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06 de dezembro de 2014, 13h45

Morra linda

A propaganda nos insensibiliza para os riscos e intenções por trás dos procedimentos estéticos. Silicone, lipoaspiração, lifting, alisamento e hidrogel – aquele que quase matou Andressa Urach. Se você é mulher, é provável que já tenha pensado em alguma intervenção para enquadrar o seu corpo um pouco mais nos padrões de beleza. Vale tudo – […]

A propaganda nos insensibiliza para os riscos e intenções por trás dos procedimentos estéticos. Silicone, lipoaspiração, lifting, alisamento e hidrogel – aquele que quase matou Andressa Urach. Se você é mulher, é provável que já tenha pensado em alguma intervenção para enquadrar o seu corpo um pouco mais nos padrões de beleza. Vale tudo – até mesmo ficar sem comer.

Já não nos chocamos com propostas absurdas e ideias degradantes, desde que elas nos ofereçam a chance de nos tornarmos mais parecidas com as mulheres criadas pelo Photoshop. Nos ensinam que não valemos nada além de nossa aparência física. Não importa se alcançamos um cargo de prestígio, ou se ganhamos um prêmio Nobel; ao aparecermos em público, todos vão comentar sobre nosso cabelo, maquiagem, roupa e traços faciais.

É difícil enfrentar o mundo inteiro e dizer que isso é misoginia, ódio contra mulheres. “Ódio? E a liberdade de injetar hidrogel no corpo?”, dizem. Curioso como a liberdade é muito mais livre quando busca a padronização. Mas que tal reivindicar a liberdade de ter a bunda chapadíssima e mesmo assim usar um biquini na praia? Ou de ter o nariz largo e grande, mas tirar fotos sem procurar um ângulo que o diminua? Nem tente. Você vai parar na internet, no mínimo. Vai virar meme. “Vejam essa aberração de mulher que não se encaixa no padrão e nem tenta! Que louca!”

As feministas é que são loucas. Especialmente aquelas que não acham que tudo é “questão de escolha”. Ser louca é tocar no sagrado sacerdócio das indústria da beleza. Você passa a ser ditadora em um piscar de olhos cirurgicamente aumentados. Blink blink. Dizer às mulheres que elas não precisam de nada disso para que sejam sujeitos válidos? Uma afronta!

A mensagem é muito clara: não importa quem você é e quais qualidades tem para oferecer à humanidade. Seja linda. Nem que para isso você tenha que injetar algo estranho no seu corpo sem que ninguém conheça os efeitos colaterais. Nem que tenha que rasgar aqui, tirar pele e gordura desse lado e cortar ali para botar isso tudo nesse outro lugar. Passe produtos químicos podres e fortes no seu cabelo. Remova costelas. E prenda a respiração, porque vamos enfiar umas mangueiras sugando a gordura do seu corpo. Se tiver complicação? Bem, aí você morre. Mas morre linda.

Linda.

 

Foto de capa: Reprodução/Facebook