09 de agosto de 2018, 21h12

Motivador profissional

O motivador profissional caprichava nas metáforas, criava experiências que nunca teve e citava uma frase de Henry Ford, que era podre de rico, para mostrar aos desempregados do dia seguinte quantas oportunidades existem no fracasso

Conheci um sujeito numa festa. A simpatia viva. Há pessoas que parecem nunca ter sido tristes, nem um dia sequer. Por isso, desconfiei desde o começo. Digo isso, não por cabotinismo, mas por justiça. Essa que defendo para todos, quanto mais para mim. Tudo na vida tem seu reverso. Por isso que eu desconfiei.

Sorria. A toda hora ele sorria. E quanto mais abria a boca e estendia os músculos do rosto até formarem-se covas em suas bochechas, quanto mais puxava cadeiras para as senhoras e se dispunha a ajudar alguém, mais a desconfiança me tomava.

Aí vem a bebida, as gravadas se afrouxam e a informalidade revela o inconfessável.

Não sei porque de mim se aproximou, pois o evitei enquanto pude. Talvez tenha sido, para ele, desafiadora minha indiferença. Àquela altura era praticamente um parente dos anfitriões, íntimo de meus amigos e o queridinho do porteiro à cozinheira. Eu era o último soldado na trincheira, e me sentia protegido em minha Linha Maginot.

A simpatia, entretanto, é uma desgraça. E ele veio, pediu o isqueiro, acendeu um cigarro e envolveu-me numa conversa ajustada ao ritual do cigarro em festa. Contornou minha resistência. Quando dei por mim, estávamos enchendo a cara e reclamando do nosso Vitória.

Contou-me. Era consultor motivacional, especialista em gerenciamento de mudanças e novos desafios, o que demorei a entender, mas sem perder a pose. Aos poucos, com dificuldade, comecei a conectar os fatos.

O busílis era esse. Uma grande empresa ia demitir funcionários, ou ser incorporada e cortar despesas, retirando benefícios e derrubando os salários. Os empresários, munidos de pesquisas e dados estatísticos, preferiam arcar com os custos de seu serviço, do que assumir as consequências.

O sujeito recebia uma pauta da empresa, já com os pontos a serem trabalhados. Só depois empregava seu talento.

Iriam demitir centenas de funcionários? O motivador profissional caprichava nas metáforas, criava experiências que nunca teve e citava uma frase de Henry Ford, que era podre de rico, para mostrar aos desempregados do dia seguinte quantas oportunidades existem no fracasso; indispensável ao recomeço.

Os empregados aplaudiam. Planejava-se o corte nos planos de saúde? O palestrante recorria à Bíblia, sacava dela dois versículos e outra situação pela qual nunca passou, e explicava didaticamente porque na vida, menos é mais.

Perderão metade do auxílio transporte? “Quem tiver duas túnicas dê uma a quem não tem nenhuma; e quem possui o que comer, da mesma maneira reparta”, citava ele os sacramentos, sem constrangimento. “Melhor perder um olho do que os dois, porque quem vê não é o olho, mas você”, arrematava, criando encíclicas.

E assim, entre menções aos apóstolos, o profissional da motivação fazia justiça aos seus rendimentos, em seu peculiar entendimento. Para a empresa, saía mais barato contratá-lo do que arcar com as prováveis demandas judiciais.

Dalí saímos, cada um para seu canto. Sina que o álcool realiza, a incontinência verbal pulou de felicidade. Estava livre. Ele me atirou no meio da cara, como quem premeditara a vingança cruel por eu ter vendido tão caro minha desconfiança.

–  Sou eu quem amanso o boi.