Cinegnose

por Wilson Ferreira

09 de abril de 2018, 14h57

Na prisão de Lula mais uma vez a esquerda perde a guerra semiótica

Do significado da data da prisão de Lula determinada por Moro (06/04, dia da morte do “Patriarca da Independência”, José Bonifácio); passando pelo destino do comboio que levava Lula para a PF no bairro da Lapa (ao invés de Congonhas, evitando que a militância petista entrasse em rede nacional fazendo protestos na entrada do aeroporto); e chegando aos planos de câmera de TV do helicóptero decolando, conduzindo o prisioneiro e no segundo plano prédios com luzes piscando em apartamentos que comemoravam o desfecho. Todos os detalhes revelaram a elaborada guerra semiótica do complexo jurídico-policial-midiático. A resposta de Lula e do PT foi rápida e promissora: se encastelar no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, sugerindo a estratégia de empate e desobediência civil. Para cobrar um alto preço simbólico pela rendição. Mas acabou cedendo à indefectível narrativa da “luta e resistência” e abandonou o campo de batalha semiótico, em rede nacional. Mas os eventos deixaram mais uma vez nu o jornalismo da TV Globo ao dificultarem o acesso da emissora às informações diretas do centro da crise em São Bernardo.

O semiólogo e especialista em Idade Média Umberto Eco tinha uma obsessão em procurar aspectos medievais na era moderna. Eco falava em uma “Nova Idade Média” baseada na “irrealidade cotidiana da TV” transmitida para as pessoas fechadas em suas casas, inseguras. 

E via a reprodução da “autorictas” medieval (grandes monólogos de citações de autoridades eclesiásticas) nas diferentes interpretações e opiniões no monopólio midiático atual.

Eco não precisaria de muito esforço semiológico para descobrir no Brasil elementos medievais numa sociedade na qual até emula o ecletismo sagrado/profano dos dias de “festas”: enquanto em frente da sede do sindicato dos metalúrgicos Lula participava de uma missa em memória a sua esposa Maria Letícia a poucas horas antes de se entregar à Polícia Federal, o rufião Oscar Moroni (dono da emblemática casa de prostituição de luxo Bahamas Hotel Club em São Paulo) colocava pôsteres com as fotos do juiz Moro e da presidenta do Supremo Carmen Lúcia e oferecia ingressos vitalícios para os bravos e competentes homens de bem.

Profunda ironia eclética num país os supostos ateus, comunistas e bolivarianos celebram missa católica enquanto os campeões da moralidade pública são homenageados em um puteiro de elite. Decididamente, o Brasil não é para amadores. Somente um olhar semiológico e medievalista como de Umberto Eco para compreendê-lo.

Na Idade Média, a autorictas pairava sobre uma vida cotidiana dominada pela Igreja e os habitantes apenas se preocupavam com a própria dura rotina de moer grãos, construir estábulos e moinhos (totalmente alheios às Cruzadas, a Inquisição e o poder dos reis coroados pela própria Igreja). 

Enquanto no Brasil a população está imersa na sua rotina da luta pela sobrevivência, assistindo bestificada à luta de duas narrativas (ou “autorictas”): de um lado a narrativa do repentino e “último humanista” juiz Sérgio Moro (propondo condições “dignas” para o ex-presidente se entregar – sem algemas etc.) e do outro a narrativa tão cara à esquerda – a da “luta e resistência”.

Umberto Eco: uma “Nova Idade Média” brasileira?

A guerra semiótica policial-midiática

Apesar do obsessivo wishful thinking da esquerda nos últimos dias (de que a direita “estava desesperada” com os últimos excessos – tiros na caravana do Lula no Sul, intimidação contra o STF com ameaça de golpe militar, por ex. – de que a “previsibilidade” mudara de lado – os golpistas estariam numa “sinuca de bico” com o STF supostamente à beira de dar o HC a Lula com o voto de Minerva da ministra Rosa Weber) tudo terminou como planejado pela estratégia semiótica do complexo jurídico-midiático:

(a) A chegada na superintendência da Polícia Federal em São Paulo do comboio de carros negros (a cor é importante!) levando Lula prisioneiro no timing perfeito para a poderosa Globo: horário nobre, no fim do telejornal local e entrada em rede nacional;

(b) Apesar do plano inicial (levar o prisioneiro direto para o aeroporto de Congonhas onde seria feito exame de corpo de delito e embarque a Curitiba), para surpresa dos próprios analistas políticos da Globo (veremos isso mais adiante) o comboio passou reto e foi para a Lapa. Questão de timing e visibilidade: a necessidade simbólica de cruzar a cidade com o troféu para ser exibido às buzinas de carros comemorando a prisão e pedestres desfraldando bandeiras nacionais. Além de dar tempo para a Globo entrar em rede nacional; 

(c) Evitar que em rede nacional Lula entrasse em Congonhas cercado pela militância e manifestantes lulistas. Preferiram a entrada de Lula na Lapa cercado de um punhado de manifestantes com camisas da CBF, soltando rojões e bradando pixulecos, enquanto repórteres da Globo do local falavam em “multidão” às portas da PF;

 

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(d) Globo entra em rede imediatamente após o fim do telejornal local com a célebre vinheta do “Plantão da Globo”. Vinheta arquetípica (virou até toque de celular), associada no imaginário nacional a grandes eventos que mudaram a história do País;

(e) Com tanta pompa e circunstância, era necessário dar algum grau de drama (que a narrativa da esquerda conseguiu com a tensão reinante no sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo) – um desajeitado repórter engravatado da Globo, no meio da “massa” de manifestantes com camisas amarelas na entrada da PF, descreve um início de “tensão” entre manifestantes pró e contra Lula. Na verdade, uma mulher que se desentendia com outro manifestante e que o ofegante repórter tentava encaixar na pauta da beligerância dos militantes petistas;

Carros negros na noite cruzando a cidade com o troféu

(f) Para depois Lula embarcar no “helicóptero cedido pelo governo do Estado” (Alckmin tinha que tirar uma casquinha desse show na cidade sede do palácio do seu governo) e chegar em Congonhas, com as manifestações pró-Lula no aeroporto bem longe do enquadramento das câmeras. E, claro, enquanto o helicóptero decolava da PF, o plano de câmera mostrava ao fundo edifícios nos quais viam-se luzes de apartamentos piscando em comemoração à prisão;     

(g) E tudo narrado com forte seletividade linguística. Nas 48 horas da resistência de Lula ouvíamos todo tempo repórteres e apresentadores se corrigindo para evitar certas palavras: “podemos ver aqui do alto manifes… quer dizer, apoiadores e militantes…”. “Manifestantes… quero dizer, na verdade apoiadores de Lula…”. Ou a hesitação da locução do apresentador Chico Pinheiro, ao vivo, descrevendo a chegada do comboio na PF: “Lula sai do sindicato e chega à PF depois de muitos ehhhh… pedidos!”. Usar palavras como “manifestantes”, “tentativas” ou “resistência” eram proibidas. 

Aliás “manifestantes” eram apenas aqueles vestidos de camisetas amarelas. Para dar uma conotação “pública” e “apartidária”. Enquanto “apoiadores” e “militantes” para os manifestantes lulistas conferia o tom negativo de “sectário”, “partidário” e “extremista”.

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