Cinegnose

por Wilson Ferreira

02 de agosto de 2016, 07h56

Notícias de ataques inspiram “assassinos copycat”?

Diante da sequência de ataques ocorridos na Alemanha, o site da Deutsche Welle (empresa de radiodifusão alemã) cogitou a possibilidade de o país estar sofrendo uma sequência de “assassinatos copycat”, efeito de contágio desencadeado por uma “fórmula dramatúrgica” através da qual a mídia vem tratando diferentes eventos. Atentados terroristas genuínos e ataques de assassinos solitários são descritos dentro de um mesmo script sensacionalista, criando um gigantesco “efeito Heisenberg”: a mídia está cada vez mais cobrindo a si mesma e os seus efeitos sobre as pessoas.

Nas históricas nevadas de 1996 na Costa Leste dos EUA, que nas transmissões ao vivo pelo canal CNN eram consideradas a maiores do século deixando Nova York e mais dez estados sob quase meio metro de neve, ocorreu um fato inusitado: embora a CNN alertasse os telespectadores a não saírem de casa, câmeras mostravam pessoas caminhando pelas ruas. E elas declaravam para as mesmas câmeras o porquê de estarem arriscando o pescoço: queriam fazer parte de um evento considerado pela TV o maior do século!

 Para o jornalista Neal Gabler a mídia parece estar cada vez mais cobrindo a si mesma e os seus efeitos sobre as pessoas. Gabler chamou isso de “efeito Heisenberg” numa referência ao princípio quântico da incerteza quando a luz que permite que observemos uma partícula interfere no próprio momentum da partícula. 

Uma das facetas desse efeito Heisenberg midiático é o chamado “efeito copycat”: há evidências crescentes de que um ato de assassinato em massa irá inspirar outros a cometer crimes semelhantes. Relatos sensacionalistas da mídia sobre carnificinas como as ocorridas em Munique e numa casa de repouso no Japão desempenham um papel crucial na criação de “assassinos copycat”.

Quem admitiu essa hipótese, há muito discutida por pesquisadores e por esse blog, foi artigo publicado no site da Deutsche Welle de 26 de julho sobre o impacto dos últimos ataques ocorridos na Alemanha – clique aqui.

O artigo aponta que o ataque no shopping center em Munique ocorreu exatamente cinco anos após o extremista de direita Andres Breivik matar 77 pessoas na Noruega. Segundo a reportagem, há uma possibilidade de que o massacre do norueguês ter sido um modelo para o assassino de Munique.

Período de contágio

A Deutsche Welle ainda cita a pesquisa do estatístico Sherry Towers, da Universidade Estadual do Arizona. Em 2015 debruçou-se no que ele chama de “efeito de contágio” de notícias sobre atiradores em massa. Towers afirma que notícias sobre esses eventos de ataques (com quatro ou mais mortes) criam um período de contagio que dura em média 13 dias.

“Esse tipo de pensamento contagioso não é implausível”, disse Towers. Jovens podem ser suscetíveis a ideias de suicídio ao ver esses eventos na mídia. “Assassinatos em massa e tiroteios em escolas que atraem mais a atenção dos meios de comunicação podem, potencialmente, fazer a mesma coisa em escala maior”, observou Towers.

Assassinos em massa são sempre assassinos copycat. Para Towers, sempre procuram um modelo de referencia que emulam e até tentam superar. 

Britta Bannenberg, advogado e criminalista de Giessen, Alemanha, descreve que muitos deles escrevem diários ou inventam histórias onde descrevem o incidente. Planejam seus ataques com semanas de antecedência. Eles leem sobre outros incidentes e assistem a documentários e vídeos. Cercam-se com armas reais ou falsificadas, escrevem notas de despedidas e pensam no que vão vestir durante o tiroteio.

Bannenberg acrescenta que esses assassinos copycat ainda jogam vídeo-games com simulações de situações análogas a que enfrentarão para imaginar a si mesmos realizando as ações.

Ataques na Noruega em 2011

A mídia é essencial para esse tipo de assassino pois fornece informações sobre os ataques anteriores, fazendo o atacante se identificar com modelos de vingança.

O artigo da publicação alemã cita ainda um conhecido pesquisador desse blog, o norte-americano Loren Coleman, autor do livro The Copycat Effect: how the media and popular culture trigger the mayhem in tomorrow’s headlines

De acordo com Coleman, nas reportagens sobre esses eventos devem ser evitadas certas expressões como “ataque bem sucedido” ou “suicídios mal sucedidos”. Além de estereótipos como “uma pessoa comum” (“the boy next door”) ou “lobo solitário”. Para Coleman, jornalistas devem relatar objetivamente tais eventos.

Para o psicólogo alemão Jens Hoffman, referindo-se ao assassino de 19 anos que matou 16 pessoas na sua escola em Erfurt, Alemanha, em 2002, “se assassinos como Robert Steinhäuser não forem nem demonizados e nem apresentados como inocentes, suas biografias futuras retratarão seus conflitos interiores e fraquezas. Dessa forma a função de modelo de assassino em massa pode ser enfraquecida”.

“Copycat” é uma expressão em inglês que tem a sua origem no fato de que filhotes de gato tendem a imitar o comportamento da mãe.

Fórmulas dramatúrgicas

Uma das bases teóricas explicativas do chamado efeito copycat é a “Teoria da Aprendizagem Social”, ou “Teoria da Modelagem”. Essa abordagem sustenta que os indivíduos podem aprender determinados comportamentos socialmente, de maneira informal, fruto da mera observação. 

Através da observação de comportamentos considerados como “modelos” produziriam resultados também almejados por outras pessoas. A imitação ocorreria na expectativa de obter os mesmos resultados observados na ação ou comportamentos modelados.

A questão é que a mídia não relata simplesmente os eventos, mas sempre os insere dentro de “fórmulas dramatúrgicas” que podem acabar criando “modelos bem sucedidos” no mundo real.

O que torna ainda mais irresponsável estratégias propagandísticas como a recente do ministro da Justiça Alexandre de Moraes em convocar a imprensa para divulgar “investigações sigilosas” sobre suposta “célula amadora” do ISIS em território brasileiro a poucos dias dos jogos olímpicos. “Modus operandi” e as mesmas fórmulas dramatúrgicas foram didaticamente apresentadas – sobre isso clique aqui.

Veja também:  Black blocs, Chomsky e o não acontecimento do “manifesto do apocalipse” de Bolsonaro

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