09 de fevereiro de 2012, 14h46

Nossa Estante

Por Redação   Sobre os muitos “mundos possíveis” Logo nas primeiras páginas de As revoluções do capitalismo – coleção A política no império, organizada por Giuseppe Cocco –, o filósofo italiano Maurizio Lazzarato cita o slogan do Fórum Social Mundial, buscando aproximá-lo com a filosofia de Leibniz. Segundo o autor, o enunciado “um outro mundo é possível” tem uma vaga conotação leibniziana, pois “mundo” e “possível” são palavras-chave para a compreensão do pensamento do matemático e filósofo alemão. O autor sustenta esse pensamento traçando pontos que conectam vários pensadores e teorias da sociologia, filosofia e linguística e, no entanto, abrindo...

Por Redação

 

Sobre os muitos “mundos possíveis”

Logo nas primeiras páginas de As revoluções do capitalismo – coleção A política no império, organizada por Giuseppe Cocco –, o filósofo italiano Maurizio Lazzarato cita o slogan do Fórum Social Mundial, buscando aproximá-lo com a filosofia de Leibniz. Segundo o autor, o enunciado “um outro mundo é possível” tem uma vaga conotação leibniziana, pois “mundo” e “possível” são palavras-chave para a compreensão do pensamento do matemático e filósofo alemão. O autor sustenta esse pensamento traçando pontos que conectam vários pensadores e teorias da sociologia, filosofia e linguística e, no entanto, abrindo e fechando a obra com citações de Gilles Deleuze.

As revoluções do capitalismo propõe, de certa forma, uma crítica ao marxismo. Sem pretensões de romper com os ideais revolucionários e anticapitalistas, Lazzarato faz um percurso de paradigmas filosóficos divergente daqueles usados por Marx e fundamentados na ontologia da relação sujeito/objeto. A base conceitual para tal crítica surge com o sociólogo francês Gabriel Tarde – no final do século XIX –, que introduziu conceitos leibnizianos na sociologia a fim de propor uma saída para a dicotomia sujeito/objeto. Sob esse ponto de vista, seres, coisas e eventos atuam em conjunto na produção do mundo e não o trabalho – enquanto exteriorização do sujeito no objeto – conforme defendido por Marx. Na segunda metade do século XX, Deleuze recupera esse paradigma na formulação de sua teoria. Assim, em oposição à tradicional “filosofia do sujeito”, Tarde e Deleuze defenderam uma “filosofia do acontecimento”. É nessa esteira de pensamentos que Lazzarato desenvolve sua análise.

Para exemplificar a importância do acontecimento, o autor usa o movimento anti-globalização iniciado nas manifestações de Seattle em 1999. “Criou-se um novo campo de possíveis, que não existiam antes dos acontecimentos, chegaram junto com ele.” Desse modo, o acontecimento abre espaço para a experimentação e a criação de diferentes “mundos possíveis”. Para Lazzarato, essa perspectiva elucida melhor as relações de poder e produção de mercadorias na sociedade atual do que a consagrada “luta de classes” defendida pelo marxismo.

Sua crítica está no fato de que o marxismo é incapaz de modificar as configurações do capitalismo contemporâneo. Nesse sentido, compreender o papel dos acontecimentos, os seus reflexos e mudanças, além das possibilidades de “mundos” que podem dele surgir, parece ser uma boa alternativa para as novas propostas de revolução. Após apresentar esse alicerce conceitual, o autor faz, no último capítulo, uma análise dos movimentos “pós-socialistas”, apontando os novos modelos de trabalho que escapam totalmente aqueles previstos por Marx.

As revoluções do capitalismo não é um convite para abandonar de vez o marxismo, mas uma instigante forma de repensar tanto as formas de viver no capitalismo, como as novas formas de derrubá-lo. (Thiago Balbi)

As revoluções do capitalismo
Maurizio Lazzarato
Civilização Brasileira, 268 págs.



Um romance dos quilombolas

Ainda hoje, muitos desconhecem a realidade dos quilombolas no Brasil, e ignoram sua cultura e o esforço que eles têm que empreender no seu dia a dia para preservar sua terra, sua tradição, seus costumes, sua história. A pesquisadora Custódia Wolney traz a realidade da comunidade Kalunga, de Goiás, por meio de um romance histórico que, como diz o prefácio de Tarcísio Alemida, “registra a luta pela liberdade, individual e coletiva, enfrentando ameaças e morte, superando invasores, grileiros, fazendeiros de gado, represas hidroelétricas”.

Quem conduz a narrativa é Bernadete, ou Berta, como é conhecida na comunidade. É sua trajetória de vida que vai sendo descrita ao longo da obra, na qual se pode ter contato com o preconceito e a discriminação racial sofrida pelos quilombolas, a influência dos indígenas no local e o problema da grilagem de terras. Tudo contado em forma de prosa saborosa e, não raro, o leitor pode ter a sensação de estar em uma roda de contação de histórias, daquelas que tanto fascinam crianças e adultos.

E, como diz a personagem/narradora, o livro leva muitos ao encontro de sua própria história, trazendo luz àqueles que ignoram o papel dos negros na formação do país. “Bastante gente do meu vilarejo desconhece a história do Quilombo dos Palmares. Tive sorte de ter alguém como Nhô Tobias, que me ajudou a formar uma consciência crítica em relação ao negro em uma sociedade tão injusta como a nossa”. Os leitores certamente agradecem também. (Redação)

Kalunga
Custódia Wolney
Ícone Editora, 216 págs.

 

Para ver o que ocorreu em Seattle

Um retrato dos acontecimentos do final do século XX em Seattle pode ser visto no filme A batalha de Seattle, do diretor Stuart Townsend. O longa não é novo, de 2007, e, embora seja uma ficção com alguns toques de romance, mostra a dimensão dos protestos organizados para o dia 30 de novembro de 1999, que se transformaram num motim da polícia contra os manifestantes. Na ocasião, seria realizada a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) nos Estados Unidos.

Diversos grupos das mais variadas bandeiras começaram a preparar o ato que pretendia ser pacífico. Milhares de pessoas, entre ambientalistas, anarquistas, antineoliberais, ONGs, sindicatos e ativistas de direitos humanos, foram às ruas numa das maiores manifestações dos Estados Unidos, depois das promovidas contra a Guerra do Vietnã. A reunião fracassou. Mas a repressão foi forte, com as conhecidas estratégias utilizadas pela polícia para calar ativistas em toda a parte do planeta: gás lacrimogêneo, balas de borracha e prisões.
(Adriana Delorenzo)

A Batalha de Seatlle
Título original: Battle in Seattle
Diretor: Stuart Townsend
Ano de produção: 2007
Áudio original: Inglês
Duração: 98 minutos