Julian Rodrigues

16 de janeiro de 2019, 08h31

O acirramento da disputa pesada no campo progressista e a eleição da presidência da Câmara

A decisão do PCdoB de se juntar ao PDT de Ciro no apoio à Rodrigo Maia (DEM) para presidente da Câmara é mais um sintoma do acirramento da disputa interna dentro do bloco progressista.

Montagem

A decisão do PCdoB de se juntar ao PDT de Ciro no apoio à Rodrigo Maia (DEM) para presidente da Câmara é mais um sintoma do acirramento da disputa interna dentro do bloco progressista.

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O pano de fundo são distintas análises sobre o governo Bolsonaro, o caráter da oposição e a relação com o PT.

1) Sobre o PDT e Ciro, paixões à parte, é fato a heterogeneidade do partido presidido por Lupi. Dos seus 4 candidatos a governador que foram ao segundo turno em 2018, 3 apoiaram Bolsonaro. Sua bancada federal reflete essa – digamos – “pluralidade” interna. Ademais, também é fato que Ciro Gomes adotou uma postura de fustigar duramente o PT e de fazer uma oposição “pontual” a Bolsonaro (só ler suas entrevistas).

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2) O PCdoB também vem de uma acirrada luta interna, que se relaciona com diferentes visões sobre a tática de construção do partido, a relação com o PT, a amplitude de sua política de aliança, a aproximação com o PDT/Ciro, entre outros temas estratégicos. O setor moderado venceu a disputa quando do apoio à eleição de Rodrigo Maia em 2016. Na seqüência, o cenário acabou confluindo para o predomínio dos que internamente defendiam que o PCdoB apoiasse Haddad e não Ciro, em 2018. Agora, em 2019, parece que os moderados que querem distância do PT estão na liderança. PCdoB anunciou bloco com PDT e PSB, e, agora, reafirma o apoio à Maia, mesmo sendo ele candidato do governo e contando com o apoio do PSL de Bolsonaro.

3) PSB é mais complexo de analisar, também por sua heterogeneidade e grandes diferenças regionais. Em acordo informal com o PT, ficou “neutro” no primeiro turno de 2018 e apoiou Haddad no segundo turno. Agora, no debate sobre a presidência da Câmara anuncia que não apoiará Maia, em virtude dele ser o candidato do governo. De certa forma se abre uma brecha para reaproximação do PSB com o PT e se prenuncia “racha” do bloco com PCdoB e PDT.

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4) O PSOL vem girando sua posição desde o golpe de 2016, abandonando um certo sectarismo antipetista. A campanha Boulos reposicionou nacionalmente o PSOL como partido de esquerda com vocação para crescer, isolando aquele característico antipetismo infantil. Embora o lançamento de Freixo tenha sido realizado no “antigo método” de autoconstrução proclamatória (sem ter havido qualquer negociação prévia mais ampla), o deputado fluminense é um candidato com densidade política e tem condição de liderar o bloco de oposição.

Por fim, o PT. Em 2016, assistimos a uma espécie de “rebelião das bases”, consignada na palavra de ordem “petista não vota em golpista”. Esse movimento derrotou aqueles que queriam apoiar Maia. Apoiamos André Figueiredo, do PDT, embora uma parte significativa da bancada petista tenha votado em Maia (é só analisar as planilhas).

Agora, esse setor moderado e ultra-pragmático da bancada federal volta a defender que o PT apoie Rodrigo Maia – e o partido ainda não definiu posição oficial.

O líder da bancada e a presidenta do PT já asseguraram que o Partido não estará no bloco do governo.

O desafio agora, portanto, é construir uma posição comum com o PSB e o PSol.

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Pessoalmente, defendo que também não se descarte uma composição com setores de centro-direita que se oponham à candidatura oficial de Rodrigo Maia/Paulo Guedes. Maia será o grande fiador da reforma da previdência.

A disputa está dada entre as diferentes táticas nesse campo (internamente, no PT, sobre nossa postura) e, nos outros partidos sobre a relação com o PT. Em debate também a caracterização do novo governo, a intensidade e o ritmo da oposição ao governo Bolsonaro. Disputas essas transversais a todos os partidos progressistas – até mesmo o PSol.

Derrotar o governo Bolsonaro vai exigir a construção da unidade em outro patamar, o que só se dará com uma maior definição da tática.

Primeiro, os que defendemos oposição firme e ideológica, com muita mobilização social, precisamos consolidar nossa maioria no PT.

Depois, ampliar a relação do PT com o PSOL, tornando-a orgânica. Na sequencia, atrair o PSB para esse bloco de oposição de verdade.

Dessa forma, será possível trazer o PCdoB “de volta”, acredito eu. E, inclusive, atrair alguns setores de esquerda do PDT, que podem se descolar do cirismo antipetista e neocentrodireitista.

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