Notas Internacionais: Mais um barco com 234 imigrantes está à deriva no mar Mediterrâneo | Revista Fórum
26 de junho de 2018, 11h41

Notas Internacionais: Mais um barco com 234 imigrantes está à deriva no mar Mediterrâneo

Em sua coluna, a socióloga Ana Prestes destaca as principais notícias internacionais do dia. Nesta terça-feira (26), ela chama a atenção para a situação dos imigrantes que tentam chegar à Europa. Comenta também sobre a "lucrativa" política de "tolerância zero" de Donald Trump. "Só uma das ONGs que cuida dos abrigos, a Southwest Key Programs espera receber em 2018 cerca de 500 milhões de dólares"

– A história é implacável e o legado da passagem dos europeus pela África agora bate às portas – ou aos portos – da Europa. Já fazem 5 dias que um barco com 234 imigrantes está à deriva no mar Mediterrâneo, próximo a Malta, sem porto onde ancorar. As condições humanitárias da embarcação são degradantes, há crianças pequenas sem pais, falta comida e roupas secas, segundo relatos da ONG LifeLine responsável pelo resgate das pessoas que tentavam atravessar o mar rumo à Europa. Nem Malta, nem Itália, nem França e nem Espanha se pronunciaram sobre a embarcação. Um outro navio, este cargueiro, também da LifeLine, com 108 resgatados a bordo foi permitido a aportar na Sicília, na Itália, após 6 dias esperando no mar.

– Mike Pence, vice-presidente dos EUA, está no Brasil. Tem agenda hoje (26) em Brasília e amanhã em Manaus. Do Brasil segue para o Equador e em seguida para a Guatemala. Um dos temas fortes da agenda com todos os países visitados é a continuidade da tentativa de isolamento da Venezuela na América Latina. Autoridades brasileiras tentarão abordar questões polêmicas como o aumento da taxação sobre a exportação do aço para os EUA e a separação de crianças brasileiras dos pais que tentam migrar para o país de Trump. O acordo sobre a utilização norte-americana da base de lançamentos espaciais de Alcântara será tratado dentro de um acordo quadro mais geral de cooperação aero-espacial. Pence fará visita a centro de acolhimento de migrantes venezuelanos no Amazonas como tentativa de “mostrar ao mundo” que a Venezuela precisa de intervenção por não conseguir conter a migração de seus cidadãos, sem apontar, é claro, que a Venezuela tem sofrido sanções econômicas pesadíssimas, impulsionadas pelos EUA por motivação política.

– Na Guatemala, Pence ouvirá um pedido das autoridades guatemaltecas de concessão do status de proteção temporária (TPS) para migrantes da Guatemala que entram nos EUA. O TPS seria para aliviar a pressão nacional sobre o governo após a tragédia provocada com a erupção do vulcão Fuego. Recentemente os norte-americanos tiraram o TPS de quase 60 mil hondurenhos e suas famílias que vivem nos EUA e que migraram para lá após a passagem do furacão Mitch pela América Central em 1998. Famílias salvadorenhas também perderam o TPS há poucos meses. El Salvador foi arrasado com dois grandes terremotos em 2001.

– No Equador, Pence reforçará uma parceria que tem crescido no último período ao tempo em que Lenin Moreno vai enterrando pouco a pouco a herança do governo de Rafael Correa. Para agradar a Trump, Moreno já demarcou com a Venezuela (deixando inclusive de defender sua soberania na OEA), quer se livrar de Julian Assange e endureceu com os conflitos na fronteira com a Colômbia. Permitiu ainda, a partir de 25 de abril, em memorando de entendimento com os EUA, que a DEA e o Departamento de Imigração dos país norte-americano atue em território equatoriano em uma Unidade Investigativa Criminal Transnacional. É bom lembrar que em 2009 Rafael Correa havia conseguido fechar a base militar americana de Manta.

– A política de “tolerância zero” e o controle migratório quase midiático de Donald Trump dá dinheiro. Os centros de detenção que agora vemos com frequência pela imprensa são administrados pela iniciativa privada. Com a recente decisão de Trump de que as crianças sejam reunidas às suas famílias detidas, os negócios poderão aumentar, pois os centros precisarão ser ampliados e melhor equipados. Só uma das ONGs que cuida dos abrigos, a Southwest Key Programs espera receber em 2018 cerca de 500 milhões de dólares, de acordo com dados da Bloomberg.

