ASSISTA
22 de junho de 2012, 15h25

O encontro de velhas e novas lutas

Evento em Porto Alegre reúne ativistas do mundo inteiro para debater a questão ambiental e os novos movimentos de ocupação, que questionam a democracia, entre outras reivindicações presentes desde o primeiro FSM

Evento em Porto Alegre reúne ativistas do mundo inteiro para debater a questão ambiental e os novos movimentos de ocupação, que questionam a democracia, entre outras reivindicações presentes desde o primeiro FSM

Por Adriana Delorenzo 

A pauta ambiental, a crise europeia, o novo ativismo hacker e as históricas lutas dos trabalhadores e das mulheres permearam os debates do Fórum Social Temático, que aconteceu em Porto Alegre e em mais quatro cidades da região metropolitana (Gravataí, Canoas, São Leopoldo e Novo Hamburgo), de 24 a 29 de janeiro. Apesar de essa ter sido uma edição menor, 670 atividades foram realizadas, todas de forma autogestionária e descentralizada. Segundo o Comitê Organizador Local do Fórum, aproximadamente 40 mil pessoas participaram do evento, no qual a diversidade mais uma vez se fez presente.

Os maiores quóruns ficaram por conta das atividades com personalidades políticas conhecidas, como Marina Silva e Tarso Genro, e intelectuais carimbados de edições anteriores do Fórum, como Ignácio Ramonet, Leonardo Boff e Boaventura de Souza Santos. Já o evento paralelo Conexões Globais 2.0 trouxe um ar de renovação à 12ª edição do Fórum, que mantém o antigo e atual desafio de encontrar alternativas ao modelo de desenvolvimento que está sendo discutido ao mesmo tempo em Davos, na Suíça.

Com o Brasil crescendo, enquanto a Europa e EUA estão em crise, o tema “desenvolvimento” chegou ao país, e ao FSM. Em Porto Alegre, a palavra vinha sempre acompanhada de outro termo, “sustentável”. A questão ambiental parece ter entrado de vez na agenda dos movimentos sociais e governos, até por conta da proximidade da Conferência das Nações Unidas, Rio+20, que será realizada de 20 a 22 de junho no Rio de Janeiro. No FST, a presidenta Dilma Rousseff, em seu discurso no ginásio Gigantinho, também destacou a sustentabilidade, com a defesa de um modelo de desenvolvimento “focado em três dimensões: econômica, social e ambiental”. E se despediu com um chamado aos ativistas: “Conto com o engajamento e mobilização de vocês, tenho certeza que outro mundo é possível, até a Rio+20.”

Mas não foi apenas na programação oficial que a pauta ambiental apareceu. No Gigantinho, cartazes pediam o veto às mudanças no Código Florestal e não faltou quem lembrasse da Usina de Belo Monte. A ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, participava do debate “Direitos Humanos, Justiça, Lutas e Memórias”, um dos promovidos pela Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais (Flacso), quando vieram as vaias, depois de alguns gritos de “Belo Monte, Belo Monte”. A ministra, por sua vez, afirmou que o Brasil é capaz de executar grandes projetos de desenvolvimento com respeito aos direitos humanos. “Se não tiver vaias e aplausos no Fórum Social Mundial, não será Fórum Social Mundial”, disse ela.

Em seguida, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, figura quase onipresente na história do FSM, provocou: “O capitalismo só é verde nas notas do dólar”. Boaventura defendeu a paralisação de Belo Monte. Criticou, ainda, a construção, por uma empresa brasileira, financiada pelo BNDES, da estrada boliviana que cortaria ao meio o Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS). Vale lembrar que Evo Morales interrompeu as obras após protestos dos indígenas que acabaram sofrendo forte repressão policial.

Para quem pensava que o Fórum só atraia “chapas-brancas”, as críticas mostraram que o evento tem muito espaço e muitas pautas para serem discutidas, principalmente em relação ao que parece ser antagônico: desenvolvimento e conservação da natureza com respeito aos povos e culturas tradicionais. Como disse Boaventura, “a esquerda é a única garantia da democracia. Porque a direita não pensa, o sistema pensa por ela”. E alfinetou: “Só que a esquerda também se esquece de pensar”.

