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19 de outubro de 2011, 15h27

Nossa festa, nossa luta

A escritora indiana Arundhati Roy sustenta que o Fórum Social Mundial precisa passar das palavras às alternativas e ações, para responder à ameaça de barbárie e fascismo social, que, segundo ela, o governo Bush representa

A escritora indiana Arundhati Roy sustenta que o Fórum Social Mundial precisa passar das palavras às alternativas e ações, para responder à ameaça de barbárie e fascismo social, que, segundo ela, o governo Bush representa Por Antonio Martins e Daniel Merli (Planeta Porto Alegre) Num país onde a grande maioria das mulheres não pode sequer escolher os seus maridos, ela destacou-se por seu sucesso na literatura – uma arte ainda marcada, em todo o mundo, pelo predomínio masculino. O deus das pequenas coisas, seu primeiro livro, foi criticado tanto pelos fundamentalistas (que não perdoaram as cenas de sexo entre uma...

A escritora indiana Arundhati Roy sustenta que o Fórum Social Mundial precisa passar das palavras às alternativas e ações, para responder à ameaça de barbárie e fascismo social, que, segundo ela, o governo Bush representa

Por Antonio Martins e Daniel Merli (Planeta Porto Alegre)

Num país onde a grande maioria das mulheres não pode sequer escolher os seus maridos, ela destacou-se por seu sucesso na literatura – uma arte ainda marcada, em todo o mundo, pelo predomínio masculino. O deus das pequenas coisas, seu primeiro livro, foi criticado tanto pelos fundamentalistas (que não perdoaram as cenas de sexo entre uma mulher de casta superior e um dalit, pária) quanto pelos ortodoxos do marxismo (descontentes com as críticas ao comportamento da esquerda). Vencedora, na estréia, de um dos grandes prêmios literários internacionais (arrebatou, em 1997, o Booker, conferido na Inglaterra ao melhor livro de ficção de cada ano), ela preferiu, desde então, dedicar-se a outro gênero. Escreve ensaios, nos quais debate, sem perder a poesia jamais, os destinos do mundo: poder imperial dos Estados Unidos, tribalização social, riscos de fascismo e… alternativas.

Comprometida desde o início com o Fórum Social Mundial (FSM), a indiana Arundhati Roy foi convidada a falar na abertura do encontro deste ano, em Mumbai. Transformou sua intervenção em nova surpresa. Diante de mais de 100 mil pessoas, apresentou uma proposta concreta em favor de um mundo novo. Sugeriu que o Fórum testasse sua capacidade de ação transformadora, desencadeando um boicote internacional contra duas corporações envolvidas com as guerras imperiais, a devastação do ambiente ou o ataque aos direitos sociais.

A fala de Arundhati foi a mais marcante, mas a idéia provocou reações contraditórias. O FSM só existe porque soube preservar, a todo custo, a diversidade. Para que o encontro não seja controlado por alguma corrente política – o que resultaria, inevitavelmente, em seu esvaziamento —, evita-se até mesmo discutir declarações finais. Como agir em conjunto, sem violar a regra?

A escritora enfrenta esta questão com duas respostas articuladas. É exatamente por valorizarmos nossa diversidade, argumenta ela, que podemos pensar em ações comuns. Para participar de um boicote, ninguém é obrigado a abrir mão de sua identidade, suas reivindicações, seu modo específico de se organizar. Não foi assim, aliás, que se fizeram as grandes manifestações contra a guerra, em 15 de fevereiro de 2003?

