INSCREVA-SE JÁ
11 de Maio de 2018, 15h33

O abandono dos sem-teto: “Para nós todo dia é um dia triste”

Famílias inteiras que perderam tudo no incêndio e desabamento do prédio ocupado por um movimento de moradia dormem há mais de uma semana em condição de miserabilidade em uma praça a poucos metros dos escombros da tragédia. Fórum conversou com alguns dos sobreviventes e o sentimento de abandono por parte do poder público é gritante

Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

“Não tem ninguém aqui que não está sofrendo. Não gosto nem de passar perto dos escombros porque começo a chorar. A gente não consegue dizer que temos dias de alegria. Todo dia é um dia triste. Um dia mais triste que o outro. E pensar que há uma semana estávamos todos reunidos e bem e agora estamos acampados em uma praça, ao relento.” As palavras são de Fagner Apolinário, de 32 anos. O ajudante geral estava na casa de sua mãe quando viu pela televisão, na madrugada de 1º de Maio, o edifício Wilton Paes de Almeida, onde morava, ruindo em chamas.

“Quando vi comecei a chorar pelos meus amigos e companheiros. Perdi tudo o que tinha. Mas acima de tudo, perdi amigos”, afirmou, com a voz embargada, à reportagem da Fórum. Fagner é mais uma entre as cerca de 300 pessoas que estão vivendo em um acampamento improvisado no Largo do Paissandu. O acampamento foi montado pelas famílias que moravam na ocupação do prédio que desabou e que ficaram desabrigadas.

Parte das pessoas que moravam no edifício começaram a dar entrada nos procedimentos para receber uma bolsa-aluguel da prefeitura de São Paulo, que consiste em um pagamento de R$1200 que serviria para o adiantamento de três meses de aluguel e R$400 mensais pelo período de um ano. Por meio de nota oficial, a prefeitura informou que 116 famílias já cadastradas na última semana pelo município foram chamadas para comparecer ao posto de atendimento da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Governo do Estado (CDHU) para assinatura do termo de adesão e saque do benefício da bolsa-aluguel. Informou ainda que novas famílias começaram a ser cadastradas na última terça-feira (8).

A maioria das famílias, no entanto, acha o valor insuficiente para conseguir alugar uma moradia e seguir a vida adiante, tendo em vista que o pouco do que tinham foi perdido no incêndio e, sem nem mesmo um fogão para cozinhar ou um emprego para sustentar os filhos, segundo os desabrigados, fica praticamente impossível recomeçar a vida.

“O que eu vou fazer alugando uma casa sem ter um fogão para cozinhar, uma cama para dormir? Onde que eu vou buscar o dinheiro para fazer comida para o meu filho? Aqui no acampamento, pelo menos, a população está ajudando. O poder público não fez nada. Estamos em estado de emergência, estamos na rua. Manda o Bruno Covas [atual prefeito] alugar um apartamento e sustentar a família com R$400. Esse dinheiro ele gasta só na lanchonete. Não é justo para mim, com um filho e esposa, me dar R$400 reais”, disse Adilson da Silva, de 48 anos. O ambulante estava vivendo há quatro anos na ocupação com sua esposa e sua filha de 6 anos.

Adilson, sua esposa e sua filha na barraca em que estão acampados. (Foto: Ivan Longo)

A opinião de Adilson com relação à bolsa-aluguel é unânime entre os desabrigados. “A prefeitura diz que vai dar apoio de auxílio aluguel, mas não temos nem documento mais, temos que tirar tudo de novo. Queremos moradia, não dinheiro. Depois de pagar esse dinheiro, que é insuficiente, o povo volta a ser abandonado”, disse o nigeriano Mike Garuba. O artista, que canta e compõe reggae gospel, estava vivendo há 4 meses na ocupação do prédio. “Perdi todas as minhas músicas, eu canto e componho. Tudo que produzi ao longo de 5 anos eu perdi”, revelou.

O nigeriano Mike falou com a Fórum enquanto almoçava (Foto: Ivan Longo)

O fato de a bolsa-aluguel da prefeitura ser insuficiente foi um ponto levantado também pelo padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua. No mesmo dia em que a reportagem da Fórum visitou o acampamento dos desabrigados, movimentos de moradia, junto com a Pastoral, organizaram uma manifestação pelo direito à moradia e em solidariedade às famílias do prédio do Paissandu. “A bolsa-aluguel é insuficiente, não dá pra alugar nada. Aquilo é uma resposta inadequada, mas eles [poder público] vão dizer: ‘demos uma resposta’. Mas é uma resposta desumana”, disse o religioso.

