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16 de Março de 2014, 10h41

O casamento da paranóia com a hipocrisia: por que Lobão quer censurar o CQC

Lobão mostrou sua verdadeira faceta autoritária ao tentar proibir um programa de TV de colocar no ar uma pegadinha que lhe fizeram Por Kiko Nogueira, do Diário do Centro do Mundo. Foto: Bruna Manso / Focka Lobão é um campeão da liberdade de expressão. É uma causa que ele defende com ardor. Denuncia abusos na Venezuela, […]

Lobão mostrou sua verdadeira faceta autoritária ao tentar proibir um programa de TV de colocar no ar uma pegadinha que lhe fizeram

Por Kiko Nogueira, do Diário do Centro do Mundo. Foto: Bruna Manso / Focka

Lobão é um campeão da liberdade de expressão. É uma causa que ele defende com ardor. Denuncia abusos na Venezuela, na Ucrânia e, principalmente, claro, no Brasil, onde a escalada do “bolivarianismo” o preocupa sobremaneira. Defendeu o colega Danilo Gentili em todos os casos em que o ex-comediante foi processado. Ele tem certeza de que já vivemos numa ditadura.

Não perdoa os inimigos. De Dilma (“inapta” e de “uma estupidez galopante”) a Lula, de Pablo Capilé a Caetano e Roberto Carlos (uma “múmia”) — todos os que fazem parte do universo esquerdopata apanham. Grita contra a censura governista, arma um circo quando sua página nas redes sociais — ou a de seus aliados, como Olavo de Carvalho   — saem do ar. Não interessa o motivo real, há sempre uma conspiração comunista por trás, mesmo que isso ocorra com contas de esquerda também.

Um democrata, enfim.

Quer dizer, isso é o que os inocentes e os não tão inocentes que acreditam nele acham.

Lobão mostrou sua verdadeira faceta autoritária ao tentar proibir um programa de TV de colocar no ar uma pegadinha que lhe fizeram. O advogado Alessandro de Oliveira Amadeu, que o representa, enviou uma notificação para a Bandeirantes e a produtora Eyeworks. “O Sr. João Luiz Woerdenbag Filho (Lobão) não autoriza a exibição de sua imagem e voz, em especial, no programa ‘CQC’ e qualquer outro”, diz o documento.

O que irritou o democrata: num novo quadro, chamado Torcida Vip, a plateia canta um hino de futebol adequado ao convidado. No caso de Lobão, a música dizia assim: “Pó, pó, pó, pó, pó, pó, pó, pó / Simpatizava com Lula-la / Agora caga pra geral / Tem a língua afiada/ Mas afinou pro Mano Brown”.

Lobão teria surtado, xingou o repórter e tentou tirar o microfone dele. Ficou especialmente irritado com o trecho que menciona Mano Brown (no ano passado, o rapper convocou Lobão para uma conversa “de homem”; este, sabiamente, refugou). Lobão disse aos tais torcedores: “Mano Brown é o caralho”.

A Band declarou que vai manter a atração. “Eu não me dirigi a ninguém. Isso é uma cilada criminosa”, disse ele num de seus hang outs. “Tem uma rede inteira querendo pegar você!” Alguém fez uma definição precisa de Lobão: “Um esquerdista infiltrado na direita para desmoralizar a direita”.

Num lapso freudiano, ele mesmo repete essa descrição, ridicularizando-a. No universo paranóico e hipócrita de Lobão, liberdade de expressão é um conceito relativo e assassinato de reputações vale se a vítima estiver do outro lado. Se não, é uma cilada, uma calúnia e para isso servem os advogados.