13 de novembro de 2018, 10h50

O caso do paciente das coxas de vidro: haverá cura para o ódio ao PT?

Quando perceberem que nada tinha que ver com o combate à corrupção ou com a moralidade, mas em intensificar a política de desmonte do Estado e do serviço público, talvez mostrem reação

O psiquiatra Philippe Pinel (1745-1826) retratado por Tony Robert Fleury (1837–1912). Foto: Reprodução

Por Raphael Silva Fagundes*

Phillipe Pinel, um dos nomes mais famosos da medicina e, principalmente, da psiquiatria, conta que um dos seus pacientes vivia sempre sentado porque estava convencido de ter coxas de vidro. Mas esbarrado por uma criada, “ele se pôs numa raiva violenta, a ponto de se levantar e correr atrás da criada para bater nela. Quando voltou a si, ficou muito surpreso de conseguir se sustentar, e viu-se curado”.

Pinel acreditava que o paciente afetado por uma profunda emoção poderia ser curado de uma melancolia, ou de outros transtornos mentais.

Muitos brasileiros parecem com esse paciente das coxas de vidro. Odeiam o PT de tal modo que são capazes de cometer atrocidades. Não pensam em mais nada, só em odiar o PT e, quando essa doença se manifesta de forma aguda, odeia-se até mesmo os petistas.

Contudo, somente em um futuro próximo, quando tiverem seus direitos violados, vir-se-ão curados. Somente quando descobrirem o real motivo da candidatura de Bolsonaro por trás da imagem fabricada e financiada por empresários, é que acordarão.

Alguns, talvez, se sentirão reabilitados depois da vontade animal de bater na empregada. A raiva, desencadeada pelo arrependimento, poderá desenvolver a cura que só será administrada sabiamente através de doses de solidariedade de classe.

Quando perceberem que nada tinha que ver com o combate à corrupção ou com a moralidade, mas em intensificar a política de desmonte do Estado e do serviço público, talvez mostrem reação. Isso aconteceu diversas vezes na história do país, e desta vez não será diferente.

E o mais interessante é que quando as medidas reacionárias forem anunciadas sem toda aquela retórica de campanha, aquele aparato ora agressivo, ora arrogante, ora idiota, o povo vai enxergar através do véu que cobre a verdadeira face dos interesses capitalistas.

O sintoma do paciente

Tudo passou a ser justificado pelo ódio ao PT. Tornou-se uma fascinação alucinógena. Nenhuma outra explicação, seja ela econômica, social, geopolítica, enfim, nada consegue tirar da cabeça da maior parte da população o ódio que se desenvolveu em relação ao PT. O principal sintoma é fechar os olhos e a mente para tudo e só ouvir o líder que mais se identifica com esse ódio.

Mas, também, esse rancor patológico causa uma espécie de infantilização no indivíduo que, mesmo sendo um advogado ou um professor, reproduz memes, fakenews e piadinhas que mais parecem ser criadas por adolescentes. Só que não foi a ignorância ou a inocência de um adolescente que criou toda essa farsa, e sim a astúcia de empresários. Empresários que vão querer um retorno depois do investimento aplicado.

O paciente busca encaixar tudo que ouve e vê na sua teoria: o PT é o grande vilão. Para ele não é a teoria que deve se dobrar aos fatos, mas os fatos à teoria. Tanto que o partido do seu candidato foi o mais fiel a Temer e tem, também, diversos integrantes investigados. Foram políticos como Marun, Maluf, Aécio e Richa que declararam abertamente seu voto nesse candidato.

Entretanto, não se odeia o corrupto, mas sim o PT. E tudo que é corrupto, mesmo que não tenha relação alguma com o Partido dos Trabalhadores, torna-se petista. É um regresso ao período medieval, quando tudo que não fosse católico era considerado demoníaco.

Produz-se mentiras, agride-se pessoas nas ruas, contradiz-se os seus princípios morais e religiosos (“a verdade vos libertará?”) para compactuar com esse ódio inventado pela grande mídia e hoje disseminado, compulsivamente, pelas redes sociais. Ninguém imaginava que depois de um imenso desenvolvimento tecnológico, a mentira continuaria a ser a principal arma política. Um brinde a Maquiavel: os fins justificam os meios.

Mas quando despertarem dessa loucura, quando forem finalmente curados, reanimados, os que hoje enxergam para além do ódio ao PT (que não são petistas necessariamente), deverão aceitá-los e não agirem por meio da vingança. Precisaremos de soldados para o exército da libertação. Será o momento em que o gigante adormecido despertará e a verdadeira unidade se estabelecerá. Depois da tempestade vem a bonança, não é mesmo?

Haverá um tempo em que se votará não contra um partido, mas pelo coletivo. Em que os interesses morais defendidos para se criar os filhos não se misturarão aos interesses sociais e econômicos que administram um país. Mas creio, e digo isso com pesar no coração, que não será agora. Até porque as forças que deveriam defender a democracia (a Justiça, o Exército, a imprensa etc.) reuniram-se em prol de um projeto que visa a maior rigidez de uma política econômica que prioriza o fortalecimento do mercado financeiro em detrimento da melhoria das condições sociais.

A história é marcada por idas e vindas, mas não há como evitar o progresso social rumo à liberdade. A não ser que seja fundada uma nova espécie de civilização ocidental, o que, mesmo com o retorno da Idade das Trevas, será muito difícil.

* Doutor em História Política pela UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

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