Convergência Midiatica

22 de fevereiro de 2017, 14h46

O ato simbólico do Atletiba

Durante seus 53 anos de vida, a TV Globo aparentemente estruturou um modelo de televisão que se baseava em três pontos fundamentais: um padrão de qualidade técnica/artística de suas produções, ampla cobertura no território nacional e detentora dos direitos exclusivos de exibição de produtos não produzidos pela emissora (esportes e filmes). Até hoje esse modelo se sustenta. A TV no Brasil tem resistido bem à convergência midiática e a concorrência com outras plataformas de transmissão de conteúdo. Segundo a Kantar Ibope Media, de janeiro a dezembro de 2016, a TV aberta recebeu R$ 71.616.459 milhões de reais em investimentos, aumento de 2,4% em relação ao ano anterior e 55% do total de R$ 129,9 bilhões de reais. Contudo as mídias chamadas de disruptivas, exatamente por romper o padrão clássico da industria televisiva, estão atacando pontos bastante sensíveis para a TV Globo. Os filmes já não são o carro chefe de nenhuma emissora nacional e o esporte, que anos atrás a emissora conseguiu adquirir quase todas as modalidades para si (tirou o vôlei e o boxe da TV Band e o MMA da RedeTV!) começa a enfrentar um adversário de peso: o Youtube.

Contudo, outro ponto aliado da emissora, mas que não depende diretamente de sua capacidade de gestão, são as políticas de comunicação. A convergência dos meios é maior em outros países não apenas por que a infraestrutura de internet deles é melhor do que a nossa. O que ocorre é que naqueles países há uma série de leis que permitem uma competição mais justa e equânime entre os diversos players. Aqui, ainda não. Quando o Netflix começa a incomodar o modelo de TV, o governo incide impostos sobre a empresa estrangeira. Quando times de futebol não entram em acordo financeiro e decidem pela transmissão via internet, o jogo é proibido de acontecer.

A TV Globo, no seu programa esportivo “Globo Esporte” do dia 20/02, informou por meio do apresentador do programa que não possui os direitos de transmissão do jogo e nada tem a ver com a não realização da partida. A justificativa para o jogo não se realizar é que os profissionais responsáveis pela transmissão não fizeram o credenciamento junto a Federação Paranaense de Futebol. Em nota oficial a federação diz que:

a Federação Paranaense de Futebol não possui nenhuma responsabilidade pelo cancelamento da partida. A não realização do jogo ocorreu por culpa exclusiva dos Clubes, que desobedeceram a ordem do árbitro de retirar profissionais não-credenciados do gramado onde se realizaria a partida.

Muito será discutido ainda de quem é a culpa, mas uma coisa é certa; ficou claro que o público entendeu o significado simbólico do ato dos jogadores no centro do campo. Não houve quebra quebra, pelo contrário, as duas torcidas aplaudiram os times. Pela primeira vez na estreita relação da TV Globo com os times de futebol, um jogo não foi realizado por haver um outro meio de transmissão ao vivo. Pode ser que tudo isso seja um modo de pressão para que a TV Globo volte a negociar com os clubes e aumente a cota dos direitos de transmissão ou pode ser também que estamos entrando em uma nova fase. Naqueles em que os sistemas que sustentam todos os grandes impérios (nações ou empresas) começam a ruir.