João Vicente Goulart

15 de abril de 2019, 06h00

O confessionário das trevas no Brasil de Bolsonaro

Em sua coluna na Fórum, João Vicente Goulart conta histórias de torturadores da ditadura militar que foram homenageados em sessão de cinema na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

“1964, entre armas e livros”, o filme pró-ditadura, nos trouxe realmente em sua apresentação, entre saudosistas do arbítrio e deputados em São Paulo, a volta de um Brasil das trevas, das sombras, do ódio e da mais profunda dor da consciência coletiva de uma sociedade, que treme na escuridão perversa de seu passado ditatorial. Como sonâmbula, em busca de luz e verdade, que a atual administração de governo teima em querer soterrar a nossa história, nossas lutas, nossos seres queridos que deram a vida em holocausto. Quer ressuscitar novamente aqueles agentes da repressão que não só feriram corpos, feriram a Constituição, a ética e a moral humana, e em nome de nosso Brasil, praticaram os horrendos crimes de “lesa-humanidade”.

Hediondos, cruéis, traidores, sanguinários, mas antes de tudo, homens covardes. Sim, covardes da pior espécie, daqueles que são capazes de negociar suas mães, e ainda por cima entregá-las.

“Ustra vive! Fleury vive!” foram os gritos de saudação e exaltação aos maiores torturadores do Brasil. Brilhante Ustra, herói do presidente Bolsonaro, que ao emitir seu voto no impeachment da presidenta Dilma, o fez com orgulho de um militar brasileiro, que fora dado de baixa de nosso exército, por questões comportamentais, não muito éticas com a corporação.

Mas o mais incrível ainda foi a presença do Cabo Anselmo como grande líder deste grupo de direita ao lado do sobrinho neto de Castelo Branco e Fleury Filho.

Vamos, então, aos homens que mancharam a história brasileira que são atualmente os heróis do bolsonarismo, pois vale a pena conhecer passagens de algumas de suas vítimas, que estariam hoje diante de nossos convívios.

O Cabo Anselmo foi o maior traidor da causa revolucionária de seus companheiros, denunciando a organização a qual pertencia, e ainda entregou à morte sua então namorada Soledad Barret. Quem a viu descreve assim seu estado de morte.

Soledad estava grávida de quatro meses, e mesmo assim não foi poupada. Foi denunciada, presa e morta na tortura. Soledad foi encontrada nua, dentro de um barril numa poça de sangue, tendo aos pés o feto de 4 meses, expelido provavelmente durante as sessões de torturas. Este foi um dos mais hediondos crimes cometidos nos anos de chumbo da Ditadura Militar, no Brasil. Soledad recebeu quatro tiros na cabeça e apresentava marcas de algemas nos pulsos e equimoses no olho direito.

Mércia de Albuquerque Ferreira, advogada de presos políticos na época, conseguiu ter acesso aos corpos removidos para o necrotério. Sobre Soledad ela declarou, em depoimento formal:

“Ela estava com os olhos muito abertos, com expressão muito grande de terror. A boca estava entreaberta, e o que mais me impressionou foi o sangue coagulado em grande quantidade. Eu tenho a impressão de que ela foi morta, ficou algum tempo deitada e depois a trouxeram. O sangue, quando coagulou, ficou preso nas pernas, porque era uma quantidade grande. E o feto estava lá nos pés dela, não posso saber como foi parar ali ou se foi ali mesmo no necrotério que ele caiu, que ele nasceu, naquele horror. Cabe salientar que o filho que Soledad estava a esperar era de José Anselmo dos Santos ou ‘Cabo Anselmo’ como era conhecido nos meios militares.”*

O delegado Fleury foi o maior operador do Dops dos militares brasileiros, um assassino e torturador da ditadura brasileira, estendendo-se inclusive na operação Condor que enlaçou vários países latino-americanos na repressão, participando ativamente na captura, sequestro e morte de ativistas brasileiros, uruguaios, argentinos e chilenos. Esteve no Uruguai no ano 1976, e junto com o serviço secreto uruguaio, segundo declarações do agente Mario Neira Barreiro à Polícia Federal brasileira, ordenou por orientação dos militares brasileiros a eliminação de meu pai, o presidente João Goulart, exilado naquele então na América Latina.

E o herói do presidente?

Segundo o projeto Brasil Nunca Mais, durante o tempo em que Brilhante Ustra esteve à frente do Doi-Codi, pelo menos 500 casos de tortura foram cometidos nas dependências do órgão. O próprio Ustra é acusado pelo desaparecimento e morte de ao menos 60 pessoas.

Esses são heróis da ditadura, os heróis deste governo, que infantilmente pretende mudar a história nacional através de uma “nova educação”, onde nossos jovens não pensem em política e o holocausto seja passível de perdão. Que o diga o presidente de Israel, Reuven Rivlin, que contestou energicamente esse pronunciamento pró-esquecimento de nosso presidente, cultuador de torturadores e ditadores sanguinários.

É nesse altar, nesse confessionário, que esses semideuses de nossos dirigentes os orientam a beberem água do Apocalipse.

Não existe perdão aos traidores, aos violadores da Constituição nacional. Era bom, para quem idolatra sanguinários, a leitura de “Os limites do perdão”.

Simon Wiesenthal agradece.

*Trecho retirado do relatório da CV