Cid Benjamin

18 de fevereiro de 2019, 08h50

“Mourão, catuca por baixo que ele cai”

Da redemocratização até hoje, a relação dos vices com os presidentes e com a sociedade não foi homogênea. Algumas vezes foi até de rasteiras e golpes baixos

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Da redemocratização até hoje, a relação dos vices com os presidentes e com a sociedade não foi homogênea. Algumas vezes foi até de rasteiras e golpes baixos.

Começando por uma dupla cujo titular nem assumiu o mandato – Tancredo Neves e José Sarney – a morte do primeiro deixou a sociedade frustrada e nas mãos de um vice que não somente apoiara o regime militar, mas tinha sido presidente do partido que lhe dera sustentação. O país conviveu com uma situação estranha, o governo Sarney, civil, simbolizava o fim da ditadura, mas, seu titular, por mais que não fosse uma figura truculenta – esse crédito é preciso dar-lhe – não permitia que o grito de gol, abafado na garganta, saísse com força do peito.

Depois veio Fernando Collor, que na campanha se apresentou como como caçador de marajás e paladino da luta contra a corrupção. Teve como vice um político visto, com razão, como honesto: Itamar Franco. Por que Itamar aceitou entrar naquele barco não deixa de ser uma incógnita. Afinal, ele não era um noviço e já se sabia quem era Collor. Mas esta é outra história.

O fato é que, mal começaram a vir à tona os podres do governo, Itamar se recolheu. Afastou-se para preservar a sua reputação.

Acabou premiado. Não fez nada para que se pudesse dizer que puxou o tapete do titular, mas o cargo caiu no seu colo. O pouco tempo de mandato que teve melhorou sua biografia, malgrado questões menores (a propósito, reapareceu por aqui na semana passada aquela atriz-modelo-manequim Lilian Ramos, que andou pelo exterior, recordam-se dela?)

O sucessor, Fernando Henrique Cardoso, teve o vice dos sonhos. Digo isso pelo comportamento sempre discreto e leal de Marco Maciel, não por seu desempenho como político. Conservador, medíocre (no sentido original do termo, de sem expressão ou originalidade), sempre teve uma atuação insípida, inodora e incolor. Seus voos nunca foram além dos bastidores.

É verdade, também que a situação ajudou à sintonia entre os dois: à época de seus mandatos na Presidência, o PSDB já completara o giro à direita e tinha deixado de lado qualquer veleidade socialdemocrata. No fundo não diferia muito do PFL, partido de Maciel, a não ser pelo fato de ter mais gente com mestrado e doutorado do que o seu parceiro, repleto de coronéis do interior.

Em 2002, quando Luiz Inácio Lula da Silva anunciou seu vice, o desconhecido senador mineiro José Alencar (PL), os segmentos progressistas se dividiram. Uns apoiavam a escolha do Grande Chefe, dizendo: “Ele sabe o que faz; de qualquer forma, vice não manda nada”. Outros espernearam, mas não tinham muito o que fazer. Afinal, Roma dixit, causa finita.

Alencar surpreendeu a quase todos. Foi um vice respeitável, altivo e ativo. Sem atropelar a autoridade do presidente, não foi um zero à esquerda. Mostrou-se um legítimo representante do que sobrava de uma burguesia brasileira com aspirações a projeto próprio para o país e para si mesma.

Sem deixar de ser leal a Lula, com quem sempre manteve excelentes relações, tanto pessoais como políticas, marcou suas diferenças quando o presidente “chamou o Meirelles”, um legítimo representante do sistema financeiro internacional, entregando-lhe a condução da economia. Alencar foi um persistente batalhador pela queda dos juros. Não venceu a luta, mas a travou com dignidade.

Dilma Rousseff teve como vice Michel Temer, um dos capos do então PMDB. Depois de um período em que a preocupação maior era manter espaços para si e seus amigos, no segundo mandato Temer embarcou na perspectiva golpista. Com a crise, o grande capital considerou que era a hora de tirar Dilma do governo e garantir maiores taxas de lucro. Já não se tratava mais de fazer negócios ou influir em algumas áreas do governo, mas de tomá-lo de assalto por inteiro.