No mesmo debate em que surgiram as vaias, a questão das tropas brasileiras no Haiti veio à tona. Aí, sim, Rosário foi aplaudida. Ela defendeu que a missão de caráter militar se transforme imediatamente numa missão de cooperação. Isso foi antes da visita da presidenta àquele país, onde foi anunciado que a estada dos militares vai se estender por cinco anos. Sobre os imigrantes haitianos, mais aplausos: “Os haitianos são bem-vindos ao Brasil.” No debate anterior, que também fez parte do ciclo de debates da Flacso “Direitos Humanos, Justiça e Memória”, o tema se repetiu. “O caso do Haiti é o espelho onde devemos olhar a nossa memória”, afirmou Pablo Gentili, diretor da Flacso. O advogado haitiano Patrice Florivus, que estava na plateia, foi chamado à mesa. Segundo ele, com o dinheiro gasto para manter as tropas, poderiam ser construídas 61 mil casas por ano. Gentili lembrou que este país foi o primeiro do continente a conquistar sua independência e recordou também o nome que os militares deram a uma escola apadrinhada pelas tropas brasileiras: Duque de Caxias.

Movimentos

“As elites são as mais interessadas em que não haja a memória”, afirmou o sociólogo Emir Sader. “É preciso se perguntar onde estava cada um em 1º de abril de 1964.” Sinal de tal desmemória é o fato de grande parte dos nomes dos principais monumentos, vias e avenidas não serem dedicados aos líderes populares. E como todos os Fóruns, as lutas populares não poderiam estar ausentes. Nesse campo, os destaques foram os movimentos de ocupação de praças que pipocaram em várias cidades do mundo, e o violento despejo das 1,6 mil famílias do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP).

Enquanto muitos participantes levantaram a questão Belo Monte, outros protestavam contra o que ocorreu no Pinheirinho. “Pinheirinho é o presente e queremos que não seja o futuro”, disse Sader. Sobrou para a presidenta Dilma, que no evento do Gigantinho viu um grupo de manifestantes com faixas contra a violência em São José dos Campos, cidade governada por um tucano, num estado também com o PSDB no poder há 18 anos. Em reunião fechada com representantes do comitê internacional do Fórum Social Mundial, Dilma classificou a operação de “barbárie”.

Na Assembleia dos Movimentos Sociais, os 1,5 mil ativistas de 30 países reunidos na Usina do Gasômetro aprovaram a realização de um ato no terreno do Pinheirinho, na quinta-feira, 2 de fevereiro, que reuniu cerca de três mil pessoas. Os militantes também rechaçaram outra operação policial, comandada pelo governo do estado de São Paulo e pela prefeitura no centro da capital paulista, na Cracolândia. A assembleia aprovou alguns atos de protesto, além do pró-Pinheirinho. Para o dia 5 de junho, Dia Internacional do Meio Ambiente, os movimentos preparam uma grande mobilização mundial, contra o capitalismo e em defesa da justiça ambiental e social. “Nós temos o desafio de sermos mais criativos na nossa organização e nas nossas formas de luta para poder envolver as amplas massas”, disse João Pedro Stédile, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e da Via Campesina Internacional. “Sem envolver as massas, não teremos força suficiente para enfrentar o poder do capital.”

Ocupar as ruas, conectadas

Cerca de 10 mil pessoas passaram pelo evento Conexões Globais 2.0, que trouxe, além de convidados presenciais, webconferencistas via Skype. Na internet, aproximadamente 100 mil assistiram às 32 horas de transmissão ao vivo dos debates sobre os novos movimentos que estão colocando milhares nas ruas e nas praças pelo mundo. Realizado na Casa de Cultura Mario Quintana, pela Associação Software Livre e as Secretarias de Cultura e de Comunicação e Inclusão Digital do estado do Rio Grande do Sul, o evento debateu desde a internet como um direito humano até como ela pode ser um importante instrumento de ativismo político. Diferente de outras atividades, o Conexões encantou o público por seu formato descontraído e democrático, sem mesas tradicionais de debate com um palco num plano superior ao dos espectadores. Representantes do Occupy Wall Street, do Movimento 15-M da Espanha e ciberativistas do mundo inteiro compartilharam experiências e pensamentos para a construção da democracia 2.0. Em 2011, os movimentos cresceram questionando a democracia representativa e cobrando uma democracia direta.

Como defendeu o ex-ministro – e hacker assumido – Gilberto Gil, no Conexões, a internet é uma ferramenta fundamental para os movimentos sociais. “A internet chegou para bagunçar o coreto”, disse. E foi na internet que, nos dias 18 e 19 de janeiro, foi organizada uma ação em resposta ao pedido de prisão dos fundadores do site de compartilhamento MegaUpload, solicitado pelo FBI. Em seguida, diversos sites foram retirados do ar, como o da Warner Music e o do próprio FBI, Departamento de Justiça norte-americano, entre outros. “Isso é um ataque? Não, é um protesto”, explicou o ciberativista Sérgio Amadeu.

