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26 de junho de 2014, 15h32

O caso da médica assassinada no Cariri: homem que mata mulher tem problema mental?

Por Jarid Arraes Ontem o Questão de Gênero noticiou o feminicídio da médica Elizabeth Bernardo, assassinada por seu ex-companheiro que não se conformava com o término do relacionamento. No entanto, como acontece em todos os casos em que uma mulher é agredida por um homem, muitas especulações a respeito do fato começaram a surgir: Onofre Ribeiro, o assassino, tinha […]

Por Jarid Arraes

Ontem o Questão de Gênero noticiou o feminicídio da médica Elizabeth Bernardo, assassinada por seu ex-companheiro que não se conformava com o término do relacionamento. No entanto, como acontece em todos os casos em que uma mulher é agredida por um homem, muitas especulações a respeito do fato começaram a surgir: Onofre Ribeiro, o assassino, tinha problemas mentais? O que leva uma pessoa a cometer um crime como esse se não uma suposta anormalidade mental? Como avaliar a saúde mental de homens que matam as mulheres que diziam amar?

Para nos ajudar a compreender essas questões, a psicóloga e professora universitária Leda Mendes Pinheiro escreveu sobre tudo isso com base em suas perspectivas profissionais e políticas; para ela, que conhecia Onofre e desenvolve trabalhos sem estigmas junto a indivíduos “com problemas mentais”, a discussão precisa ir além do senso comum. Fique com o texto abaixo:

“Ontem à noite, um amigo veio falar-me sobre Onofre, sensibilizado com o acontecido, lembrou-me que seu pai morreu quando tinha dois anos e ele foi criado pela mãe e duas irmãs. As minhas lembranças sobre ele não são tão recentes, eu estava na faculdade ainda e, vez por outra, ele aparecia no bar que frequentávamos. Amigo de amigos em comum, Onofre não era um sujeito ruim, andava sorridente, bem humorado, e segundo a lembrança de nosso amigo em comum, fazia as pessoas perderem um pouco a paciência com seu jeito meio “bobo”. Agressivo não era. Ele conduzia bem as relações de trabalho, conseguiu algum patrimônio e sempre foi considerado como “trabalhador”. Mas “normal, normal”, nunca foi. Não há informações, em sua vida adulta, de acompanhamento psicoterapêutico ou psiquiátrico. O fato é que, mesmo com seu comportamento um tanto excêntrico e pueril, Onofre conduzia suas relações sociais e financeiras.

Há dois dias, ele ateou fogo ao carro e casa de sua ex-namorada, matou-a e cometeu suicídio em seguida. As manchetes informam que uma médica foi assassinada pelo ex-companheiro, a apresentam por sua função social, o que faz com que a relação entre os dois até soe dissonante e dê ênfase a qualquer problema que ele tivesse. Ela se chamava Elizabeth, era mãe, professora, sobretudo mulher, e se apaixonou.  Após o trágico ocorrido, pessoas sensibilizaram-se com ele, afirmou-se que ele nunca foi um sujeito “normal” e que sua companheira sabia disso. “Como então ela, com a posição social que tinha, se envolveu com um cara assim?” – a pergunta reverbera. Ela, mãe de um rapaz de dezoito anos e uma menina de dez, médica, independente e que, segundo relatos de pessoas bem próximas, deve ter-se constrangido socialmente algumas vezes por causa do homem por quem se apaixonou, certamente enfrentou muito por esse amor. Seara difícil essa, ou preconceituoso pensar que ela deveria amar alguém do “ciclo social” dela…

Eles se apaixonaram, e sei que quando falava sobre ela, havia amor e carinho. Ela se apaixonou por Onofre, mesmo não sendo ele o exemplo padrão de cidadão.

Então, vamos lá tentar resolver duas questões sobre esse caso.

A primeira é que questionar como ela, médica, madura e independente, pôde se apaixonar por ele, o que já é, de alguma forma, colocar a culpa na mulher. Ela esteve ao lado dele e o assumiu enquanto companheiro porquanto lhe foi possível e, como os amigos relatam, enfrentou os julgamentos sociais em torno disso. Então, ela não teve culpa alguma, pelo contrário. E tinha todo o direito do mundo de acabar uma relação que não estava mais lhe fazendo bem! Então, nem é culpa dela ter-se apaixonado, nem era obrigação dela permanecer numa relação que, de alguma forma, para ela já não fazia bem. O amor acaba também!

“Ela poderia ter procurado tratamento pra ele” – não é uma obrigação da mulher assumir a responsabilidade pelos cuidados e saúde mental do seu companheiro, principalmente quando ele tinha condições de ser ativo nisso e se cuidar.

Entramos no segundo ponto, a sanidade e a possível culpabilidade desse homem. Suponhamos que Onofre seja psicótico, o que não significa que fosse esquizofrênico ou vivesse em surto (talvez fosse preciso aqui, discutir um pouco melhor para os leigos o que a psicose é, mas não intenciono um artigo de caráter cientifico). Primeiro, vamos diferenciar psicose e loucura de periculosidade. Psicóticos não são periculosos. Psicóticos não são periculosos, repito! Nossos políticos e a polícia (salvo exceções) são bem mais periculosos que todos os psicóticos com os quais já convivi. Não afirmo aqui que, em situação de surto não possa haver uma agressão, no entanto, basta abrir o jornal, ver o noticiário na TV ou participar dos eventos desse mundo para saber que a grandíssima maioria dos crimes cometidos, não só contra mulheres, não são cometidos por psicóticos. Psicóticos são pessoas, tão pacíficas quanto qualquer um de nós, mas que respondem às relações de convivência e de poder de maneira menos articulada com os jogos sociais. Segundo, confirmem comigo que violência contra a mulher é praticada por homens que tratam suas companheiras como posses e objetos e que isso sim é doente, tirar da mulher a liberdade sobre si mesma é a real doença!

Desse modo, pode-se concluir que não estamos diante de uma doença exclusivamente individual, de per se, isto é, com origem no ser humano de forma alheia ao ambiente em que está inserido. Logo, a violência contra a mulher é sim uma mazela social que, de um modo ou de outro, forma e deforma os indivíduos e as relações interpessoais, trazendo-lhes violência física e moral.

Acredito que Onofre tenha se desorganizado diante do fim, acredito que tenha sido para ele um duro golpe perder a mulher amada e que, talvez uma ajuda profissional lhe caísse bem, como cairia bem para qualquer um de nós. Por que, eu não conheço sequer um ser vivente que, depois de um fora, não sofra, pense que o mundo acabou e que será difícil recomeçar!

O fato é que, mesmo havendo um histórico de “não normalidade” na vida de Onofre, isso não justifica, em hipótese alguma, o que aconteceu. “Ela sabia dos riscos” – mito. Nenhum de nós sabe. E os crimes passionais, em sua maioria cometidos contra mulheres, são o resultado de uma cultura machista, de uma cultura que responsabiliza a mulher e retira dela o direito de acabar uma relação e lhe imputa culpa e responsabilidade por amar alguém que, diante do fim, tratando-a como posse, acabe, literalmente com sua vida.

Entendo a sensibilidade dos amigos com Onofre e surpresa com o ocorrido, mas, não esqueçamos, em hipótese alguma, que Elizabeth é a grande vítima dessa história toda. Elizabeth e todas as mulheres vítimas desse massacre cultural!”

(Foto de capa: Gabriela Titon)