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16 de maio de 2019, 22h39

No (des)governo Bolsonaro, contingenciamento é corte, sim, por Juliana Cardoso

Que da disputa central, que é a educação, possa fluir energia para todas as forças progressistas e democráticas por um Brasil com respeito aos direitos sociais e, sobretudo, soberano

Fotos: Elineudo Meira
Por Juliana Cardoso* As gigantescas manifestações desta quarta-feira (15), que levaram às ruas mais de 2 milhões de pessoas em 250 cidades do Brasil, em sua esmagadora maioria estudantes e professores universitários contra os cortes na educação, assumem um significado neste momento:  a destruição de conquistas históricas não vai passar em brancas nuvens. Depois de chamar de balbúrdia a produção de ensino, pesquisa e extensão de universidades como UFBA, UnB e UFF, Bolsonaro ampliou seus desafetos. Da cidade de Dallas, nos EUA, onde se encontrava na quarta, Bolsonaro disparou impropérios típicos da campanha eleitoral. Chamou os manifestantes de “idiotas úteis...

Por Juliana Cardoso*

As gigantescas manifestações desta quarta-feira (15), que levaram às ruas mais de 2 milhões de pessoas em 250 cidades do Brasil, em sua esmagadora maioria estudantes e professores universitários contra os cortes na educação, assumem um significado neste momento:  a destruição de conquistas históricas não vai passar em brancas nuvens. Depois de chamar de balbúrdia a produção de ensino, pesquisa e extensão de universidades como UFBA, UnB e UFF, Bolsonaro ampliou seus desafetos.

Da cidade de Dallas, nos EUA, onde se encontrava na quarta, Bolsonaro disparou impropérios típicos da campanha eleitoral. Chamou os manifestantes de “idiotas úteis e imbecis usados como massa de manobra” de um núcleo de esquerdistas que dominam as universidades federais. Com isso, forneceu combustível para ampliar os protestos, que tiveram a adesão também de universidades particulares, relembrando os movimentos estudantis das décadas de 60 e 70.

Enquanto isso, convocado pelo Congresso Nacional, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, aquele que comeu Kafta, mas não leu Kafka, tentava explicar a diferença entre contingenciamento de verba e cortes orçamentários. Dos 30% anunciados anteriormente, procurou convencer parlamentares que o contingenciamento para as universidades federais é de apenas 3,4%. Em seu esforço, culpou governos anteriores pela situação e recorreu às firulas semânticas. Contingenciamento, como política econômica, se refere a uma intervenção governamental para estabelecer limites à produção, comercialização interna e importação ou exportação de determinado produto. Entretanto, este limite não deve ser definitivo.

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Mas, no mundo de Bolsonaro e Weintraub, que consideram “balbúrdia” o que algumas das mais importantes universidades do país fazem, contingenciamento e corte se referem à mesma coisa: apesar de afirmar que não está cortando verba das universidades, o governo não tem previsão de ressarci-las, ou seja, chamar de contingenciamento é coisa de quem não estudou. No mundo do lado daqui, da vida real, o correto é chamar de corte.

A realidade é que hoje vivemos um clima de balbúrdia governamental. Num dia, o presidente reunido com líderes de partidos determina por telefone ao ministro da Educação a suspensão dos cortes. Ato contínuo, confirma que os cortes serão mantidos e desmoraliza a própria base. Ou seja, temos um governo que chama corte de contingenciamento e que confunde a pesquisa científica com as com suas trapalhadas: corte é corte, contingenciamento é contingenciamento, pesquisa é pesquisa e balbúrdia… é esse governo.

Entre os núcleos que se engalfinham pelo poder no governo Bolsonaro, o time dos teleguiados pelo autoproclamado “filósofo” Olavo de Carvalho é absolutamente ressentido. Nunca aceito pelo mundo acadêmico por conta de suas limitações intelectuais, Olavo encontra respaldo também no time dos evangélicos, que quer a todo custo exterminar o “marxismo cultural” das universidades brasileiras.

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Mas voltando ao Planeta Terra, que não é plano, a expectativa é que o “Dia D da Educação” se transforme em dias de novas lutas.  Lutas sem trégua contra todos os desmandos desse governo autoritário. Que da disputa central, que é a educação, possa fluir energia para todas as forças progressistas e democráticas por um Brasil com respeito aos direitos sociais e, sobretudo, soberano.

*Juliana Cardoso (PT) é vereadora, vice-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente e membro das Comissões de Saúde e de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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