Manoel Herzog

23 de maio de 2019, 06h00

Nobel da Paz para Lula, e de Literatura para Chico Buarque

O Brasil que ecoa o Português é um perigo pra hegemonia americana, é preciso golpeá-lo, calá-lo, impor-lhe um governo pulha e antipoético através de um conchavo com as seculares elites e o lumpesinato inculto

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

A autora de blockbusters Marion Zimmer Bradley (Brumas de Avalon) certa feita sentenciou que não há nenhuma obra literária relevante escrita em português. Enquanto sua brumosa epopeia derivava a lenda do Rei Arthur e vendia copiosamente, sendo adaptada à tevê e tudo, o coro de submissos aplaudia e o mercado editorial consagrava o romance anglófono como ápice da expressão literária. Precisou Harold Bloom, um crítico conservador, desconstruindo a estupidez dita por Mrs. Bradley, incluir no cânone (onde obviamente ela não estava) os nomes de Camões, Fernando Pessoa e Machado de Assis. E só não constou José Saramago porque à época era um autor vivo, mas Bloom o qualificou como o “último dos titãs”, fazendo remissão a sua teoria de que já não há mais grandes romancistas.

Por falar em romancistas, difícil seria dizer qual o maior de todos os romances. Eu próprio, e é uma questão de gosto pessoal, oscilo entre Quixote, A Náusea, Irmãos Karamazov e Moby Dick, mas confesso certa predileção por este último. Escrito em inglês por um norteamericano, este livro só veio a existir, a mirar os abismos marinhos e seus monstros, porque Melville leu Camões, o mesmo Camões que morria junto com sua pátria, quando ruía o império lusitano após o sumiço do infante Dom Sebastião em batalha.

Vivemos tempos difíceis para a lusofonia desde então. A supremacia dos que escrevem em inglês, garantidos lugares secundários honrosos a falantes de francês, espanhol, alemão etc, não se dá por melhor qualidade dos autores, mas por um declarado impulso marxista, já que a economia é a base de tudo, pois é perigosíssimo ao status quo permitir um ressurgimento dos portugueses, mesmo que na pele de seus descendentes soltos no mundo. Se há que os calar, oh pá. Por conta disso o prêmio Nobel de Literatura só foi concedido (e isso foi literalmente uma concessão, estava pegando mal) a Saramago e não se o cogita mais com seriedade a outro autor lusófono tão cedo.

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Contra a grita de um monte de especialistas eu defendo, desde a publicação de Leite derramado, que o autor com melhor condição de fazer o Brasil estrear no panteão do Nobel, e na categoria Literatura, é Chico Buarque. Dirão especialistas e não especialistas que minha sentença decorre de fatores sentimentais, é troca de favores, é só porque o Chico gosta de tu, larga de ser besta, tu é petralha e tua opinião é ideológica blablabá. Há um quê de sentimento, sim, na minha análise, mas ela tem respaldo científico, deem-me licença que sei o que falo, do riscado eu conheço. Quando lancei minha tese eu nem livro publicado tinha e nem imaginava um dia ter acesso ao autor. Sim, é uma idolatria que vem da infância, mas que se dá por conta da obra, em especial a poética, que é essencialmente literária, pra além de musical, e quem o diz é Carlos Drummond de Andrade, nossa chance de Nobel malograda.

Não há, vivo, quem tenha feito mais pela Língua Portuguesa que Chico Buarque de Hollanda. Ponto.

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Ah, mas os romances dele não atingem a qualidade da poesia. Mentira: seus romances são poemas, que o digam Budapeste e Leite derramado, este já derivado de uma canção, O velho Francisco. E suas canções são contos, ou romances que o diga Sinhá, o “conto de um cantor”. Guilherme Shakespeare, o maior expoente da Literatura universal, segundo  Mr. Bloom, não escreveu um romance, lembremos: sua obra centra-se em poemas e peças de teatro, duas searas em que Chico simplesmente arrebenta. E ainda manda uns romances magníficos, pra desespero de um bando de alucinados e, aí sim, digo eu, entra a questão ideológica. Podiam ficar de boas e aguardar talvez um “escritor de direita”, se é que há isso, ser condecorado com o Camões, como foi agora o Chico, tardia e merecidamente. Mas eu acho que ele faz jus é ao Nobel, até porque aquela Academia onde figuram curiosidades feito Sarney, FHC e Paulo Coelho jamais o deve acolher.

Chico faz jus ao Nobel porque o Nobel foi dado pra Bob Dylan. E foi merecido: é poeta de uma geração, voz da esperança de um mundo novo, que se fez ouvir através do veículo musical, mas cujas palavras, letras, literatura, é que explicaram. Em termos literários Bob a sua Tarântula não têm condição de ser comparados à obra buarqueana, como bem salientou o escritor Sérgio Rodrigues em artigo feito no calor da condecoração.

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A lusofonia é deliberadamente excluída do proscênio da Literatura, e isto se deve a um movimento político. Os portugueses um dia saíram de um quintal pedregoso numa Europa exaurida por guerras e devastações, e descobriram um mundo novo pra explorar, saquear, pilhar, sustentar a Humanidade faminta. Espalharam uma Língua grandiosa, que tem cultores ilustres a perpetuá-la, porque a função dos poetas é perpetuar a Língua, já o disse Eliot, em bom inglês. A aventura da anglofonia tardia, esse capitalismo maluco norte-americano apoiado pela Inglaterra, não foi capaz de uma epopeia no espaço. É pífia a jornada nas estrelas. Não se planta na Lua, não tem água em Marte nem povos pra escravizar em Vênus, é tudo uma obra de ficção científica triste e sem sentido, cinema bem aquém de romance. O Brasil que ecoa o Português é um perigo pra hegemonia americana, é preciso golpeá-lo, calá-lo, impor-lhe um governo pulha e antipoético através de um conchavo com as seculares elites e o lumpesinato inculto. Mas eu tenho esperança nos nossos poetas: Nobel da Paz para Lula, e de Literatura para Chico Buarque.