Milhares de ativistas-hackers, articulados pelo grupo Anonymous, se mobilizaram para defender a liberdade na rede. Segundo Amadeu, esse novo tipo de protesto junta a ação da inteligência coletiva dos hackers com o ativismo. “Precisamos trazer os movimentos sociais e sindicais para essa luta”, defendeu. “O software livre é o maior exemplo de ciberativismo.” Como disse Amadeu, a rede é a intermediação desse novo ativismo, que ganhou a força da tecnologia. Para Pablo Capilé, do movimento Fora do Eixo, hoje, o desafio é criar redes das redes, conectando todos os ativistas, ocupando os espaços, multiplicando-os, criando um lastro.

Nesse sentido, o Conexões Globais também discutiu como o Estado pode se transformar num espaço de gestão compartilhada. Conforme explicou o ativista Marcelo Branco, organizador do evento, os dados abertos vão além da transparência, pois permitem que sejam feitos novos cruzamentos a partir desses dados. No painel, que debateu essa questão, os participantes apontaram a necessidade de que os poderes Executivo, Legislativo e, inclusive, o Judiciário disponibilizem os dados abertos para esse cruzamento.

Essas são algumas das lutas travadas na internet, reafirmadas em outro evento paralelo ao FST, realizado também na Casa Mario Quintana: o III Fórum de Mídia Livre. Lá, os ativistas destacaram “a comunicação como papel central nas lutas ao redor do mundo”. A Primavera Árabe, as ocupações e o movimento dos indignados, com seu slogan dos 99% contra 1%, são a prova de que hoje a defesa pelo direito à comunicação e à internet de qualidade não está separada de outros movimentos. O FML aprovou ainda a defesa pelo marco regulatório da comunicação, a neutralidade da rede e o respeito à privacidade dos usuários como direitos garantidos por um marco civil da internet e a reforma da Lei de Direitos Autorais. Tudo isso vai contra os projetos de leis que tramitam nos Estados Unidos, que foram alvo dos ataques de janeiro: o Protect IP Act (PIPA) e Stop Online Piracy Act (SOPA). As propostas, assim como o Projeto de Lei 84, de 1999, do então senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), conhecida como Lei Azeredo ou AI-5 Digital, criminalizam práticas comuns, como o compartilhamento de música.

O Fórum de Mídia Livre também apontou para uma grande mobilização das redes para as ruas. A data escolhida é o dia 12 de maio, um sábado, quando diversos países vão comemorar um ano do Movimento 15-M, que levou milhares à Praça do Sol em Madri, no dia 15 de maio, com a bandeira “Democracia Real Já”. Além disso, os midialivristas saíram de Porto Alegre incumbidos com a tarefa de organizar o II Fórum Mundial de Mídia Livre, que ocorrerá entre os dias 16 e 18 de junho, como parte das atividades da Cúpula dos Povos da Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, evento da sociedade civil paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável.

O FST de 2012 foi só o início de uma agenda intensa para os movimentos sociais do Brasil e do mundo. O calendário continua até 2014, quando o Fórum Social Mundial retornará a Porto Alegre. Um dia após o encerramento do FST, o Comitê Organizador do Fórum aprovou o evento na cidade e sua região metropolitana em todos os anos pares.

Tecnologias sociais rumo à Rio+20

Num dos eventos do FST 2012, promovido pela Fundação Banco do Brasil, foram apresentadas contribuições de entidades civis e movimentos sociais para uma plataforma da Tecnologia Social como estratégia para superar a pobreza. Muitas experiências no Brasil vêm demonstrando que, com o envolvimento da comunidade, soluções simples são capazes de mudar a realidade local. É o caso da construção de cisternas no semiárido brasileiro. Segundo Jorge Streit, presidente da FBB, a tecnologia social tem uma lógica diferente da tecnologia convencional. Esta, segundo ele, busca gerar mercados, enquanto a social envolve a comunidade e cria soluções, como a geração de renda e segurança alimentar. No caso das cisternas, o foco é acabar com o problema da falta de água, que ainda hoje, afeta milhares de famílias.

Nesse sentido, durante o evento a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, assinou um convênio com a fundação para construção de 60 mil cisternas, seguindo o modelo da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA). Tereza afirmou que até 2013, serão construídas 750 mil cisternas na região, seguindo o modelo da ASA, que inclui a mobilização das famílias. De acordo com Tereza, “não é possível discutir a questão ambiental sem o fator humano, sem falar de inclusão social”. E essa abordagem que não separa o ambiental do social, deve ser levada à Rio+20, segundo a ministra. Na opinião de Streit, as tecnologias sociais conseguem isso. “As TS precisam fazer parte das políticas públicas e dos financiamentos bancários”, afirmou.