Arabizando

Arabizando é uma plataforma em língua portuguesa fundada em 2013 por Thomas Farran, especialista em História e Política Árabe Moderna, com o objetivo de reunir profissionais e instituições de todo o mundo para a divulgação da cultura árabe em geral, abrir espaço para a discussão política da região sob um olhar mais crítico e alternativo e se apresentar como um espaço para dar voz à causa palestina

06 de maio de 2015, 14h54

A Natureza Orwelliana da Guerra Saudita no Iêmen

Por Ibrahim Halawi | Tradução: Thomas Farran

Análise: Ambiguidade sobre objetivos e razões da campanha militar saudita contra rebeldes Houthi no Iêmen revela a confusão generalizada pela qual passa seu comando militar.

Sanaa desfrutou de menos de uma hora de paz antes que se retomassem os ataques aéreos sob o nome de “Operação Restaurando a Esperança”.

O Brigadeiro-General saudita Ahmed al-Asiri anunciou o fim da Operação Tempestade Decisiva e o lançamento de uma nova operação, com o objetivo de “proteger civis” e “reconstruir o Iêmen”.

Esperança Prematura

Ainda assim, o General afirmou que o país continuaria a prevenir as milícias Houthis de atuarem dentro do Iêmen, o que acabaria por incluir a opção de uma intervenção militar em solo.

Abdel al-Jubeir, embaixador da Arabia Saudita para os Estados Unidos, disse que a coalizão liderada pelos sauditas estaria direcionando seus esforços para uma nova fase nesta campanha.

Ataques aéreos seriam mais limitados e apenas serviriam como resposta aos ataques Houthi, disse Jubeir. Um exemplo dessa “limitada intervenção” foi vista quando Houthis atacaram tropas iemenitas na cidade de Taiz.

“A decisão de acalmar a situação agora, depende deles [dos Houthis],” afirmou Jubeir aos repórteres na embaixada saudita em Washington.

A Arábia Saudita declara que a primeira fase desta campanha foi bem sucedida em destruir a maior parte da estrutura dos rebeldes Houthi. Também alegaram que a milícia Zaydi-Xiita representa uma ameaça real à segurança da região do Golfo – apesar de muitos acharem que essa declaração é um tanto exagerada.

O que é certo é que os iemenitas estão desesperados para “restaurar a paz”, mas a nova operação dificilmente irá cumprir esta promessa.

O objetivo da “nova” campanha é de legitimar ostensivamente as decisões militares que já matou centenas de iemenitas na primeira fase da operação.

Os ataques sauditas destruíram a já muito básica infraestrutura do país. Cortes de energia, escassez de alimentos e uma crise hídrica são agora regras para grande parte dos iemenitas.

Batalha diplomática

Apesar da resolução da ONU que exige um fim à violência, e pede por imediato acesso de ajuda humanitária, a UNICEF documenta que mais de cem crianças iemenitas foram mortas desde o início dos bombardeios.

Com o avanço da guerra, o Omã permanece à frente dos esforços diplomáticos para a resolução da crise, com uma proposta de sete pontos-chave sendo discutida entre Riad e Teerã.

Considerando o tamanho da operação e o tempo disponível, um plano claro de estratégias e objetivos para uma intervenção militar seriam limitados.

A Arábia Saudita teve que reagir rapidamente para reverter o avanços dos Houthis e de forças leais ao presidente deposto Ali Abdallah Saleh.

Embrulhado em ambiguidade

A Operação Tempestade Decisiva começou cercada de ambiguidades – não como uma tática de Relações Públicas deliberada por parte de Riad, mas como um indicativo do ambiente dentro do próprio comando militar saudita.

Riad sabia que apenas os ataques aéreos não serviriam aos objetivos militares.

Enquanto a Arábia Saudita bombardeou a capital do Iêmen, esforços foram reunidos para pressionar o Paquistão de forma a que o país declarasse verbalmente o seu apoio à guerra, enviando tropas para uma potencial ofensiva terrestre.

