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21 de setembro de 2018, 19h06

Mordomia – O termo cunhado pelo jornalista Ricardo Kotscho que virou samba e desnudou os militares

Jantares, viagens, auxílio-moradia, vários carros e motoristas e outras mordomias que desfrutavam os militares que instauraram a ditadura para combater a corrupção e o comunismo

Foto: Arquivo/Reprodução
Mordomia. O termo ficou consagrado pelo imaginário popular a ponto de virar até um samba do saudoso Almir Guineto. A palavra serve, a princípio, para designar as benesses que os políticos usurpam com os seus mandatos. Coisas como lautos jantares, viagens, auxílio-moradia, vários carros e motoristas entre outras que frequentam até hoje os noticiários. Mas não se engane o leitor ao achar que isso é invenção dos políticos e juízes dos dias atuais. O ato de se refestelar com o dinheiro público no Brasil nasceu, provavelmente, com a chegada da família real, em 1808 e nunca mais acabou. Mas o...

Mordomia. O termo ficou consagrado pelo imaginário popular a ponto de virar até um samba do saudoso Almir Guineto. A palavra serve, a princípio, para designar as benesses que os políticos usurpam com os seus mandatos. Coisas como lautos jantares, viagens, auxílio-moradia, vários carros e motoristas entre outras que frequentam até hoje os noticiários.

Mas não se engane o leitor ao achar que isso é invenção dos políticos e juízes dos dias atuais. O ato de se refestelar com o dinheiro público no Brasil nasceu, provavelmente, com a chegada da família real, em 1808 e nunca mais acabou.

Mas o termo mordomia, que traduz tão bem a prática, surgiu mesmo com uma série de matérias de Ricardo Kotscho para o jornal O Estado de S. Paulo, em 1976, auge da ditadura militar. E os textos tratavam justamente da prática entre membros e ministros do regime, tanto civis quanto militares, estes mesmos que se jactam ao propalar que no tempo deles tudo era honestidade e estoicismo. Estes mesmos que, historicamente, usam o combate à corrupção para justificar seus golpes e regimes.

Kotscho, que já contou e recontou essa história inúmeras vezes, inclusive no livro “Do Golpe ao Planalto – Uma vida de repórter”, lembra em suas memórias que o ponto de partida foi o fim da censura prévia nos jornais. Aos mais novos não custa lembrar que no auge da ditadura, todas as redações contavam com a presença de um censor, pelo qual passavam todas as matérias que seriam publicadas.

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Muitas delas, é claro, após o longo e extenso trabalho do jornalista, sofriam tesouradas e até mesmo eram cortadas totalmente. Os versos de “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões, apareceram 655 vezes nas páginas do Estado, de 2 de agosto de 1973 a 3 de janeiro de 1975, no lugar das matérias cortadas. Já no Jornal da Tarde, Ruy Mesquita optou pela publicação de receitas de bolos e doces.

Em 1976, a ditadura dava os primeiros sinais de arrefecimento. Os censores saíram das redações e, segundo relato de Kotscho, o então diretor de redação do Estadão, Fernando Pedreira, mos­trou uma reportagem da revista New Yorker sobre a boa vida e os privilégios dos altos funcionários na então União Soviética. “Dá uma olhada nisso. Você vai descobrir que aqui é a mesma coisa.”

A primeira fonte do repórter para levantar os dados foi o próprio Diário Oficial. Nele, aparecia a palavra-chave em forma de rubrica, que especificava a relação de comes, bebes, cartões de crédito e benfeitorias em geral destinadas aos ministros e altos funcionários: mordomia.

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As matérias foram, enfim, publicadas, sem cortes nem censura de espécie alguma. A repercussão estrondosa foi descrita pelo próprio Ricardo Kotscho e vale a pena reproduzir o trecho na íntegra:

As edições do jornal esgotavam rapidamente nas bancas de todo o país e pessoas tiravam cópias (não me lembro se já existia xerox, mas sei que tiravam de algum jeito) para quem não conseguia comprar o Estadão. Não houve desmentidos, ninguém foi processado, mas por muitos dias não se falou de outra coisa no Congresso Nacional e em tudo que era canto do país. Também não me lembro se alguém foi punido no governo, mas temo que a denúncia das mordomias tenha provocado um efeito contrário ao que eu imaginava: em vez de acabar com elas, fiquei sabendo depois que elas se alastraram por outros escalões e latitudes das diferentes esferas de poder.

Ganhamos o Prêmio Esso de equipe daquele ano e fiz questão de convidar colegas que participaram do trabalho para recebê-Io e dividi-lo junto comigo, em São Paulo. Não houve festa nem cerimônia, como habitualmente acontece. O prêmio foi entregue na redação do jornal mesmo, junto à mesa do editor-chefe Clóvis Rossi, meu mestre e grande incentivador dos jovens repórteres que éramos todos naquela época.

Mordomia passou a fazer parte do vocabulário do dia a dia do brasileiro. A ditadura acabou, o jornal mudou, eu fui ser correspondente do JB na Alemanha, e nunca mais se deixou de denunciar o que havia de privilégio ou abuso na vida dos donos do poder. Bons tempos esses, apesar de tudo.

Capa do livro de Ricardo Kotscho. Foto: Divulgação

O jornalista Ricardo Kotscho foi procurado pela Fórum para falar sobre a série de matérias. Impedido por compromissos, ressaltou que toda a história estava contada em detalhes no seu livro “Do Golpe ao Planalto – Uma Vida de Repórter”, publicado em 2006, pela Companhia das Letras.

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Leia aqui trechos da série de matérias de Ricardo Kotscho sobre a mordomia dos funcionários estatais para o Estadão, escritas em 1976

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