Abandono

Quem chega ao Largo do Paissandu logo vê uma estrutura intrigante. Atrás da igreja que fica na praça, equipes do Corpo de Bombeiros trabalham na remoção dos escombros do prédio que desabou em uma área isolada por grades que conta com dezenas de banheiros químicos. Do outro lado, há outra área isolada por grandes onde estão as barracas dos desabrigados e uma cozinha improvisada com fogão, gás e utensílios doados pela população. Tudo o que os desabrigados têm, inclusive, foi doado pela população. E são em situações assim que se evidencia que a solidariedade vem daqueles que menos tem recursos. Diariamente, filas de moradores de rua se formam no lado de fora do acampamento pois os desabrigados dividem tanto as doações quanto as refeições feitas no local. Por outro lado, os sem-teto que agora estão dormindo em barracas sequer podem usar os banheiros químicos que foram instalados nas proximidades, de uso exclusivo dos bombeiros.

Os desabrigados dividem todas as doações, assim como as refeições, com moradores de rua, que formam filas para receber almoço e doações. (Foto: Ivan Longo)

“Pode ver que não tem nenhum banheiro químico aqui. Temos 14 banheiros químicos do outro lado da igreja que só bombeiro e PM pode usar. A gente se vira com os banheiros do bar. Recebemos tudo em doação, nada da prefeitura, nem uma pedra de sabão. O sentimento é de revolta, de tristeza, de abandono por parte da prefeitura, que nos deixou com uma mão na frente e outra atrás. Nos deixaram aqui por mais de uma semana ao Deus dará, sem um colchão, um cobertor”, disse Fagner Apolinário. “Olha o tanto de crianças que tem aqui. Por que não colocam um banheiro químico para a gente? Sofremos humilhação até para fazer necessidades no banheiro do bar. Estamos sendo oprimidos pelo estado”, afirmou outro desabrigado.

O ambulante Adilson da Silva ainda foi além. “Está difícil aqui. Lá [no prédio que desabou] era ruim, mas aqui é pior. Estamos ao relento, abandonados. Não tem banheiro químico. Quando tem festinha o João Doria [ex-prefeito] junta centenas de banheiros químicos pela cidade. E a gente aqui, sem nada. PSDB é assim.”

A prefeitura, por sua vez, diz que disponibiliza aos sem-teto, como alternativa ao acampamento improvisado, os albergues públicos, para que eles se instalem enquanto não recebem a bolsa-aluguel. Os albergues, no entanto, são um velho problema para a população de rua de São Paulo. Sujos, com regras rígidas e horários limitados, muitos separando as famílias por gênero e mal tratando a pessoas, eles acabam sendo renegados pelos desabrigados, que preferem dormir sem colchão a serem humilhados nesses locais.

Para o advogado Ariel de Castro Alves, que atua na área de direitos humanos e faz parte do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), a ação da prefeitura é equivocada.

“A primeira providência que a prefeitura deveria ter tomado é encaminhar aquelas famílias a hotéis de baixo custo no centro para que elas ficassem em condições de mínima dignidade, e não ficarem propondo de eles irem para albergue, desmembrar as famílias. Elas querem se manter juntas. Então, eles deveriam ter sido colocados em pensões até que tramitassem os procedimentos para a inclusão no auxílio-moradia. Essa inclusão não acontece de uma hora para outra. Tem cadastros, formulários. Então, é uma indignidade, uma situação extrema de negligência, de omissão por parte da prefeitura, manter aquelas pessoas na rua, crianças, idosos, mulheres. Essas pessoas estão inalando poeira dos escombros, fumaça do incêndio. Muitos estão com problemas respiratórios. Nunca vi isso acontecer. Se fossem famílias de classe média, que estivessem nessa situação de um prédio desabar, a prefeitura já teria colocado em hotéis de cinco estrelas. Mas como são pessoas pobres, que viviam em ocupações, eles tratam com omissão, descaso e negligência”, disse o advogado, que também estava na manifestação de apoio aos sem-teto.

