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04 de julho de 2017, 12h13

Não somos apenas bunda! Ou sobre a erotização da mulher negra

Ser mulher negra é um processo de reencontro cotidiano, de reconstrução da identidade que nos foi tomada e negada.

Por Juliana Borges*

O que é ser mulher negra para você? Digo, quando você pensa nestas palavras, ditas ou escritas, conjuntamente, “mulher negra”, o que vem à sua cabeça? A qual imagem você associa essas palavras?

Não é uma surpresa quando nos deparamos com um programa de auditório em que uma das convidadas diz que queria ser negra, mas que nasceu apenas com a “bunda grande” de uma mulher negra. Não ser uma surpresa, não significa que não indigne. As mulheres negras são historicamente estereotipadas seja no físico seja no psíquico. São ditas e vistas como instáveis, incapazes para o trabalho intelectual, quentes, lascivas, desconfiadas, brutas, impacientes, braçais, bravas, etc. Em “Dicionário da Escravidão Negra do Brasil”, Clóvis Moura nos traz qual era a visão sobre a “mucama” no período escravocrata brasileiro:

“Escrava doméstica, negra ou parda, escolhida, quase sempre pela senhora, para os serviços domésticos, especialmente nas casas grandes do Nordeste. Acompanhava a cadeirinha na qual a senhora saía a passeio e podia ser ama-de-leite, cozinheira, copeira, confidente das filhas do senhor, alcoviteira ou objeto de uso sexual do seu dono ou de outros membros da família. Transformou-se em símbolo erótico para uma certa tendência literária. Dava crias na casa-grande sem que isso causasse espanto, mas os seus filhos, mesmo sendo do senhor ou dos seus filhos e parentes, continuavam escravos. Esta sexualização da imagem da mucama é responsável por muitas lendas e fabulações, especialmente no tocante aos ciúmes das suas senhoras em relação aos maridos (…)”.

Discursos e estereótipos: exemplo de propaganda de cerveja que reproduz a erotização da mulher negra

A imagem de uma mulher negra disponível para os desejos eróticos de homens é resultado de um processo e construção de estereótipos com propósitos exploratórios e de subjugação. O processo colonial e as relações de poder têm, como um de seus matizes, o questionamento de identidades. Neste processo de hierarquização e constituição de estruturas de poder, o colonialismo tem interseccionado, e como imprescindível em si, a racialização de características físicas e aspectos culturais dos povos explorados. Os discursos e estereótipos construídos sobre o corpo e as culturas foram cruciais para o êxito e aceitação do processo colonial. Segundo a antropóloga Avtar Brah, a racialização do poder opera em e através dos corpos. Ou seja, este discurso e representação são indissociados do poder político e econômico que se constituem. Sem a racialização, o processo colonial e a hierarquização política e econômica teriam, sem dúvidas, maiores dificuldades de serem apreendidas e instituídas. Isto significa que não há hierarquia de opressões. Elas agem interseccionadas e de modo indissociado para a manutenção da estrutura de dominação.

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Um dos exemplos mais simbólicos desta exploração e hipersexualização da mulher negra é de Sarah Baartman. Uma mulher do povo khoisan, que foi exibida em “shows de aberrações” pela Europa. Mais conhecida como “Vênus hotentote” (sendo hotentote, hoje, um termo pejorativo dada a carga deste processo de racialização e opressão), Saartjie era servente de uma fazenda de holandeses na Cidade do Cabo, na África do Sul. Foi persuadida a ir para a Europa e, chegando ao velho continente, descobriu o seu verdadeiro destino. A Vênus foi vendida, em 1814, para um francês e sua exploração foi ainda maior. Sarah foi estudada por cientistas naturalistas e obrigada a se prostituir. Segundo a ciência da época, o corpo de Saartjie era como que paradigma da “exuberância” do corpo feminino negro, tipo como anormal em relação ao corpo branco. Após sua morte, seu corpo foi enviado para o laboratório do cientista George Cuvier, do Museu Nacional de História Natural. A teoria de Cuvier era de que os órgãos genitais mais protuberantes eram mais “primitivos” e, por isso, com maior desejo sexual. Seu esqueleto e órgãos genitais ficaram expostos até 1974 no “Museu do Homem”, em Paris. Seus restos mortais só retornaram para África em 2002, após pedido de Nelson Mandela.

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Neste sentido, perpetuar estes discursos e senso comum, produtos não apenas de discurso, mas de opressões sentidas e vividas fisicamente, é também um modo de manter vivo e alimentar um sistema baseado na opressão e na hierarquização de pessoas e saberes. Reduzir as mulheres negras a partes erotizadas do corpo é, para além de objetificar a mulher negra, desautorizar discurso e potência política.

Por isso que indigna que, em pleno século XXI, ainda vejamos em programas de auditório a propagação de uma lógica de subalternização e de estereótipos que reforçam na sociedade que mulheres negras servem apenas para serviços braçais e para a erotização. Surpresa não há, pelo histórico de opressão. Mas o desconforto e a indignação tomam espaço porque nunca foi e agora menos ainda aceitável que se desumanize seres humanos deste modo.

Uma das marcas do processo racista de colonização é a desumanização do outro. As mulheres negras, ainda hoje, são as que recebem piores salários, estão em ocupações mais precarizadas, inclusive em relação às mulheres brancas.

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Nossa autoestima é confrontada todos os dias por não nos enxergarmos em nenhuma revista, programa de TV, comercial. E mais que isso, nossa autoestima é confrontada todos os dias porque, por muito tempo, o amor nos foi negado.

Ser mulher negra é um processo de reencontro cotidiano, de reconstrução da identidade que nos foi tomada e negada. Bell Hooks, em um de seus textos mais notórios, fala sobre a vivência do amor para os negros e, principalmente, para as mulheres negras. Sobre essa experiência roubada, a de amar. O feminismo negro tem em uma de suas facetas essa subversão de imagens e construções históricas, que se apresentam na especificidade mais totalizante que podemos ansiar na luta que travamos pela justiça e pela igualdade. É a transformação em potência máxima da resistência e da libertação não só das mulheres negras.

Com isso, temos a possibilidade de bravamente amar e, assim, destruir e transformar qualquer realidade opressora à nossa frente.

Somos muito mais do que bundas, peitos ou qualquer outra parte do corpo. Somos seres pensantes, intelectualizadas, que produzem saber pela vivência, que transpõe este saber em “escrevivência” e não toleraremos mais sermos referidas como pedaços, como partes. Mulheres negras são inteiras, potências inteiras de (re)existência e de conhecimento.

Nos reinventamos cotidianamente, de carnes mais baratas do mercado a vozes altissonantes e que cantam até o fim.

 

Juliana Borges é pesquisadora em Antropologia na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde cursa Sociologia e Política. Foi Secretária Adjunta de Políticas para as Mulheres da Prefeitura de São Paulo (2013).

 

(Foto de capa: Agência Brasil)