Moro e Neymar: a vaidade é o pecado favorito do Diabo | Revista Fórum
10 de julho de 2018, 17h19

Moro e Neymar: a vaidade é o pecado favorito do Diabo

Em 72 horas os maiores investimentos semiótico-ideológicos da grande mídia foram desconstruídos: Sérgio Moro e Neymar Jr. O primeiro caiu na armadilha do habeas corpus que supostamente iria soltar Lula. E o segundo, na arapuca tautista midiática que fez o jogador acreditar que era intocável, até a viralização do mote “cai-cai” em vídeos pelo mundo eliminá-lo junto com a Seleção. Duas bombas semióticas

“Vaidade… definitivamente é o meu pecado favorito!”, diz Milton, o Diabo disfarçado de advogado em O Advogado do Diabo, 1999, ao ver Keanu Reeves cair mais uma vez na mesma armadilha criada por ele no início do filme.

Essa foi a casca de banana jogada pelos advogados e deputados Wadih Damous e Paulo Pimenta com o pedido de habeas corpus no TRF-4. Em férias, o juiz de primeira instância Sérgio Moro caiu na verdadeira arapuca da vaidade. Criou um imbróglio e expôs a autofagia do Judiciário.

Como um verdadeiro homem-bomba, o desembargador plantonista Rogério Favreto expediu o habeas corpus no domingo e determinou a soltura imediata de Lula dos cárceres da PF de Curitiba. Moro acusou o golpe e, desesperado e com orgulho ferido, ligou para o diretor-geral da Polícia Federal para os carcereiros não acatarem a ordem. E em seguida, também para o relator da Lava Jato no TRF-4, Gebran Neto.

Criado o impasse, teve que entrar em cena o presidente do TRF-4, Eduardo Thompson Flores (o campeão da Globo com uma entrevista de destaque ao Fantástico, antes do julgamento de Lula em segunda instância no Tribunal Federal de Porto Alegre) para por fim à “batalha de decisões”, o que só explicitou todo o freak out de juízes feridos no orgulho.

De repente, todos voltaram de férias. Todos querendo ser o juiz de plantão, reivindicando ser o juiz natural do processo – fogueira das vaidades: como assim, um juiz petista vai libertar Lula depois que todos correram e leram milhares de páginas de processos em tempo recorde para prender Lula antes das eleições?

Tudo começou no triplex do Guarujá

A estratégia do Empate

Quebra de hierarquia e um cabo de guerra que poderiam ser sido facilmente evitados libertando Lula para, em 24 horas, o STF indeferir a decisão do desembargador plantonista. Mas a armadilha da vaidade foi bem armada: expos os intestinos do Judiciário, o voluntarismo político de Moro, além de criar um explosivo fato político num momento em que Lula estava “esquecido” pela grande mídia.

Bomba semiótica perfeita, com timing mas, principalmente, pela estratégia ativista do “empate” – tática intermediária entre o pacifismo e o belicismo para criar um impasse institucional. Que lembrou um outro gol anterior da esquerda: a invasão do triplex do Guarujá pelo MTST e a Frente Povo Sem Medo em abril.

Lá a ocupação criou um potencial impasse institucional (se o apartamento é de Lula, então estavam autorizados pelo dono para invadirem; se não, quem vai pedir a retomada de posse? – clique aqui). Mas aqui, na expedição do habeas corpus, o impasse se deteriorou em um cabo de guerra, quebra de hierarquia, desobediência e posicionamento político explícito em decisões supostamente processuais.

Moro e a isca

Era óbvio que e a libertação de Lula cairia rapidamente no STJ. Mas era o que menos importava. O ardil estava em outra cena, assim como em abril no Guarujá: lá, foi o vídeo gravado no interior do tríplex desmentindo os supostos 1,2 milhões investidos pela OAS; em Porto Alegre, a isca da vaidade que expôs a politização do Judiciário. Tão politizado quanto a bomba semiótica de efeito retardado jogada pelo PT.

Como vimos na postagem anterior sobre a invasão do tríplex, a perfeita bomba semiótica produz como efeito: Detonação, Letalidade, Dilema Midiático e Dissonância Cognitiva.

(a) O timing da Detonação

Uma bomba de efeito retardado aproveitando o timing da eliminação do Brasil na Copa. A derrota brasileira foi à tarde. À noite, os advogados deram entrada com o habeas corpus no TRF-4.

Aliás, o mesmo timing da grande mídia: seguindo a denúncia da Globo no portal G1 e no Jornal nacional na noite de sexta, a mídia repercutiu a denúncia contra o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, de oferecer facilidades de serviços públicos para pastores, igrejas evangélicas e fiéis. Além da Globo voltar ao bate-bumbo da Lava Jato no Estado do Rio.

Eliminada a Seleção, a opinião pública sai do transe. Para a bomba semiótica da vaidade explodir em pleno domingo.

Será que a esquerda está aprendendo a lutar no mesmo campo simbólico da grande mídia?

Valdo e Camarotti: pegos de surpresa nas suas residências gaguejando

(b) Letalidade: Globo sentiu o golpe

Não tem preço ver apresentadores e comentaristas de política da Globo News como Gerson Camarotti e Valdo Cruz pegos de surpresa no domingo, falando de suas residências via Internet, todos gaguejando e tentando costurar alguma narrativa para dar sentido a tudo.