10 de abril de 2018, 22h11

Noblat, o cartunista e a escolha infeliz

Em sua coluna, Adriana Dias explica porque a charge compartilhada por Noblat sobre a prisão de Lula carrega aspectos nazistas e ultrapassa os limites do antipetismo. Entenda

Ao “desvendar” a vereadora Marielle Franco (PSOL) apenas depois de seu assassinato, Noblat, jornalista da Veja, afirmou: (se) “foi tudo isso que dizemos dela, estávamos obrigados a destacar melhor suas atividades. E a abrir espaço para que expusesse suas ideias. Só depois de morta a descobrimos.” No texto ele culpa a Internet, o Google, os novos jornalistas, os antigos jornalistas. Apenas não percebe que talvez ELE não conhece a vereadora por conta de seus próprios preconceitos. O ódio contra a esquerda o teria cegado?

Pergunto isso porque ontem me deparei com uma das charges brasileiras que mais me envergonhou em muito tempo. Ela foi publicada por Noblat, de autoria de Néo Correia.

Para quem passou como eu estudando quinze anos acerca do nazismo e do neonazismo, e analisou centenas de representações do judeu pela visão do anti-semitismo, a imagem choca profundamente. A demonização e animalização de Lula (vejam como são retratados em especial o nariz e as orelhas) são mais do que visíveis na imagem. Esse recurso gráfico foi usado em abundância pelo nazismo. Além disso, ao invés de caracterizar o prisioneiro com listas horizontais, comuns em uniformes presidiários, o cartunista usou o uniforme dado pelos nazistas aos prisioneiros de campos de concentração, passíveis de serem exterminados.

O ódio presente na imagem é de um totalitarismo absurdo, que ultrapassa o anti-lulismo, o desejo de punição, ou qualquer outra coisa que caiba numa sociedade civilizada. A charge é extremamente infeliz e mostra ao mundo o que está acontecendo, de fato, no Brasil, e como Lula tem sido tratado.

Ao reproduzir essa imagem Noblat revela demais porque não foi capaz de “conhecer” Marielle Franco.