Há inúmeras crianças desabrigadas submetidas a condições insalubres no acampamento. (Foto: Ivan Longo)

“Isso mostra que temos governos que detestam os pobres, que não dão nenhuma prioridade, que tratam eles de maneira degradante, cruel, desumana. Não há o mínimo de sensibilidade”, disparou.

Outros desabrigados que estão no acampamento endossam o abandono relatado por Ariel. Thiago Gonçalves, de 29 anos, por exemplo, recorreu à ocupação há um ano diante da dificuldade em conseguir emprego para pagar um aluguel depois que deixou a prisão. De acordo com ele, ao menos na ocupação, com endereço fixo, ele tinha alguma chance de conseguir um emprego. Agora, prefere ficar acampado e lutar de forma digna por sua moradia ao invés de recorrer aos abrigos oferecidos pela prefeitura, onde diz que se sente humilhado.

“Aqui é o lixo do Brasil [apontando para um rato que passou próximo à reportagem]. Os abrigos da prefeitura são um lixo. Eu só fui tomar um banho. Saí daqui às 13h e voltei meia-noite, tudo isso por ter que ficar esperando para conseguir entrar no abrigo e depois esperar um carro para voltar. Quem está ajudando é a população, a prefeitura não está dando nada. Lá no abrigo não vão nos dar atenção. Então, temos que mostrar que estamos na luta, que temos nossos direitos. Quero lutar para ter uma moradia e assim voltar a trabalhar, correr atrás dos meus objetivos. Não quero voltar para a cadeia. Quero recomeçar, quero ver minha filha de 7 anos crescer”, desabafou.

Thiago Gonçalves teme não conseguir um emprego, com o desabamento do prédio, ter que morar na rua. (Foto: Ivan Longo)

O artista nigeriano Mike Garuba vai na mesma linha. “A realidade é que não está fácil. Às vezes vou no posto de gasolina e fico lá em pé, nem durmo, porque aqui passamos mal. Dormir no chão, com sujeira, é muito degradante. Daqui a pouco tenho que sair para tomar banho mas não sei como vou fazer. Tem um abrigo que a prefeitura quis levar a gente, debaixo de uma ponte. Aquilo não é lugar para a gente ficar. Queremos uma casa.”

Criminalização

Como se já não bastasse a falta de moradia, as perdas materiais e emocionais com o desabamento do prédio, o abandono da prefeitura e a situação de miserabilidade no acampamento, os desabrigados ainda têm que enfrentar, agora, com mais intensidade, a criminalização dos movimentos de luta por moradia.

Logo após a tragédia anunciada, o ex-prefeito de São Paulo, João Doria, não perdeu tempo e disse que o prédio era ocupado por facções e que funcionava como um ponto de venda de drogas. O discurso do tucano endossa justamente uma narrativa já histórica de criminalização dos movimentos populares de luta por moradia. A tendência é que o desabamento do prédio, assim como já há algum tempo acontece quando há incêndios em favelas, seja utilizado como justificativa para impedir que os movimentos sociais façam novas ocupações e encampem mobilizações.

“A repressão contra o povo da rua, as ocupações, a criminalização vai aumentar. É um momento muito grave. Um prédio foi incendiado e agora querem incendiar os movimentos”, disse se o padre Júlio Lancellotti.

Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e pré-candidato à presidência da República, não tem dúvidas de que a criminalização dos movimentos de moradia vai passar, agora, por um momento de intensificação. À Fórum, na mesma manifestação de apoio aos desabrigados, Boulos disparou: “Há uma tentativa absurda de criminalizar as lutas sociais, os movimentos. Quiseram culpar as próprias as vítimas pela tragédia. Isso é inadmissível. Temos que dar uma resposta a isso e exigir políticas públicas de habitação”.

Os desabrigados que estão acampados no Largo do Paissandu já sentem isso na pele. “Tem certas pessoas que passam aqui e olham para a gente com outro olhar, pensam que vamos roubar, que somos bandidos. Eu vendo água no farol, sou trabalhador. Perdi todas as águas que eu ia vender com o incêndio. Não tenho dinheiro para comprar mais. E aí, como vou trabalhar? A gente está abandonado e ainda é tratado como bandido. Não estamos aqui porque queremos, é falta de opção, um último recurso”, disse o ambulante José Tomás, de 38 anos.

