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11 de Abril de 2014, 14h31

A nova propaganda machista e manipuladora da Avon

Por Jarid Arraes Muito se fala sobre como as propagandas manipulam a mente dos consumidores e criam neles a vontade de comprar algo que nem sempre é útil, necessário ou até mesmo bom. Porém, por mais que esse discurso seja mais ou menos aceito, nem sempre é fácil identificar o jogo de manipulação. A Avon, […]

Por Jarid Arraes

Muito se fala sobre como as propagandas manipulam a mente dos consumidores e criam neles a vontade de comprar algo que nem sempre é útil, necessário ou até mesmo bom. Porém, por mais que esse discurso seja mais ou menos aceito, nem sempre é fácil identificar o jogo de manipulação. A Avon, no entanto, lançou recentemente uma propaganda que pode ajudar a tornar essa questão mais acessível para o público.

No vídeo disponível no canal da marca no Youtube, uma moça branca e magra briga consigo em frente a um espelho: “Parabéns, eu acordei gorda de novo! Por que? Porque você não resistiu aquele último brigadeiro da festa. Comeu e hoje acordou parecendo um balão de gás hélio, inchado. Agora toca começar a dieta da proteína, a dieta dos pontos, do tipo sanguíneo, da pera, da lua. Parabéns pra você que se comportou a semana inteira e errou justo no dia da festa. Aquele vestido que você comprou, sabe aquele vestido lindo branco? Esquece, vai ficar todo marcado, ridículo. Vai colocar esse corpinho redondo cheio de brigadeiro pra dançar na pista, vai“.

A reação da moça diante do consumo de um mísero brigadeiro pode soar exagerada e absurda para alguns, mas a verdade é que esse pensamento é a realidade diária de milhares de mulheres, incluindo as que sofrem com transtornos alimentares como anorexia e bulimia; para elas, um único brigadeiro pode provocar crises severas. O discurso presente no vídeo é o discurso que essas mulheres reproduzem constantemente, sem qualquer “toque de humor”. Além disso, mulheres gordas são insultadas do início ao fim, ridicularizadas e desvalorizadas como seres humanos. E apesar da questão ser certamente mais grave para mulheres que sofrem com transtornos alimentares, a agressividade presente no vídeo atinge todo o gênero feminino.

Com o show de ofensas, a Avon espera despertar a preocupação com a aparência física em suas consumidoras. A partir daí todas as mulheres estão, presumidamente, na frente do espelho em verdadeira paranóia, se chamando de ridículas e se torturando porque não “se comportaram”. Até que a empresa, como um passe de mágica, oferece uma solução milagrosa, um produto que em apenas alguns segundos consegue transformar a autoestima destruída em uma autoimagem confiante. O discurso no vídeo de repente muda: “(…) Você vai rechear aquele vestido, vai sambar, se acabar. Os caras não querem ter onde pegar? Então pronto, meu amor. Tá linda, gata, poderosa. Olha só pra você!”

Infelizmente a vida real não é simples assim. Não basta uma aplicação de um produto de maquiagem para que a autoestima destroçada se transforme em amor próprio absoluto. E, ao contrário do que a empresa sugere, o fato de existirem homens que queiram “ter onde pegar” também não faz com que a mulher que se odeia passe a se amar. Afinal, são muitos anos de vida ouvindo que nunca são bonitas o suficiente, que seu valor está diretamente relacionado ao seu peso e as aos ditos “defeitos” no rosto e no corpo. Com uma vida inteira de destruição, nenhum produto é capaz de reparar os estragos. Mas certamente servirá como uma “máscara”.

A Avon sabe que muitas mulheres tentam resolver o problema maior buscando paliativos como os seus produtos. Por isso faz uma propaganda tão descaradamente manipuladora e ofensiva, que trata mulheres como desequilibradas. Subestima a inteligência de todo o gênero feminino, sugere que devem se sentir satisfeitas porque alguns homens gostam de “ter onde pegar” e oferece seu serviço.

Será que as pessoas têm tão pouco senso crítico como a empresa julga?

Foto de capa: Reprodução/Youtube