmíssima mão que lhe quebra a cara. Sozinho em sua infelicidade silenciosa, Chiron recorre ao azul que lhe resta: abrir as portas da escola-pavilhão para buscar na violência a possibilidade de ser homem e enfrentar Terrel, a aterrorizante face da homofobia negra, jovem, masculina e da periferia. A cada porta azul que atravessa, Chiron afunda nas profundezas do seu possível Classic Man, conforme canta Jidenna na trilha sonora do filme.

E este homem clássico é um oceano de contradições, é o negro que nadou contra e ao mesmo tempo foi engolido pelas ondas das ruas, do carrão, dos dentes de ouro, da puta Afrotisha. Mas esse homem clássico, que usa máscara musculosa, precisa apenas de um bom prato de afeto, feito pelas mãos que involuntariamente o mantém refém desde menino numa sexualidade castrada.

Se Moonlight é a possibilidade de sairmos do clichê homem preto, heteronormativo falocêntrico, criticando assim a hiperssexualidade negra; também nos faz retornar à estaca zero: sem saber nadar, esse homem negro é um eterno menino que mal consegue falar, infante estrela carente do ventre da lua. Mas o final abrupto de Moonlight é também esperança, pois nos ombros azuis de Kevin, Chiron é o Classic Man, que tem alma de Paloma, cantada por Caetano Veloso, ainda nesta incrível trilha sonora. Se esta pomba canta infeliz, pelo menos tem asas para atravessar a noite de lamentos solitários. E entre Moonwalk e Moonlight alguns homens negros alcançam a lua, enquanto seus corações seguem sendo cálices de vidro a transbordar fel.

*Viviane A. Pistache. Preta das Minas Gerais. Graduada em Psicologia pela UFMG e doutoranda em Psicologia pela USP. Aventureira em contos, roteiros e crítica de cinema