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07 de novembro de 2015, 19h56

“Nossa história ficou debaixo da lama”, diz sobrevivente de tragédia em Minas

"Olhei para cima, vi uma chuva de poeira. Quando olhei de novo, vi a avalanche de lama", conta Teresinha Custódio Quintão. Mais seis pessoas passaram a integrar a lista de desaparecidos após o rompimento de duas barragens no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), chegando a 25

“Olhei para cima, vi uma chuva de poeira. Quando olhei de novo, vi a avalanche de lama”, conta Teresinha Custódio Quintão. Mais seis pessoas passaram a integrar a lista de desaparecidos após o rompimento de duas barragens no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG)

Por Paula Laboissière, da Agência Brasil

O pedreiro Marcos Eufrásio Messias, 38 anos, vivia no distrito de Bento Rodrigues, zona rural de Mariana (MG), desde que nasceu. Morava com a mãe, os irmãos e dois sobrinhos. Criava galinha, pato e codorna. Tinha, como ele mesmo conta, a vida feita. Mas perdeu tudo depois que duas barragens na região se romperam e a lama destruiu o povoado.

“Eu tinha casa bem aqui no centro”, contou, apontando para um revirado de lama e sujeira. “Conseguimos sair a tempo, mas perdi carro, documento, cartão de banco. Tudo. Só conseguimos salvar a vida. De resto, não sobrou nada.”

A dona de casa Teresinha Custódio Quintão, 49 anos, também morou a vida toda no distrito atingindo pela tragédia. No momento em que as barragens se romperam, ela estava na cozinha do restaurante onde trabalhava com a irmã.

“Na hora em que vi a avalanche, minha irmã gritou. Eu estava acabando de arrumar a cozinha. Olhei para cima, vi uma chuva de poeira. Quando olhei de novo, vi a avalanche de lama.”

A casa de Teresinha fica na parte mais alta de Bento Rodrigues e não foi atingida pela tragédia. Serviu, na verdade, de ponto de apoio para receber os que perderam tudo. Acompanhada dos irmãos, passou a noite de sexta-feira (6) correndo de um lado pro outro, tirando gente das casas, carregando idosos, soltando animais presos.

“Deus ajudou porque estamos vivos. A nossa história ficou ali, debaixo da lama. Não sei o que vai ser da vida agora. A lama desmontou tudo, separou a família toda.”

Antônio Geraldo dos Santos, 32 anos, conseguiu salvar também a casa onde morava em Bento Rodrigues, mas acha que vai precisar retomar a vida em outro lugar. Ele, sete irmãos e dois sobrinhos saíram ilesos do local.

“Como a comunidade é pequena, todo mundo se conhece. As pessoas que estão desaparecidas não são parentes, mas é como se fossem. A gente cresceu conhecendo todas elas.”

Para Antônio, o rompimento das barragens não acabou apenas com a casa de centenas de pessoas. “Agora, temos que começar do novo. Não sei como a gente vai conseguir. Só vai cair a ficha mesmo daqui uns três dias. Agora, a gente está no susto, na emoção, no sofrimento. Mas daqui alguns dias, a vida vai voltar ao normal e é aí que a gente vai descobrir o dano maior.”

Número de desaparecidos em Mariana sobe para 25

Mais seis pessoas passaram a integrar a lista de desaparecidos após o rompimento de duas barragens no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG). Com isso, o total de pessoas ainda não localizadas após a tragédia chega a 25.

De acordo com a prefeitura de Mariana, os números incluem 13 funcionários que prestavam serviços para a mineradora Samarco e 12 moradores da região, sendo dois do distrito de Pedras, um do distrito de Camargo e os demais de Bento Rodrigues.

Por enquanto só há confirmação de uma morte, segundo a Defesa Civil de Minas Gerais. Trata-se de um funcionário da Samarco, que infartou no momento do rompimento da barragem. O órgão desmentiu a informação de que mais um corpo havia sido encontrado.

A mineradora informou que 557 pessoas foram retiradas das regiões mais atingidas e colocadas em hotéis de Mariana. A empresa estima ainda que cerca de 200 moradores deixaram suas casas em localidades afetadas e buscaram abrigo em casas de parentes e amigos.

Foto de capa: Antonio Cruz/Agência Brasil