José Tomás (à esquerda) não tem dinheiro nem para comprar as águas que perdeu no desabamento e que iria vender no farol. (Foto: Ivan Longo)

Outros desabrigados fizeram questão de responder às declarações de João Doria de que o prédio era ocupado por uma facção criminosa. “Eu fico muito triste. Ele [Doria]está lá confortável na casa dele, aí é fácil falar essas coisas. Vem aqui conviver com a gente para ver se a gente é bandido. Se a gente fosse bandido, acha que estaríamos aqui nos humilhando? Nós estamos querendo nosso direito. Lá [na ocupação] tinha cidadãos de bem, de baixa renda, que não tinham condições de pagar um aluguel. Eu não tenho. Nós recorremos a essa ocupação por isso”, afirmou Thiago Gonçalves.

Valtair José dos Santos, pedreiro que vivia na ocupação e está atuando como uma espécie de coordenador do acampamento, foi além e politizou a questão. “Vamos falar a verdade. Não sou de partido nenhum, mas a verdade é que quem fecha com o povo é o PT. O Haddad não mandava tirar ninguém de ocupação e nem mandava a polícia bater na gente. Agora, estamos na mão de um governo que acha mais fácil transformar o sofredor em criminoso do que resolver o problema”, disse, já mandando um recado: “Mas nós vamos dar a resposta na eleição. Ao contrário do que eles dizem, aqui todo mundo é trabalhador e vota”.

Mortos e desaparecidos

Em conversas com a reportagem, quase todos os desabrigados relatam que tinham amigos e conhecidos que nunca mais foram vistos após o desabamento e que provavelmente estão mortos e soterrados nos escombros.

As equipes do Corpo de Bombeiros seguem ainda trabalhando na remoção dos restos do prédio e na busca por mais corpos. Até o momento, oficialmente, foram encontrados restos mortais e confirmadas cinco mortes, entre elas a da primeira vítima a ser identificada, Ricardo Pinheiro.

São consideradas oficialmente desaparecidas seis pessoas: Francisco Dantas, de 56 anos; Selma Almeida da Silva, 40; Werner, 10, filho de Selma; Wendel, 10, filho de Selma; Eva Barbosa Lima, 42; Walmir Sousa Santos, 47.

De acordo com os bombeiros, as buscas devem continuar até a próxima quinta-feira (17), mas as chances de encontrar sobreviventes são mínimas.

Outro Lado

Após a publicação desta reportagem, a prefeitura de São Paulo enviou à Fórum a seguinte nota:

A Prefeitura de São Paulo informa que segue oferecendo acolhimento a todos os desabrigados que estão no Largo Paissandu, mas não pode obrigá-los a aceitar. A assistência social fez 569 encaminhamentos desde o incêndio, e já começou o pagamento do auxílio moradia pela CDHU. A maioria das famílias vítimas do desabamento já foi acolhida pela Prefeitura, seguiu para casas de parentes ou foi realocada pelo próprio movimento. Grande parte das pessoas que se encontram no Largo Paissandu não é de vítimas do desabamento, mas sim de pessoas atraídas pelas doações feitas no local. A Prefeitura solicita que as doações sejam encaminhadas para a Cruz Vermelha.

Auxílio moradia

A Prefeitura de São Paulo informa também que, entre os dias 8 de maio e 10 de maio, das 171 famílias originárias da ocupação vítimas do desabamento cadastradas pelo município em 10 de março, 146 famílias se apresentaram e foram convocadas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), do Governo do Estado, para retirada da primeira parcela do auxílio moradia, por meio de um cheque nominal. Essas famílias podem sacar o valor de R$ 1,2 mil em qualquer agência do Banco do Brasil. Para as outras 11 parcelas do benefício, as famílias receberão um cartão para saque mensal no valor de R$ 400. Outras 103 famílias dos imóveis interditados foram cadastradas pela Secretaria Municipal de Habitação. Essas famílias também estão sendo convocadas para retirada do benefício.

As famílias que tiveram os imóveis interditados ou são vítimas do desabamento e não foram cadastradas devem procurar a Central de Habitação, na avenida São João, 299, das 9h às 16h, para encaminhamento do atendimento habitacional.