12 de janeiro de 2019, 19h32

Moradores do Higienópolis querem “limpeza” de população de rua

Moradores de um dos bairros mais elitistas de São Paulo criaram campanhas na internet como a "Me devolva Higienópolis" em que reivindicam um tipo de limpeza social; postagens racistas, xenófobas, ameaças de morte e exposição de pessoas em vulnerabilidade dominam a página; "A maioria do lixo de rua infelizmente são os moradores de rua mesmo"

Reprodução/Facebook

“O bairro está cheio de ladrões, moradores de rua, pedintes, maconheiros, qual o problema de querer o bairro de volta sem essas porcarias aí?”; “Queremos nosso bairro limpo sem a cracolândia presente nas ruas fazendo suas necessidades fisiológicas”; “Eca, nojo, bando de morto de fome”; “Acho melhor os nordestinos voltarem pra lá e deixar São Paulo”; “Encher a porrada nesses porra”; “Pouca ideia com essa raça”; “Cana neles, vagabundo”; “Deveria isolar esse povinho, separar do Brasil”; “A maioria do lixo de rua, infelizmente são os moradores de rua mesmo”; “Tem que matar uns fdp desse”.

As frases acima representam apenas algumas das postagens preconceituosas, racistas, xenófobas e elitistas postadas em grupos de moradores do bairro Higienópolis, em São Paulo, no Facebook. Através desses grupos, os moradores do bairro que tem um dos metros quadrados mais caros da capital mobilizam campanhas online e tentam atrair a atenção da polícia, do prefeito e do governador para “limpar” a região.

Há pelo menos dois grupos com a mesma vertente: um se chama “Me devolva Higienópolis” e o outro “Higienópolis segura”. A maioria das postagens consistem em reclamações relacionadas à “sujeira” do bairro que, para muitos, inclui as pessoas em situação de rua e trabalhadores informais como ambulantes, além de comentários, vídeos e fotos sobre assaltos que, segundo os moradores, seriam recorrentes no bairro.”Indigentes”, classificou uma moradora da região que acredita ter mais direito sobre o bairro por pagar IPTU.

Os administradores do grupo, por um aparente descuido, deixaram a página em modo público, o que preocupou alguns dos participantes. Muitos sugerem a mudança do nome da campanha e do grupo por o considerarem “politicamente incorreto”. Por outro lado, foi criado um avatar de foto de perfil relacionado à campanha que já está sendo usado por boa parte dos membros.

Além das postagens preconceituosas, há aqueles que chegam a pregar a morte de moradores de rua e supostos assaltantes. “Um tiro bem dado no meio da cabeça e o problema estava resolvido”; “Na boa, tem que matar esses vermes mesmo”. A sanha pelo assassinato de pessoas “indesejadas” no bairro é endossada, ainda, pela possibilidade do presidente Jair Bolsonaro facilitar a posse de arma de fogo. “Espero que em 2019 possa matar esses bandidos e ser parabenizado”, escreveu um. “Vem logo, Bolsonaro”, postou outro.

O higienismo social pregado por moradores do bairro que leva o conceito de “higiene” até no nome não vem de hoje. Algo parecido aconteceu em 2011 quando uma moradora da região propôs uma mobilização contra uma estação de metrô nas redondezas que, segundo ela, atrairia “gente diferenciada”. A declaração rendeu eventos de protesto contra o elitismo do bairro, como o “churrascão da gente diferenciada”.

Minutos após a publicação desta matéria os administradores tornaram o grupo privado. Confira, abaixo, algumas das postagens que puderam ser salvas enquanto o grupo ainda era público.