– Para além das instalações administradas pelas ONGs milionárias, o governo dos EUA anunciou que instalações do exército também passaram a abrigar os migrantes detidos na fronteira.

– Na Nicarágua, após mais um fim de semana de muita violência, foi retomada ontem (25) a mesa de diálogo e negociações entre governo e oposição mediada pela igreja católica. Governo ainda não se pronunciou sobre um pedido que está sobre a mesa de antecipação das eleições presidenciais inicialmente previstas para 2021. O número oficial de mortos, desde que o conflito começou em 18 de abril, já é de 206. Este número contrasta com o apresentado pela CIDH na última sexta (22), em que aparecem dados de 212 mortos, mais de 1300 feridos e 500 detidos. Em barricadas montadas na UNAN (universidade nacional autônoma da Nicarágua) os estudantes encapuzados não parecem saber bem pelo que lutam. Em resposta a um jornalista da France Press, um deles respondeu: “Nossa luta é por tudo”. Chegam hoje a Manágua funcionários do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos. Já há técnicos da CIDH no país.

– Principal adversário de Erdogan na eleição presidencial da Turquia, Muharrem Ince, que ficou com 31,6% dos votos, reconheceu a vitória do atual presidente para mais um mandato presidencial. O reconhecimento aconteceu mesmo em meio a diversas acusações, inclusive de observadores europeus do pleito, de privilégios à campanha de Erdogan, condições desiguais de campanha para adversários e injustiça com forças opositoras. Aliança com a extrema direita foi fundamental para a reeleição de Erdogan no último domingo.

– A União Europeia anunciou nesta segunda (25) mais sanções contra autoridades venezuelanas e contra o comércio de produtos europeus com o país. Entre as autoridades sancionadas com proibições para viagens e transações financeiras está a nova vice-presidente do país, Delcy Rodriguez. Em reunião de seus chanceleres, o bloco europeu considerou como fraudulentas e antidemocráticas as eleições venezuelanas realizadas em maio.

– Nos dias que antecedem a eleição presidencial que pode eleger o candidato da esquerda López Obrador presidente do México, segue a onda de violência que já é marca registrada do processo. Mais de cem políticos foram assassinados desde o início da campanha eleitoral. Ontem (25) mais um candidato foi assassinado, Emigdio López Avendaño, do partido Morena e postulante a deputado por Oaxaca. Quatro dos seus acompanhantes também morreram, em uma emboscada contra o carro que os transportava. Outro incidente que chamou a atenção foi o roubo de 11 mil cédulas da votação em um assalto armado no estado de Tabasco.

– Macron vem cumprindo uma promessa feita em setembro de 2017, a de criar uma Força Militar de Reação Europeia por fora da União Europeia. Nove países estão envolvidos. Além da França, estão Espanha, Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Holanda, Portugal, Dinamarca e Estônia. A Itália, que inicialmente estava no núcleo central do plano, ficou de fora depois das últimas controvérsias com o governo francês. A iniciativa vem à margem da cooperação já prevista pelo Tratado da União Europeia que é a PESCO (cooperação permanente estruturada em matéria de defesa), ao mesmo tempo em que é facultado a um grupo de estados membros da UE coordenar seus objetivos em âmbito da segurança. Analistas veem a iniciativa coincidindo com um momento de alta tensão dos países europeus em especial com o norte da África e o endurecimento das políticas migratórias. Do que mesmo estão se defendendo os europeus?

– A guerra comercial imposta por Trump também tem feito vítimas nos EUA. A tradicional empresa de motocicletas Harley-Davidson, anunciou que vai levar parte de sua produção para fora dos EUA. O objetivo é escapar das tarifas apresentadas pela União Europeia de 31% (antes eram 6%) sobre os produtos da fábrica americana. A medida é uma retaliação às tarifas estabelecidas por Trump para produtos europeus.

– No Uruguai, estudantes e professores continuam mobilizando e ocupando escolas e universidades pelos 6% do PIB para a Educação.