Após dias de debates parlamentares, e pressão iraniana, o parlamento paquistanês votou contra a intervenção. Decisão que acabou por chocar a Arábia Saudita – que nunca esperou uma “traição” paquistanesa.

Parte desta surpresa é fruto da subestimação de interesses em comum e das relações entre o Paquistão e o vizinho Irã.

Relutância similar no Egito abriu espaço para a Arábia Saudita, um país com um contingente militar de 75,000 pessoas, bombardear vilas e cidade iemenitas do ar, com uma ferocidade apenas ultrapassada pelos barris explosivos jogados em vilas e cidades pelo regime sírio.

A decisão para terminar a Operação Tempestade Decisiva e reintroduzir uma nova campanha sob um nome diferente pode significar uma tentativa de compensar retrocessos na ofensiva militar no Iêmen. Essa lógica é aparente no próprio nome da operação, “Restaurando Esperança”.

Crise humanitária

A crescente situação de catástrofe humanitária no Iêmen intensificou uma pressão internacional contra a Arábia Saudita, para que se permita a entrada de auxílio médico no país.

Esta é a prioridade declarada por oficiais norte-americanos para repórteres quando os mesmos reforçam a necessidade de uma alternativa política. Mas as preocupações americanas dificilmente são apenas humanitárias.

Os Estados Unidos têm um longo histórico de guerras prolongadas e indecisivas, como Vietnã e Iraque. Esse histórico é uma lição para os aliados norte-americanos no Oriente Médio, que estão levando a cabo uma complexa operação militar inclinada a moldar objetivos políticos.

“[A Arábia Saudita] está preocupada com [a sua] segurança,” afirmou Jen Psaki, Diretora de Comunicação da Casa Branca, na última quarta-feira à CNN. “Claro que nós os apoiamos em suas ações…mas, mais uma vez, nós estamos tentando redirecionar isto para uma discussão política aqui.”

A primeira pessoa a sugerir que a Tempestade Decisiva poderia chegar a um fim foi o vice-Ministro dos Assuntos Estrangeiros iraniano, Hussein Amir Abdul-Lahian.

Seu “otimismo” veio de ações que partiram de Washington, depois de Obama ter conversado com o rei saudita, e ter se encontrado com o príncipe Mohammed Bin Zayed a-Nahyan, dos Emirados Árabes Unidos – e ter acreditado que apenas isso teria concluído o serviço.

A administração americana deve agora perceber que a sua nova política de permitir que seus aliados regionais ajam por eles mesmos, dá também a esses aliados uma maior autonomia para decidirem quando parar.

Mas a Arábia Saudita não vê qualquer razão do para quê a mesma política norte-americana de complacência com Israel, não seja também aplicada também à eles.

A parada é alta com relação ao Iêmen. O quê o final da Operação Tempestade Decisiva significa ainda está para ser entendido para além da retórica.

Os jatos sauditas continuam a atacar Houthis e seguidores de Saleh.

O presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi ainda está para encontrar a desculpa para dar à Arábia Saudita que poupe o exército egípcio de uma arriscada intervenção em solo iemenita.

Apesar da mudança de nome, e alegadamente de táticas, da campanha militar, isso não significa que a pressão saudita ao Egito tenha cessado.

Se alguma coisa, o mais próximo que chegamos de negociações políticas, mais o Egito será pedido para que divida os custos da guerra.

O lançamento da Operação Restaurando Esperança, em um sentido Orwelliano, é uma mudança de bombardear o Iêmen como parte de um plano de guerra, para atacar um país como parte de uma iniciativa de paz.

Enquanto isso, os Houthis e as forças de Saleh exploram a indignação global dos bombardeios contra o Iêmen, continuando assim suas atrocidades. Sob o novo nome da ofensiva, Riad continua sua guerra indefinidamente.

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