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23 de julho de 2011, 04h31

Murdoch: o itinerário dos crimes

O escândalo envolvendo escutas telefônicas, subornos a policiais, chantagens a políticos e pagamentos cala-boca a várias vítimas por parte da News Corporation de Rupert Murdoch tem o potencial de ser um dos marcos da história recente dos meios de comunicação, pelo que revela acerca do poder dos conglomerados de mídia. Trata-se de um gigantesco império […]

Murdoch e o Príncipe Alwaleed, acionista da News Corp

O escândalo envolvendo escutas telefônicas, subornos a policiais, chantagens a políticos e pagamentos cala-boca a várias vítimas por parte da News Corporation de Rupert Murdoch tem o potencial de ser um dos marcos da história recente dos meios de comunicação, pelo que revela acerca do poder dos conglomerados de mídia. Trata-se de um gigantesco império de US$60 bilhões em ativos e um volume de negócios anual de US$ 33 bilhões. Seus tentáculos incluem desde tabloides sensacionalistas como News of the World (agora fechado, pelo escândalo) e New York Post até outrora respeitáveis baluartes da imprensa conservadora como o The Times e Wall Street Journal, passando por cadeias de TV a cabo como a poderosa e ultra-conservadora Fox News estadunidense até a TV a cabo europeia (BSkyB na Grã-Bretanha ou Sky na Itália) e asiática (Star TV), sem esquecer dos estúdios de cinema (Twentieth Century Fox) e da indústria editorial (HarperCollins). Um mega-conglomerado de proporções assustadoras.

Em julho de 2009, o correspondente do News of the World encarregado da cobertura da família real, Clive Goodman, foi pego violando os telefones do palácio com o auxílio de um detetive particular, Glenn Mulcaire. A empresa se defendeu com a teoria da “maçã podre,” o jornalista e o detetive foram presos, o editor, Andy Coulston, renunciou, e tudo ficou por isso mesmo. Só o Guardian manteve a linha de investigação óbvia, de que se tratava de uma operação que tinha o conhecimento de outras figuras dentro da empresa. O Guardian mostrou, na época, que havia outro repórter transcrevendo mensagens telefônicas deixadas para o executivo chefe da Associação de Futebol Profissional, Gordon Taylor, e enviando-as para “Neville”, referência ao repórter chefe do News of the World, Neville Thurlbeck. Aí já eram mais dois. Considerando que é improvável que um reporter júnior invada telefones alheios sem ciência de pelo menos um executivo da empresa …

Naquele escândalo—e em outros—, Murdoch recorreria uma tática que depois, ante o parlamento, ele alegaria ter sido de uso inocente, orientado por advogados: o pagamento de enormes quantias em dinheiro às vítimas como “cala-boca.” A participação da polícia no episódio dá uma mostra do que é o poder do conglomerado News Corp. Logo depois desse primeiro escândalo, ela divulgou uma nota dizendo que não havia nada “novo” para investigar. 11.000 páginas de notas manuscritas por Mulcaire, listando 4.000 celebridades, políticos, desportistas, policiais e vítimas de crimes estavam em poder da Scotland Yard desde 2006, e absolutamente nada havia sido feito. Enquanto isso, oficiais da Scotland Yard diziam ao público e ao parlamento que não havia indícios de violações telefônicas, e que as duas prisões feitas em 2009 haviam encerrado o caso. O comissário assistente John Yates, da Scotland Yard, reconheceu que não havia olhado as provas compiladas: “não vou ficar olhando em bolsas de lixo”, disse, referindo-se à montanha de 11.000 páginas com provas do crime.

Os tentáculos da criminalidade na News Corp não podem ser entendidos sem a figura de Rebekah Brooks, jornalista de trajetória meteórica e conhecida pela truculência. Em poucos anos, ela passou de editora do The Sun a braço direito de Murdoch e executiva chefe da News International. Foi ela quem, pessoalmente, levou o ex-Primeiro Ministro Gordon Brown e a esposa às lágrimas, pelo telefone, ao comunicar-lhes que tinha, e publicaria, a informação de que seu filho de quatro meses de idade tinha fibrose cística. Poucos meses depois, Gordon Brown comparecia ao casamento de Rebekah Brooks. O império do medo disseminado pela News Corp e seus tabloides era de tal proporção que nem mesmo o Primeiro Ministro do Reino Unido podia evitar comparecer ao casamento daquela que havia humilhado publicamente o seu filho de quatro meses de idade. Brooks também foi apontada como uma das responsáveis pelo escândalo que trouxe de novo à tona o caso das escutas ilegais: as mensagens apagadas do celular de Milly Dowler, garota depois encontrada morta. Como o News of the World acessava ilegalmente uma caixa postal que rapidamente encheu, eles passaram a apagar mensagens para escutar as novas que chegavam. O apagamento de mensagens, claro, deu aos pais a esperança de que a garota estava viva. Em 2009, em meio às investigações do Guardian, Brooks declarou: “Isso vai terminar com Alan Rusbridger [editor do Guardian] de joelhos me implorando clemência”. No dia 15 deste mês, Brooks renunciou ao seu cargo na News Corp e no dia 17 foi presa. Solta sob fiança, terá que se reapresentar à polícia em outubro.

“Eles teriam nos destruído”, declarou Rusbridger recentemente. “Eles teriam fechado o Guardian, se pudessem”.

E a vida ficou ainda mais difícil no Guardian quando o novo Primeiro Ministro David Cameron nomeou, como seu porta-voz de imprensa, Andy Coulston, figura chave no império de Murdoch e sucessor de Rebekah Brooks na editoria do News of the World. Ali ficava claro que, se as relações com o Primeiro Ministro trabalhista Gordon Brown funcionavam na base da intimidação, os vínculos com o conservador Cameron eram muito mais íntimos. Coulston foi acusado por vários ex-repórteres do News of the World de ter incentivado a prática de invasão telefônica. Sean Hoare, o repórter que denunciou Andy Coulston como um dos responsáveis, foi recentemente encontrado morto. Coulston também foi preso em conexão com o escândalo das escutas ilegais e liberado sob fiança.

Ao longo das revelações, o que mais salta aos olhos é o absoluto terror e pânico que o conglomerado de Murdoch era capaz de impor. Uma convocação a que Rebekah Brooks depusesse no parlamento chegou a ser engavetada porque não havia suficientes deputados dispostos a assiná-la, sabedores do poder devastador do império da News Corp. Do ponto de vista brasileiro, a pergunta que não quer calar é óbvia: se ocorrem abusos dessa ordem num país em que existe regulação da mídia, como a Inglaterra, e no qual há uma poderosa alternativa pública de qualidade (a BBC), o que não estará acontecendo, o que não terá acontecido, no Brasil?

Os textos publicados até agora pela imprensa escrita brasileira sobre o caso Murdoch são de visível timidez, especialmente no caso d’O Globo. Talvez seja o momento de relembrar uma matéria de 2004 da IstoÉ Dinheiro, que retrata a chegada de Murdoch ao setor de TV a cabo no Brasil. A matéria descreve a entrada de Murdoch como providencial para a sanar as dívidas da Globo na ocasião, e descreve o magnata australiano como “o parceiro que a Globo sonhava”. Resta saber até que ponto tem ido essa parceria.