10 de setembro de 2018, 16h49

O canto de Andrea dos Santos em “Aindê – Cantos de Caminhos”

“Aindê – Cantos de Caminhos” traz seis canções, todas de sua autoria, sendo quatro em parceria com André Abujamra, que também é o produtor do álbum

Capa de “Aindê – Cantos de Caminhos”. Foto: Divulgação

Andrea dos Santos é daquelas artistas com presença cênica tamanha que, quando vamos ao seu disco, há sempre o temor de que não corresponda. Qual nada. A cantora, compositora e fundadora da lendária banda brasiliense, Casa de Farinha, se lançou em 2015 à carreira solo e, de lá pra cá, tudo o que tem gravado é digno da sua majestade no palco.

Conforme o seu próprio material conta, ela é filha de pai pernambucano, do sertão de Xucuru, e mãe capixaba do litoral. Por conta de tantos caminhos, acabou se apaixonando pela cultura popular e tradicional brasileira, visitou aldeias, vilarejos e festas populares em vários estados do país.

O resultado é um som vigoroso, brasileiro, contemporâneo, moderno e repleto de surpresas e sensações de pertencimento, reconhecimento e autoconhecimento. Sua nova aventura é um EP que atende pelo nome de “Aindê – Cantos de Caminhos” e traz seis canções, todas de sua autoria, sendo quatro em parceria com André Abujamra, que também é o produtor do álbum.

Andrea dos Santos. Foto: Facebook

Abujamra acerta duas vezes na maneira como “vestiu” a música e a voz de Andrea. A primeira delas é em preservar tudo o que a cantora já traz em si. Consegue uma tradução perfeita de sua música. A segunda, e mais importante, é conseguir – e isso também veio de certa forma com a cantora – unir ancestralidade e modernidade, tambores e sons processados, simplicidade e arrojo.

As canções de Andrea são bonitas, claras, diretas. A sua voz é forte, afinada, bonita. Os sons envolvem o ouvinte logo de cara. “Canto I”, baseada em refrão de domínio público, traz o canto de Andrea multiplicado em diversas vozes e o tambor do Ogan. Um canto de anunciação.

Andrea dos Santos. Foto: Facebook

Logo em seguida, em um dos momentos mais significativos e belos do álbum, a canção “Marejô” dá o tom da sua sonoridade. Um pequeno canto em duas partes ganha, à medida em que se repete, contracantos de um coral infantil. O instrumental, com efeitos, tambores e teclado, tem frases de saxofone e uma rica e inesperada linha de contrabaixo. Andréia domina a condução quase como um canto de trabalho.

Logo a seguir, a canção título “Aindê”, outra em parceria com Abujamra, ganha a mesma expressão e formação instrumental da anterior. A melodia, quase um refrão sobre uma bela letra, provoca a sensação de movimento circular. Mais uma vez a cantora salta à frente de tudo sem deixar pra trás a noção do todo.

Andrea dos Santos. Foto: Facebook

“Hora Certa” é a mais contemporânea de todas. Quase destoante, a levada caribenha brinca com a passagem do tempo e se repete em versos até desembocar em um refrão ponteado por guitarras. Excelente canção.

O giro de Andréia persiste e parece ir parar no Pará, em “Persiste”: “O tempo do amor é curto, mas é o mais longo que existe”. O parceiro e produtor André Abujamra participa na faixa que mais carrega nas suas cores, ou seja, que tem mais a sua cara.

Curtinho, o disco encerra com a reflexiva “Canto Lxi – Lamba”, onde apenas voz e piano apresentam melodia e letra. Também baseada em domínio público, a bela parceria com Abujamra conecta todos os pontos e faz a gente querer voltar pro começo.

“Aindê – Cantos de Caminhos” é impecável do começo ao fim.