Arundhati vai além. Ela crê que o Fórum corre o risco de se reduzir a um festival, caso não seja capaz de trabalhar efetivamente por um mundo novo. Nesse caso, o encontro “não deixará preocupados os que querem destruir o planeta ou construir a barbárie. Será sempre nossa música, mas não poderá se transformar em nossa luta”…

Você fez, na abertura do IV FSM, uma proposta concreta de ação: articular um boicote internacional a duas grandes corporações associadas à guerra imperial, ao ataque aos direitos humanos e à destruição da natureza. Como surgiu a idéia deste boicote, e que objetivos os movimentos poderiam alcançar com ele? Eu pensava nos mecanismos que movem a globalização atual – especialmente naquilo que Thomas Friedman chama de “dedo oculto na mão invisível do mercado”. Trata-se do recurso à guerra e à violência, o dedo que aperta o gatilho. Num artigo que se tornou clássico, esse pensador neoliberal norte-americano lembra que “o McDonald’s não pode prosperar sem a McDonnell Douglas, criadora dos caças F-15. E o dedo oculto que mantém o mundo seguro para as tecnologias do Vale do Silício chama-se Exército, Força Aérea, Marinha e Corpo de Marines dos Estados Unidos”. O Iraque é o exemplo perfeito.

O capitalismo está se tornando cada vez mais brutal, e por isso não se trata de convencê-lo, mas de enfrentá-lo. Para isso, como em toda batalha política, é preciso encontrar o ponto fraco de nossos adversários. Certamente, ele não está no terreno militar. É preciso, também, mostrar às pessoas na
Índia, ou no Brasil, que elas precisam se preocupar com o que se passa no Iraque. Identificar as empresas mais implicadas na ocupação pode ser um passo importantíssimo. Ele deixa claro que temos inimigos comuns. Estas empresas, que trabalharam concretamente pela destruição do Iraque para se beneficiar agora com os contratos de “reconstrução”, também estão promovendo, em nossos países, outros tipos de devastação. É possível identificar todos os fios da meada.

É uma oportunidade fantástica para nós, que pensamos de maneiras tão diferentes, que temos idéias e pontos de vista tão múltiplos. Todos podemos nos unir em torno desta ação – deste alvo comum que o outro lado nos oferece –, e ainda assim manter nossa diversidade.

Em seus textos recentes, você adverte para a relação entre neoliberalismo e fascismo social. Poderia explicá-la melhor? Há décadas, os defensores do neoliberalismo lutam para conquistar a “liberdade” de circulação do dinheiro, para impor a hegemonia das finanças, para subordinar as nações ao mercado global. Agora, estão apelando para a tribalização social, como instrumento para viabilizar politicamente estas propostas.

Um caso muito concreto é o da Índia, onde está no poder um governo semi-fascista – se é que é possível ser fascista apenas pela metade. Aqui avança um fundamentalismo pouco conhecido no resto do mundo: o fanatismo hindu. Ele procura ressaltar sua característica antimuçulmana para se alinhar com os Estados Unidos e com Israel. Não é difícil concretizar esta aliança. O presidente Bush, ele próprio, é um adepto do fundamentalismo cristão…

Este alinhamento está produzindo tragédias humanas. No Estado de Gujarat, houve, há alguns meses, um massacre praticado por hindus contra muçulmanos. Duas mil pessoas foram assassinadas, 115 mil expulsas de suas casas, mulheres violentadas em massa. Ninguém foi punido, e todos fingem que nada grave ocorreu. Proíbem-se livros, queimam-se documentos históricos, ataca-se professores universitários e escritores.

Mas os jornais martelam todos os dias que a Índia brilha, que seu PIB não pára de crescer. Lá mesmo, em Gujarat, as grandes indústrias e corporações estão fazendo enormes investimentos.

Você parece muito pessimista com a política indiana. Que representou o FSM para as forças que resistem ao neoliberalismo e à barbárie, e como ele poderia ajudá-las a conquistar espaço entre a sociedade? Foi muito importante trazer o Fórum para a Índia. Eu não pensava assim há um ano: fui uma das pessoas que julguei ser errado realizar o encontro aqui, no cenário em que vivemos. Estava errada: o FSM é sempre esperança de arejamento e tolerância.
Mas é preciso compreender em profundidade o clima em que vivemos. A democracia reduziu-se ao espetáculo das eleições. Todas as instituições que eram sensíveis às pressões sociais tornaram-se impermeáveis – porque o neoliberalismo não abre espaço para meios termos. Neste ambiente despolitizado, e num país tão diverso, o modo mais prático de formar uma maioria de governo é apelar para o fundamentalismo. As eleições são, hoje, os momentos em que mais se espalha o veneno do ódio e da intolerância.

