06 de abril de 2018, 12h01

O caminhar de cada tempo

Por um momento, eu sinto vontade de parar. De parar de caminhar e lutar. A sensação de que estamos sempre correndo para voltar ao mesmo lugar me angustia

Chego em casa e meu filho me espera na porta, com olhar ansioso:
“Mãe, o Moro mandou prender o Lula”.

O tom da fala transpirava perplexidade, inquietação e receio.
Ele olha para mim, como se me pedisse uma resposta sobre o que virá.
Vejo os olhos do garoto de 18 anos diante do seu futuro, em um país que parece se desmanchar.
Engulo em seco e quase peço desculpas pelo que minha geração não foi capaz de fazer ou assegurar.

Sentamos juntos para acompanhar as notícias.
E juntos dividimos a indignação com a cobertura tendenciosa da grande mídia, nos exultamos com as imagens da resistência, falamos de passado, comentamos o presente.
Ele corre ao computador para pesquisar notícias, vasculha os sites de notícias internacionais, levanta inquieto, traduz empolgado a matéria do NYTimes que a Globo ocultou e que fala da parcialidade do julgamento.

E aí lembro que meu filho, anos atrás, não gostava de política.
A primeira vez que observei seu interesse foi quando da odiosa votação sobre redução da maioridade penal.
Sua politização já nasceu carregada de indignação diante do cinismo parlamentar.

No dia do seu aniversário, perguntei quais eram seus planos para a maioridade.
Ele respondeu, sem hesitar: “fazer o titulo de eleitor”.
O presente de aniversário era a possibilidade de participar da decisão sobre os destinos do país.

Este também foi o meu presente dos 18 anos, para votar na primeira eleição para presidente, em 1989.
Eu havia participado dos comícios pelas eleições diretas. Fui com meus pais.
Antes disto, tinha acompanhado minha mãe nas primeiras greves dos professores(as), em plena ditadura.

Minha filha mais velha votou aos 16 e o fez com entusiasmo.
Em junho de 2013, experimentou a excitação de caminhar nas ruas ao lado dos colegas e desenhar as reivindicações, desejos e expectativas para o futuro.
Do entusiasmo, seguiu-se a decepção com a Lei Antiterrorismo.
Ainda assim, não esmoreceu e participou da passeata das mulheres contra Cunha.
Tempos depois, passou a noite na ocupação do Minc.

Meu pai, lá atrás, participou da campanha pela legalidade, em 1961.
E o tempo cilíndrico parece que está sempre a nos trazer novas e velhas marchas.

Por um momento, eu sinto vontade de parar. De parar de caminhar e lutar. A sensação de que estamos sempre correndo para voltar ao mesmo lugar me angustia.

É quando minha filha mais nova entra na sala, sem entender muito o que está acontecendo, e me diz:
“Mãe, eu acho melhor não ir para escola, amanhã. Eu estou com um pouco de medo desta confusão”.

E aí eu lembro do porquê precisamos caminhar e seguir.
É para que meus filhos e os filhos de todos nós não tenham medo do futuro.

Sigamos, então.