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14 de Fevereiro de 2018, 16h34

O centenário de Jacob do Bandolim, um dos maiores da nossa música

Poucos, como Jacob, conseguiram tanto prestígio e reconhecimento fazendo música instrumental

Jacob Pick Bittencourt, mais conhecido como Jacob do Bandolim, completaria cem anos nesta quarta-feira de cinzas (14). Ele foi um dos maiores músicos do seu tempo. Instrumentista magistral, foi também um grande compositor. Esta, inclusive, é uma das suas facetas que é, por vezes, subestimada diante do seu talento infindo no seu instrumento.

Jacob foi o autor de clássicos como “Vibrações”, “Doce de Coco”, “Noites Cariocas, “Assanhado” e “Receita de Samba”. Estes cinco choros bastariam para justificar uma vida. No entanto, o controverso Jacob fez mais, muitos mais.

Suas composições estão entre algumas das melodias mais executadas nas rodas de choro de todo o Brasil. Elas trazem estruturas harmônicas e construções melódicas que soam, ainda hoje, tantos anos depois, como extremamente modernas e elaboradas.

Tanto se atribui ao jazz e aos impressionistas europeus a formação estrutural da bossa nova, mas se esquecem que por aqui, nas ruas do Rio de Janeiro, tudo aquilo já era gestado com naturalidade, por grandes instrumentistas e compositores, entre eles, Jacob e Pixinguinha.

O próprio Jacob, no antológico show de Elizeth Cardoso, em 1968, ao lado do seu grupo, o também lendário Época de Ouro, e do Zimbo Trio, fez questão de executar o clássico seminal da bossa “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, ao lado do famoso trio. O que se ouvia naquele momento, eternizado em disco, ficou para a posteridade como um encontro de eras. Através do talento de Elizeth, dois mundos se reencontravam para a atestar o quanto um devia ao outro, o tanto um vinha do outro.

Tanto a bossa nova quanto o choro passam por fenômenos parecidos. Vez ou outra são reinventados e voltam a tocar intensamente. A diferença, e pode-se afirmar com toda a certeza, é que enquanto a bossa só tem um Tom Jobim, o choro tem vários deles, entre os quais e sem sombra de dúvidas, está o Jacob.

Seus discos – muitos deles estão na plataforma por demanda Spotify – são lindos e repletos de variações. Muitos com o pequeno regional, outros com cordas. Desde 1947 até morrer, em agosto de 1969, gravou dezenas deles em vários formatos. Mesmo depois de sua morte, continuou sendo homenageado, tanto em relançamentos quanto álbuns com artistas recuperando e relendo a sua obra.

Jacob era tido como uma pessoa chata e geniosa, de temperamento forte e difícil. Competitivo, detestava Waldir Azevedo e, ao responder sobre os três maiores gênios do choro respondia sem pestanejar: “Pixinguinha, Pixinguinha e Pixinguinha”. E foi justamente após uma visita ao mestre que, ao chegar em casa, teve um segundo infarto, desta vez fulminante.

O legado deixado por Jacob permeia a nossa música desde então. A sua influência sobre músicos excelentes como Pepeu Gomes, Armandinho e, mais atualmente, Hamilton de Holanda é inegável. Tradicionalista, detestaria o que os três andaram fazendo com a sua música, desde executá-la com guitarras elétricas até improvisos extensos em um bandolim de dez cordas.

O fato é que, paradoxalmente, apesar de ser um grande tradicionalista, a sua música foi, e permanece até hoje, extremamente revolucionária. Jacob tem tanta importância para a nossa música quanto os maiores. Poucos, muito poucos, na música brasileira, conseguiram tanto prestígio e reconhecimento fazendo música instrumental.

Jacob é um deles.