30 de outubro de 2018, 21h59

Nasce outra estrela em “Bohemian Rhapsody”

Bohemian Rhapsody (dir. Bryan Singer, 2018) estreia no Brasil nesta semana e o blog Milos Morpha já assistiu e preparou uma resenha crítica; confira

Divulgação

Quando Freddie Mercury, interpretado por Rami Malek, conduz a plateia do Live Aid nos vinte minutos de apresentação da banda Queen no evento, o filme Bohemian Rhapsody (dir. Bryan Singer, 2018), que estreia esta quinta-feira (1º/11) no Brasil, alcança um reconhecimento final do artista como uma personalidade atemporal. A escolha por encerrar a narrativa biográfica no evento tem o efeito de apresentar um tipo de transcendência de Mercury ⸺ a sua morte pode até ser informada por algumas cartelas ao fim do filme, mas, uma vez que ela não é encenada, a sua imortalidade é posta em cena no lugar. Não é um efeito tão raro no cinema biográfico musical, o mesmo se repete em filmes como Funny girl: a garota genial (dir. William Wyler, 1968) e Piaf, um hino ao amor (dir. Olivier Dahan, 2007), sobre Fanny Brice e Edith Piaf, respectivamente. Então por que deveria nos surpreender que uma cinebiografia de Freddie Mercury faça escolhas semelhantes?

Bem, não deveria. Se as escolhas de Malek e do diretor Bryan Singer na representação de Mercury lembram o roteiro da construção de uma diva ⸺ algo muito próximo do que Nasce uma estrela (dir. Bradley Cooper, 2018), que se propõe justamente a alegorizar esse roteiro, fez recentemente ⸺, talvez seja porque todo o arquivo midiático produzido do artista reitera esse lugar afetivo. Freddie Mercury era uma diva, ora uma “lenda”, ora uma “queen histérica”, como nos termos colocados pelo próprio filme.

De que nos serve essa diva masculina, LGBT e de origem hindu? A questão me cruzou a mente enquanto eu me via, apesar dos notáveis problemas estruturais do filme, impactado pelo Freddie Mercury que se apresentava. Mesmo que o filme seja enfaticamente complacente com a figura de Mercury, atenuando ⸺ quando não cortando fora ⸺ seus erros e suas culpas, Malek consegue alcançar um tipo de inquietação em cena que é uma marca muito forte do personagem de Mercury. Há uma encenação da inocência envolvida nesse jogo de recriação do personagem também, uma ingenuidade que proclama a falta de consciência da genialidade, uma estrela pela própria natureza.

De novo, de que essa estrela nos serve? Freddie Mercury, como uma personalidade do rock, teve sua sexualidade frequentemente apresentada como um excesso excêntrico do artista. Esse discurso se adequa ao consumo generalizado de Queen desde os primeiros sucessos da banda ⸺ o que já diferencia Mercury de outros artistas LGBTs que se apresentam para um público muito mais preparado para identificá-los como tal. Quando Bohemian Rhapsody rompe com esse discurso, ligando a sexualidade de Mercury a uma experiência afetiva e íntima (que se distingue, em vários momentos, do olhar midiático lançado sobre ela), o filme tira essa característica do artista do âmbito do excêntrico e a coloca como uma afirmação de personagem e do que ele representa.

Esse conflito entre os discursos só se dá porque Queen é uma banda absolutamente hegemônica e porque toda diva, de uma maneira ou de outra, é uma figura hegemônica ⸺ isso está implicado na própria definição do fenômeno. Quando uma drag queen reencena Judy Garland, por exemplo, ela está negociando com a hegemonia em que a figura midiática de Garland está inserida e provocando uma série de tensões com esse lugar hegemônico. Da mesma maneira, quando Mercury encena a sua experiência como soropositivo, como quando, por exemplo, apresenta a música “The show must go on”, já perto de sua morte, ele também negocia com o aspecto hegemônico de sua presença midiática.

O que o filme faz é negociar com uma nova hegemonia, uma estabelecida, em boa parte, a partir dessas tensões produzidas no âmbito midiático. Um reconhecimento, agora em tons “oficiais”, de Mercury como LGBT é reivindicado aqui ⸺ assim como, embora bem mais timidamente, um reconhecimento racial de sua origem hindu. Uma negociação em tais termos, é claro, tão imbricada em uma política de mercado e em uma operação da indústria midiática, pode, frequentemente, não produzir muito além de uma postura conivente com a hegemonia. Pode também, por outro lado, produzir um estranhamento dentro dessa mesma hegemonia e, eventualmente, uma recusa, uma resistência que ninguém sabe muito bem explicar como se permitiu que aparecesse ali, ocupando um espaço tão exclusivo. Mas então é tarde, uma diva agora promete resistir ⸺ e é escutada. O que vem depois é, como Mercury após o Live Aid, de outra materialidade, imensurável.