O fascismo alimenta-se deste clima, desde a época da Alemanha de Hitler. Ele se baseia num acordo tácito entre as grandes corporações e os que pregam a intolerância. Os partidos que nadam contra a corrente não têm nenhum espaço, no momento.
Há uma segunda característica especial que também concorre para o esvaziamento da política. Somos uma federação de Estados. Até o ano passado, a direita, que ocupa o governo central, convivia com o poder do Partido do Congresso, em diversos Estados. Mas nos locais em que governava, este partido implementava, igualmente, a privatização em massa e o “ajuste estrutural” de mercado. A alternância entre os dois blocos transformou-se num circo. Os partidos adotavam, assim que assumiam o poder, as mesmas políticas que criticavam até a véspera, quando na oposição. É como um jogo: ao analisar cada partido, você se dava conta que, no plano federal, ele defendia uma proposta; mas em seu Estado aplicava outra, de sentido oposto.

Os delegados que chegam do resto do mundo para o FSM sofrem imediatamente um choque. Ficam espantados com a riqueza e a força da cultura, num país tão empobrecido materialmente. Além do espanto inicial, o que as tradições culturais indianas podem ensinar ao planeta Porto Alegre? Quem vem para participar do FSM entra em contato com os grupos e as pessoas mais extraordinárias da Índia de hoje. Mas é uma imagem filtrada muitas vezes. Do lado de fora, espalha-se o veneno. A onda de fundamentalismo religioso está ganhando força e apelo enormes. É uma pulsão muito forte, tão difícil de combater quanto, digamos, o abuso da cocaína.

Em Gujarat, os grupos hindus que se envolveram mais ativamente no massacre dos muçulmanos foram os mais excluídos: dalits (“intocáveis”) e os advasis (aborígenes). Já na periferia de Delhi, a capital, cinco dalits foram linchados às margens de uma estrada, há alguns meses. Uma vaca havia morrido. Estavam cortando seu cadáver, para retirá-la do local. Cumpriam o papel que a sociedade de castas lhes reserva: o de responsáveis pelas tarefas mais sujas. Mas a multidão preferiu acreditar que profanavam o animal sagrado. Nem mesmo a intervenção da polícia foi capaz de evitar a tragédia.

Está se tornando muito difícil suportar a vida aqui, e tenho muita preocupação com o que ocorrerá nos próximos três ou quatro anos. Se você está a favor da corrente, há oportunidades. Mas para quem enfrenta a onda fascista, a situação fica a cada dia mais perigosa e dramática. Ser um muçulmano na Índia, hoje, por exemplo… Eu não saberia como sobreviver!

Você demonstra grande simpatia pela tradição gandiana, e pelo fato de a libertação nacional ter sido feita sem violência. A proposta de boicote contra as transnacionais é uma tentativa de reeditar, modernizando-os, os métodos de resistência pacífica?
Admiro a invenção de Ghandi pelo fato de ter expandido os limites da imaginação política. Mas, também neste ponto, não devemos ser dogmáticos. É preciso lembrar que o próprio processo da independência indiana não foi conduzido apenas por meio de ações pacíficas. E no mundo de hoje, eu me pergunto: os habitantes de países ocupados militarmente, como o Iraque ou Palestina, não terão o direito de lutar contra o invasor? Não estou preparada para condenar o que outros povos estão fazendo, quando não conheço a fundo suas realidades.

Concordo com a pergunta, no sentido de que representa uma atualização da proposta de Gandhi. Ele soube pressionar os britânicos por meio da não-cooperação, do não-pagamento de impostos. O mesmo método pode ser aplicado às empresas que lucram com a ocupação do Iraque. Nos últimos anos, nossos inimigos “modernizaram” em muitos sentidos as formas de dominação capitalista. Nós precisamos renovar a resistência e a utopia. Contra o velho imperialismo, o projeto nacionalista cumpriu um papel fundamental. Nos novos tempos, ele não basta. É preciso retomar a idéia de internacionalismo.

