Cinegnose

por Wilson Ferreira

28 de setembro de 2015, 14h29

Muito além da exploração da fé no documentário “O Capital da Fé”

Pastores retirando sacos de dinheiro dos templos ou maquininhas de cartão de crédito passando pelos fiéis nos cultos tornaram-se imagens habituais nas críticas às novas igrejas neopentecostais. Mas o documentário “O Capital da Fé” (Gabriel Santos e Renan Silbar, 2013) vai muito além disso, ao mostrar que, paradoxalmente, essas críticas alimentam um mito que apenas dá força a um gigantesco negócio que está sendo montado:  capital e fé unidos não apenas pela exploração da fé de pessoas simples, mas pela financeirização e liquidez que lava tão branco quanto paraísos fiscais e que constrói lentamente uma forte sustentação política parlamentar que quer chegar ao Poder. As novas igrejas há muito tempo abandonaram o clichê do Tio Patinhas. Hoje estão confortáveis no mundo pós-moderno da liquidez.

Ao som da ópera Carmina Burana, e com cortes ao ritmo da música, assistimos a um verdadeiro vídeo clipe de socos, chutes, sangue e fraturas dos combates do MMA de Jesus – um evento chamado Reborn Strike Fight 5 promovido pela Igreja Renascer. Lutadores clamam em nome de Cristo pela vitória.

Essas são as cenas iniciais de O Capital da Fé, documentário de curta metragem que aborda a nova Igreja Evangélica brasileira, suas contradições, a espetacularização da fé com inusitadas cristianizações de coisas como micaretas e esportes de luta, assim como as ambições políticas de seus dirigentes – assista ao documentário abaixo.

A espetacularização da fé e a exploração financeira praticadas pelas igrejas evangélicas são denúncias sem nenhuma novidade, recorrentes desde nos anos 1990 quando a TV Globo comprou briga com a Igreja Universal com uma série de matérias sobre a exploração dos dízimos dos fiéis. E o bispo Edir Macedo ameaçou em represália colocar no ar o documentário proibido sobre a Rede Globo Muito Além do Cidadão Kane na sua emissora, a TV Record.

O Capital da Fé teria tudo para repetir esses temas, mas foi além: máquinas Cielo de cartão de crédito passadas entre os fiéis nos cultos, a construção de gigantescos templos, cultos que são verdadeiros shows de stand ups e as gigantescas marchas por Jesus seriam apenas a fachada mais aparente da consolidação de um gigantesco plano de negócio – lavagem de dinheiro e a conquista da hegemonia política parlamentar.

O Documentário

Os diretores Gabriel Santos e Renan Silbar pareciam saber que estavam lidando com um tema já diversas vezes revisitado, mas que sempre foi tratado de uma forma moralista que sempre martela na mesma tecla: o povo que é enganado na sua fé e é explorado por pastores mentirosos e oportunistas que pensam somente em enriquecer.

Mas o documentário quer ir além desse lugar comum, e por isso deve conduzir o espectador aos poucos até chegar ao ponto pretendido. Na primeira metade o documentário revisita as denúncias clássicas contra as igrejas neopentecostais: a cristianização generalizada de esportes de luta, micaretas e lambadas como formas de propaganda, a precária formação teológica dos seus pastores (invariavelmente formados em Teologia em cursos ministrados pela própria igreja), a espetacularização da fé, o foco na teologia da prosperidade e o incentivo do consumismo no interior dos cultos como forma de propagar a glória de Deus – o sucesso pessoal do crente.

Formas de cristianismo corporativo cuja fórmula é emprestada de empresas de marketing de rede como Herbalife ou Tupperware que transformam os seus produtos em religião cujos ícones exteriores do sucesso econômico dos seus vendedores (o carro, a casa etc.) passam a ser a propaganda da própria marca.

Dos verdadeiros shows de stand up que os pastores promovem nos cultos ou nos estúdios de TV evangélica às imagens do dízimo sendo recolhido nas igrejas por meio de máquinas de cartão da Cielo (“preferimos cartões de crédito”, ouve-se a certa altura), aos poucos o documentário vai conduzindo o espectador ao tema mais explosivo: o engajamento dessas igrejas não busca apenas supostas salvações, curas e libertações de um rebanho sofrido e carente. Atualmente o engajamento modificou-se – incita-se os fiéis com o lema “irmão vota em irmão” com o evidente propósito de uma ação política.

De onde vem o dinheiro?

Vemos imagens das Marchas com Jesus que se transformaram em eventos de demonstração de força política com a presença de deputados da bancada evangélica que incitam nos fiéis o ódio aos seus críticos, além da presença de autoridades laicas – aparecem imagens do governador de São Paulo Geraldo Alckmin em um desses eventos.

Construções faraônicas como o Templo de Salomão em São Paulo (com pedras trazidas de lugares tidos como sagrados em Israel) a aquisição de canais de TV e a demonstração de força das Marchas com Jesus são reivindicadas como “Vitórias de Cristo”.

Aos poucos, O Capital da Fé vai chegando a uma questão simples e óbvia que o viés mais moralista da questão parece ignorar: mas tudo isso é pago apenas com o dinheiro dos dízimos e contribuições espontâneas de fiéis? Por que essas igrejas querem tanto explicitar esse suposto engajamento financeiro dos crentes?

No documentário vemos duas declarações de Ricardo Gondim, pastor da Igreja Betesda, supeitando que o funcionamento desse tipo de negócio é muito mais complexo: “Morei nos EUA, lidei com igrejas ricas (batistas e presbiterianas), mas lá não existe essa quantidade de dinheiro que corre aqui no Brasil” e “A minha experiência como pastor diz o seguinte: essa dinheirama toda que banca canais de TV, mega-construções e frotas de aviões, essa dinheirama não existe no bolso dos crentes… o povo brasileiro é pobre”.

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