Dada a vida pregressa de Temer, não se pode dizer que os traídos não soubessem de quem se tratava. Afinal, quem dorme com criança amanhece mijado. Mas, na galeria de vices, Temer acabou sendo exemplo dos que tramaram a queda da titular.

Na eleição do ano passado, o general Hamilton Mourão não era a primeira opção de Jair Bolsonaro para compor a chapa como vice. Antes já tinham sido sondados o então senador e pastor Magno Malta, figura de destaque nas igrejas de negócios, e a advogada Janaína Pascoal, que na campanha do impeachment impressionou menos pelas ideias e mais por um gestual que fez muita gente se perguntar se a reforma psiquiátrica não teria ido longe demais. Ambos não aceitaram. Duvidavam da possibilidade de sucesso da empreitada.

Surgiu, então, o nome de Mourão, general cujas parcas incursões na mídia tinham sido marcadas por declarações golpistas ainda na ativa. Elas, aliás, já tinham motivado transferências de posto, levando Mourão a perder o comando de tropas. As poucas entrevistas que deu mostraram que ele tinha credenciais para figurar na galeria dos “gorilas” latino-americanos. A exemplo de Bolsonaro, homenageou o major Brilhante Ustra – já transformado em símbolo maior da tortura na ditadura militar. E pregou abertamente a submissão direta dos Brasil aos Estados Unidos. Enfim, nada do que disse na época mostrou que ele e Bolsonaro tinham alguma diferença, a não ser a patente, claro.

Uma vez na Vice-Presidência, Mourão mudou. Ou, pelo menos, mudou o discurso.

Diante do festival de idiotices proferidas por ministros de Bolsonaro a cada dois ou três dias no primeiro mês e meio de governo (e, faça-se justiça, o presidente não participou disso; estava hospitalizado), Mourão foi construindo uma imagem de sensatez. Bastava um ministro qualquer – Damares (Família), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Ricardo Salles (Meio Ambiente) ou Ricardo Velez (Educação) ou qualquer outro – dizer uma bobagem e lá vinha o vice fazendo o contraponto. Mourão chegou a receber a CUT em audiência. E quando Bolsonaro acenou com a mudança da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, o vice imediatamente convidou para uma audiência representantes da Autoridade Palestina. Um tapa na cara do presidente. Só faltou convidar João Pedro Stédile e Guilherme Boulos para tomar um café.

Claro que foi tudo de caso pensado. Diante do previsível naufrágio do barco do governo Bolsonaro, por absoluta incompetência do capitão, Mourão procurou se apresentar como mais competente e mais preparado. Menos idiota, enfim.

Credenciou-se, claro, a entrar na galeria dos vices que ficaram de olho na cadeira do titular.

O destaque dado pelas Organizações Globo aos mil e um problemas do governo – ligações da família de Bolsonaro com milicianos, desenvoltura inacreditável dos filhos 01, 02 e 03 em assuntos que não eram de sua alçada e os escândalos de corrupção envolvendo o partido do presidente – é digno de registro. Dá a impressão de que o grande capital está com o pé atrás. Talvez ele já comece a não ver em Bolsonaro alguém capaz de aprovar as malfadadas reformas e estar à frente do país na tarefa de alavancar seus negócios da melhor maneira possível.

O futuro dirá se é isso mesmo.

Se Bolsonaro cair para a entrada de Mourão, este certamente vai exonerar as figuras mais ridículas do Ministério, mas a política antipopular a antinacional com certeza continuaria. Ou seja, no essencial as coisas não mudariam muito.

De qualquer forma, Bolsonaro tem razões para botar as barbas de molho.

Em tempos de carnaval, tudo indica que seu vice esteja embalado pela marchinha “General da banda”, imortalizada em 1950 pela voz de Blecaute: “Mourão, Mourão, catuca por baixo que ele cai…”