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29 de março de 2019, 06h00

“Nunca se confiou tanto na falta de memória de um país”, diz Jean Wyllys

Exclusivo: ex-deputado federal, diretamente de Berlim, onde está vivendo, concedeu entrevista à Fórum em que comentou a determinação de Bolsonaro para comemorar o aniversário do golpe de 1964 e revelou que a maioria das pessoas na Europa já sabem o que está acontecendo no Brasil; capital alemã terá manifestação contra elogio à ditadura

Reprodução/Instagram Jean Wyllys
O ex-deputado federal Jean Wyllys, que decidiu viver fora do país por conta das constantes ameaças de morte que vinha recebendo, falou à Fórum diretamente de Berlim (Alemanha), onde está vivendo, sobre a polêmica da semana no Brasil: o fato de Jair Bolsonaro ter determinado que se comemore o aniversário de 55 anos do golpe militar que culminou na ditadura, no próximo dia 31. “O que o Bolsonaro está propondo é um elogio à mentira. É um revisionismo histórico tosco. Dizer que não houve ditadura no Brasil, ou pior, comemorar isso, mentindo sobre a data, chamando de revolução algo que...

O ex-deputado federal Jean Wyllys, que decidiu viver fora do país por conta das constantes ameaças de morte que vinha recebendo, falou à Fórum diretamente de Berlim (Alemanha), onde está vivendo, sobre a polêmica da semana no Brasil: o fato de Jair Bolsonaro ter determinado que se comemore o aniversário de 55 anos do golpe militar que culminou na ditadura, no próximo dia 31.

“O que o Bolsonaro está propondo é um elogio à mentira. É um revisionismo histórico tosco. Dizer que não houve ditadura no Brasil, ou pior, comemorar isso, mentindo sobre a data, chamando de revolução algo que resultou em 25 anos de terrorismo de Estado, é uma desgraça”, afirmou.

De acordo com Wyllys, é “escandaloso” que um presidente da República, eleito através do jogo democrático, use da própria democracia para tecer elogios à ditadura.

“Isso só explica o tipo de desgraça que é esse governo. É ruim, inclusive, do ponto de vista da proposta de política pública. Não fez nada ao longo desses quase 100 dias de governo. A única coisa que ele [Bolsonaro] produziu é ódio. Comemorar o golpe, fazer isso, só serve para agitar seus seguidores nas redes sociais e manter esse discurso”, pontuou.  “Nunca se confiou tanto na falta de memória de um país como agora”, completou.

Incredibilidade 

Na percepção do ex-deputado federal, que está vivendo em Berlim desde o início do ano e tem participado de eventos e conferências em inúmeros países, os europeus já estão cientes de quem é Jair Bolsonaro, o que ele representa e qual a atual situação política do Brasil.

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Mais do que isso, Wyllys contou que as pessoas normalmente o perguntam sobre o Brasil e, perplexas, não acreditam como uma figura tal qual Bolsonaro conseguiu chegar ao poder. “As pessoas sabem e ficam perplexas. Não só em Berlim. Tenho viajado pela Europa com autoridades de Estado e tenho observado que há a questão da incredulidade. ‘É verdade que se elegeu um presidente que não apresentou um programa de governo? É verdade que se elegeu em cima de fake news?’, me perguntam. E quando eu respondo que sim, me perguntam ‘como'”, narrou, complementando ainda que o interesse dos estrangeiros com relação à situação política do Brasil se dá por conta da “preocupação” que as pessoas têm de sofrerem processos parecidos.

“Ninguém pode cruzar os braços: nem os brasileiros que estão vivendo fora do país nem as pessoas democráticas de outros países”, frisou.

Até mesmo as manifestações de apoio de brasileiros no exterior a Bolsonaro, segundo o ex-deputado federal, diminuíram. “Só quem defende Bolsonaro aqui na Europa é brasileiro coxinha. Mesmo assim, eles estão muito cientes: você vê um ou outro se expressando. Comigo nunca aconteceu nada e acho que não vai acontecer porque eles me conhecem. Se antes eu já não dava trégua com fascistas, agora que dou menos trégua ainda, sem o decoro parlamentar. Só quem elogia esse sujeito [Bolsonaro] são coxinhas brasileiros”.

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Imagem internacional

Jean Wyllys, que recentemente foi aplaudido por diplomatas após ser atacado pela embaixadora brasileira junto à Organização das Nações Unidas em Genebra, disse ainda que Bolsonaro já está ciente e “preocupado” com sua imagem ao redor do mundo.

“Ele está tão preocupado que ameaçou tirar o posto de embaixador daqueles que não defenderem sua imagem. Ou seja, os embaixadores que não se dispuserem a mentir, pois defender Bolsonaro é uma mentira. Ele sabe que a imagem dele é péssima e por isso ameaçou e, por isso, quem não quer perder o posto e perder seus privilégios está começando a se prestar a isso, como a Nazareth Farani, que se prestou ao papel deplorável de tentar me intimidar dentro da própria ONU. Então, a imagem dele [Bolsonaro] aqui fora é muito ruim”, revelou.

Apesar do episódio com a embaixadora em Genebra ter piorado a imagem da diplomacia brasileira no âmbito internacional, Wyllys acredita, contudo, que “de certa forma expôs o governo brasileiro e seus métodos”.

“Preocupou diplomatas que não querem se prestar a isso”, disse.

Ato contra o elogio à ditadura em Berlim 

Assim como em inúmeras capitais do Brasil, ativistas promoverão no domingo (31) em Berlim, cidade que Jean Wyllys está vivendo, um ato contra o elogio à ditadura militar incentivado por Jair Bolsonaro. O ex-deputado federal, inclusive, deve marcar presença.

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No centro histórico da capital da Alemanha, ativistas brasileiros e alemães, em silêncio e vestidos de preto em sinal de luto, farão a manifestação em repúdio às declarações do presidente brasileiro e em memória aos mortos, torturados e desaparecidos do período dos anos de chumbo.

Para o ex-deputado federal brasileiro, atos como esse no exterior são importantes para denunciar ao mundo o movimento antidemocrático que assola o Brasil.

“Os atos cumprem essa função de denúncia. Cada vez que um grupo de 100, 200 pessoa se reúne junto com seus amigos alemães, chama a atenção e os passantes querem saber o que as pessoas estão fazendo. Há uma disseminação de informações necessária”, afirmou.

O ativista acredita, porém, que para além da denúncia, atos contra elogios à ditaduras e em defesa dos direitos humanos são fundamentais em qualquer país para qualquer pessoa que se considere democrata.

“Ditaduras são uma desgraça, e elas são como um tipo de vírus, vão contagiando o mundo. E a gente está vivendo um pouco essa sombra em toda a Europa e América Latina”, analisou.

O ato em Berlim contra as comemorações do golpe de 1964 é organizado por entidades como Fórum Resiste Brasil – Berlin, Brasilien Initiative Berlin e FDCL, e acontecerá a partir das 15h (horário local) em frente ao icônico Portão de Brandemburgo.

Saiba mais sobre o evento aqui.

 

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