O Fórum Social Mundial tornou-se viável porque, desde o início, soube combinar a idéia de uma nova sociedade com a defesa do pluralismo e da diversidade. Ele é incompatível com a idéia de uma posição única – e, mais ainda, de uma direção política. Mas têm crescido, entre os participantes do FSM, a idéia de que ele deveria facilitar a construção de pontos de vista convergentes, e mesmo de ações comuns. Qual sua opinião?
Concordo inteiramente, e penso que o FSM corre um grande risco: é o de absorver as energias dos melhores ativistas do planeta, das mentes mais brilhantes e das pessoas mais generosas, apenas para que, ao final de quatro dias, comecemos a pensar num novo encontro, um ano depois. Se isso ocorrer, ele poderá ser absorvido pelo sistema que queremos combater. Não causará danos a este sistema, nem permitirá construir um novo mundo. Não deixará preocupados os que querem destruir o planeta ou construir a barbárie. Será sempre nossa música, mas não poderá se transformar em nossa luta.

E precisamos, cada vez mais, pensar em nossa luta – ou nos limitaremos a repetir um exercício que, com o tempo, vai se tornar aborrecido.O Fórum realizou até agora coisas belas. Os diálogos que ele proporcionou foram um fato político extraordinário. Mas precisamos estar abertos ao que é novo, aos desafios que surgem a cada momento. Estagnarmos, ou nos transformarmos num festival, seria contrariar tudo o que o FSM representou até agora.

Você manifesta, quando escreve, uma certa descrença com as formas atuais de política, e ao mesmo tempo esperança em governantes que têm coragem de seguir rumos novos. Como concilia estas duas tendências? 
Vocês estão vivendo, no Brasil, um processo semelhante ao que os movimentos populares passaram na África do Sul. Luta-se anos para levar ao poder um líder comprometido com as mudanças. E, no entanto, quando este novo governo assume, ele se dá conta de que, na esfera internacional, seu poder é muito reduzido. Se ameaça reverter as políticas neoliberais, o capital bate em retirada e ameaça provocar um colapso econômico. Amedrontados, estes governos começam a implementar as receitas do FMI, a expulsar os “radicais” do partido, a cortar direitos sociais como as aposentadorias. Veja o caso de Mandela, o herói da luta contra o apartheid. Ao assumir o poder, adotou políticas inacreditáveis: privatizações maciças, ajuste estrutural profundo. Por isso, acredito na independência dos movimentos, em nossa capacidade de manter, mesmo sobre estes governos, a pressão pela mudança. Nenhum país, nenhum líder popular, por maiores que sejam, podem enfrentar este sistema sozinhos. Só a consciência e a mobilização da sociedade são capazes de fazê-lo. Não se trata, quero frisar, de uma posição apolítica, ou que despreze a questão do poder. É muito importante que surjam governos comprometidos com transformações sociais. Mas é ainda mais decisivo exercermos, de nossa parte, a pressão que os leve a manter tais compromissos.

Sua posição parece muito semelhante à defendida em alguns momentos pelo subcomandante Marcos, de Chiapas. Ele sustenta que não devemos abandonar a idéia de emancipação social. Mas, para isso, o caminho principal não seria a tomada do poder, mas a criação de novas formas de soberania popular.Estou de acordo, com uma única ressalva. Não podemos ficar indiferentes às disputas pelo poder tradicional. Para mudar o mundo, temos de recorrer também a esta forma de pressão e de luta. Só não podemos nos acomodar, nem acreditar que os governos farão a mudança por nós. Teria sido preciso, no caso de Mandela – e ainda será, no de Lula – deixar claro que não nos desmobilizamos, que estamos atentos, que temos independência e não vamos nos confundir com o governo. É a única saída para evitar frustrações.

amartins@revistaforum.com.br

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