COMPRE JÁ
08 de junho de 2018, 16h24

No assassinato do presidente, a heroína é uma mulher trans

Espetáculo “O Assassinato do Presidente” brinda a representatividade ao alçar a mulher trans na condição de heroína em um Brasil pós-golpe

A atriz Leona Jhovs como Penélope, em "O Assassinato do Presidente" (Foto: Luca Meola​)

Ulisses, maior criminoso do país, o Rei da Boca do século 21, limpa seu revólver para uma missão considerada heroica no Brasil pós-golpe: assassinar o presidente. Assim começa a peça “O Assassinato do Presidente”, da Companhia Pessoal do Faroeste, de São Paulo.

Na trama, dirigida por Paulo Faria e encenada por ele mesmo com a atriz Leona Jhovs, o chefe de estado que usurpou o poder participaria de um evento no Memorial da Resistência, próximo ao teatro falido que Ulisses comprou para morar, na Rua do Triunfo, em meio a uma região conhecida como Cracolândia. Seria aquele o palco do fim do golpe, o assassinato do presidente. Na noite anterior, no entanto, Ulisses queria se divertir, e para isso chamou à sua casa uma prostituta travesti: Penélope.

Entre goles de uísque, cigarros, reflexões e insultos, Ulisses e Penélope recriam um cenário de faroeste em pleno ano de 2018 e a clássica dualidade entre “bem” e “mal” do gênero é revolucionada com um brinde à representatividade: o herói do assassinato do presidente, que traduziria o “bem” do bangue bangue, não é mais Ulisses, é Penélope. É um heroína. Uma travesti.

Uma travesti mulher fatal. Uma travesti que é atriz, mas que se prostitui para se sustentar por não conseguir papéis já que, como travesti, está à margem da sociedade. Esta é Penélope, mas Penélope é também um pouco Leona Jhovs, que a interpreta.

A atriz de 31 anos, mulher trans, que segundo ela mesma vive “literalmente da arte”, milita pelos direitos da população T e, ainda mais incisivamente, pela representatividade trans na dramaturgia. “A Leona está neste texto. Assim como a Penélope, sou uma mulher trans e atriz. A Penélope vem com esse apelo e a gente trás essa questão da representatividade na peça”, disse Leona Jhovs em entrevista à Fórum.

Penélope (Leona Jhovs) e Ulisses (Paulo Faria) em cena. (Foto: Luca Meola​)

De acordo com Leona, em meio a inúmeros casos de transfake – quando uma pessoa cisgênero interpreta o papel de pessoas trans e travestis – é muito importante que o teatro seja um local para discutir essas questões, e se diz feliz com a oportunidade de, enquanto mulher e atriz trans, representar esses corpos em cena. “O teatro acontece para falar do nosso tempo. Para mim é um dos trabalhos mais urgentes que já fiz e acho que vai ser atual, infelizmente, durante muito tempo”, analisa.

O diretor Paulo Faria vai na mesma linha, fazendo uma relação direta entre a questão da representatividade e o gênero narrativo da peça, que é o faroeste.

“Na peça nós trabalhamos o gênero do faroeste, da dualidade entre o bem e o mal. E o bem é uma mulher trans que se reivindica, que se torna heroína. Ao fazer isso em uma estrutura dramática como faroeste você chega ao consciente das pessoas. Coloca ali uma heroína que nunca esteve naquele lugar. Você começa a mudar o imaginário. As pessoas se veem representadas”, diz o diretor.

Há na personagem Penélope um pouco da atriz Leona Jhovs (Foto: Luca Meola​)

“Quando Penélope – e a mulher trans como um todo – se torna a heroína dentro do assassinato é ela quem vira a heroína em uma história sobre o Brasil. De acabar com esse Temer. É uma mulher trans que vai encerrar de alguma forma essa história. Faz todo o sentido”, completa Paulo.

De acordo com o diretor, há um “excesso de metáforas” no teatro e hoje as pessoas “vão para as ruas mas as ruas não estão no teatro”. Nesse sentido, Paulo Faria acredita que o espetáculo, ao propor o assassinato do presidente e alçar a mulher trans na condição de heroína, trás as ruas ao teatro. Ou seja, a representatividade. “A ideia era trazer esse discurso para dentro e atualizar. Criar todo esse universo que a Leona trás da militância dela para tornar contemporâneo e mostrar onde é o ponto, onde o golpe destrói, onde é o retrocesso. Se pensarmos toda a inclusão, todas as cotas, as participações da diversidade no Brasil, isso tudo está em franco retrocesso. Então, acho que tem essa necessidade de dar nome aos bois e enfrentar”, pontua.

E não é só a representação trans que está em cena nos rocambolescos diálogos entre Ulisses e Penélope, mas também a transfobia hipócrita de parte dos homens cisgêneros da sociedade, traduzida em Ulisses, que é interpretado pelo próprio diretor Paulo Faria. Trata-se de uma alegoria da realidade: ao mesmo tempo que deseja sexualmente Penélope, uma mulher trans, Ulisses, ironicamente, é o típico homem cisgênero transfóbico. Leona Jhovs explica.

“Nós vivemos no país que mais mata mulheres trans e travestis no mundo e somos o país que mais consome pornografia com mulheres trans. Então, o Ulisses, ao não aceitar esse corpo feminino, mas ao mesmo tempo desejar esse corpo, traduz essa realidade que a gente vive. Esses homens desfrutam e ao mesmo tempo negam esses corpos. E a forma que eles têm de negar é destruir, matar”, diz a atriz. “Normalmente quando matam a gente à facadas, dão 30, sendo que nas 3 primeiras a gente já morre. As outras 27 são para matar algo deles. Acho que a gente trás essa leitura da realidade”, completa.

Para Paulo Faria, trazer este tipo de representatividade ao teatro ajuda a construir imaginários e, segundo ele, é por conta do imaginário da sociedade que a transfobia é tão reforçada e marginaliza, historicamente, os corpos trans. A peça, para o diretor, vem com esse propósito de construir um novo imaginário sobre o tema.

No assassinato do presidente do Brasil pós-golpe, heroína é uma mulher trans. (Foto: Luca Meola​)

“A ideia é criar no imaginário das pessoas essas personagens. É o compromisso de poder revelar um Brasil que quer se ver representado. Trazer uma personagem trans para dentro de uma ficção – e uma atriz trans fazer esse personagem – é um ato político concreto, não se limita a um debate em uma roda. Nos meus textos, penso: que imaginário estamos fabricando no Brasil para que essa população – seja negra, trans, qualquer ser humano que não se veja representado – se identifique? Então, vem dessa coisa de naturalizar”, afirma.

Para Leona, quando um homem ou uma mulher cisgênero são escalados para interpretar papéis de pessoas trans na dramaturgia, homens e mulheres transvestigêneres estão sendo, simbólica e concretamente, mortos.

“Quando entra um corpo cisgênero representando a gente, estão nos apagando, reforçando que o nosso lugar é o lugar que sempre ocupamos: a prostituição, a margem. Então, permitir que nós entremos em cena e nos representemos é o contrário disso. É naturalizar nossos corpos. O público sai daqui com a minha imagem em cena, uma mulher travesti. Isso é a naturalização. Só assim vamos parar de morrer. Nós vamos ocupar todos os lugares que nos tiraram e todos os lugares que nos são de direito”.

Serviço

“O Assassinato do Presidente”

Domingos de junho à julho, sempre às 18h

Pague quanto puder

Cia. Pessoal do Faroeste

Rua do Triunfo, 305 – Santa Efigênia (Metrô Luz) – São Paulo (SP)