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12 de Maio de 2018, 13h06

O Estado branco mantém Lula num cativeiro em Curitiba

A campanha para libertação do ex-presidente Lula é tão importante para o país quanto foi a campanha pelas eleições diretas e a convocação da Assembleia Nacional Constituinte

Por Laurez Cerqueira

O cenário político que se descortina para as próximas eleições revela o Brasil mais real do que se pode imaginar.

O Brasil tem a escravidão amarrada no pé como uma bola de ferro. Essa realidade está exposta em Curitiba para o mundo ver.

Lula, o maior líder popular da história do Brasil, condenado sem provas, com base numa acusação desmentida pelos fatos, está num cativeiro em Curitiba, até o momento impedido de ser candidato à Presidência da República.

Líder nas pesquisas eleitorais, é o único nome que une os movimentos sociais e as forças políticas comprometidas com a democracia e com a justiça social.

Magistrados, procuradores e policiais que prepararam o processo e o condenaram são brancos. Aliás, o Estado brasileiro é predominantemente branco. Isso não é uma ironia da história. São raros, juízes, procuradores policiais federais, generais, brigadeiros, almirantes, grandes proprietários e rentistas, negros.

A lógica é  a mesma da elite empresarial e rentista que não se enraizou no Brasil. Mantêm o apartheid social, a ampliação da desigualdade e a concentração da riqueza com mãos de ferro. Não admitem direitos aos de baixo e os tratam com desprezo e punição.

Os algozes do ex-presidente Lula, por exemplo, devem ter estudado nas melhores escolas do país. Desde a infância, certamente tiveram suas roupas lavadas, passadas, refeições preparadas a tempo e a hora por empregados domésticos. Como sempre, negros, indígenas ou descendentes.

O ex-presidente Lula e talvez os empregados domésticos de seus algozes, não tiveram a mesma condição, não conseguiram estudar em escolas regulares. Mas Lula foi agraciado com 32 títulos de Doutor Honoris Causa das mais importantes universidades do mundo e do Brasil.

Tudo isso está exposto no Brasil à luz do dia, mas nem todo mundo vê, ou finge que não vê.

O cinismo tece as togas e cobrem os ombros dos magistrados para o espetáculo judiciário. Os tribunais ainda preservam o punitivismo colonial, os magistrados e suas canetas, e a subordinação das forças policiais e militares a seus mandos.

Policiais e militares, originários historicamente dos reinados e mantidos por eles para defender o patrimônio da Coroa e dos proprietários das terras, das empresas e dos bancos que se estabeleceram aqui, agem no Brasil, salvo raras exceções, como combatentes de inimigos internos, respaldados por “juízes de pelourinho”, autoridades forjadas na cultura colonial do açoite, da degola, do esquartejamento e salgamento de corpos de líderes populares. Sempre foi assim em Pindorama. E com muito ódio de classe. A história tem os fatos emoldurados e pendurados na parede da memória.

Parece que o ex-presidente Lula é visto pelas autoridades como o inimigo interno número um.

Por ter manifestado sentimento nativista e desejo de independência do Brasil, Felipe dos Santos foi preso por militares facínoras, amarrado a uma junta de cavalos bravios e arrastado pelas ruas de Vila Rica, em Minas Gerais, até o corpo partir em pedaços. Logo em seguida,  salgados e pendurados nas árvores da entrada da cidade.

Depois foi a vez de Tiradentes, enforcado, esquartejado, as partes do corpo também salgadas e amarradas em postes de Vila Rica, e a cabeça exposta no paço da cidade.

Zumbi dos Palmares, por se rebelar contra a escravidão, foi degolado com o ódio dos senhores, reinante na época, a cabeça levada ao governador de Pernambuco, Melo de Castro, e exposta no paço da cidade do Recife.

Antônio Conselheiro, Lampião e muitos dos seus seguidores também tiveram as cabeças cortadas e expostas em praças públicas.

Duque de Caxias, a mando do imperador Pedro II, comandou chacinas e mais chacinas de grupos que se rebelaram contra as atrocidades dos colonizadores. Por isso, recebeu o título de “O Pacificador” e é o patrono do Exército Brasileiro.

Assim se comportam as forças armadas e policiais do Brasil ao longo da história, em nome da ordem e do progresso ditadas pelos de cima, mais recentemente pelos Estados Unidos.

As forças armadas continuam a postos, têm até um artigo inscrito na Constituição, o Art. 142, que lhes dão o poder de tutela do Estado na manutenção “da lei e da ordem”.

A violência judiciária, policial-militar está entranhada nos corações e mentes das autoridades inimigas da democracia. Sempre serviram ao senhorio, a proprietários e rentistas, na defesa da ordem deles.

Nos períodos recentes das ditaduras civil-militares torturaram com requinte de crueldade, aniquilaram pessoas, fizeram-nas mortas-vivas, tamanha a violência dos facínoras, nos porões dos cárceres, para manter a ordem ditada pelos de cima e pelos Estados Unidos. Uma dessas pessoas é a presidenta Dilma, eleita legitimamente e deposta por corruptos.

O Brasil não consegue se livrar da sombra do passado, do atraso organizado, da rapinagem empresarial colonialista e se firmar como uma República democrática, livre e soberana. Parece condenado ao desterro, ao insulamento.

Magistrados, policiais e militares repetem o ritual de controle político das tensões sociais do país com ações que beneficiam gerentes de interesses corporativos externos, no sentido de alinhar o Brasil aos vínculos econômico-financeiros das nações centrais, impostos pelas corporações empresariais e seus negócios. Corporações que carreiam lucros para as nações centrais desde tempos idos.

Nos momentos de crises, como o que o mundo atravessa, com efeitos extremamente perversos sobre as economias mais vulneráveis, as nações centrais buscam nas nações periféricas compensações de suas perdas. A conspiração que afastou a presidenta Dilma atende a essa finalidade e ocorreu exatamente no pico dos efeitos da crise financeira internacional.

Desde os tempos coloniais, as nações periféricas contam com categorias nativas, não proprietárias, de gerentes de interesses externos, que vivem a pregar uma ideologia que só serve a eles e à defesa dos negócios.

São tipos que transitam na política, no mercado, por diretorias de grandes corporações e estão sempre participando de governos, principalmente no comando de áreas estratégicas, parasitando recursos públicos, com as grandes corporações de mídia à disposição para formação da opinião pública e no comando da massa.

Não querem pagar impostos. Costumam ser sonegadores contumazes. Dizem-se inimigos do Estado, mas sempre contam com a proteção do Estado para salvar seus negócios.

Não têm compromisso com a democracia, com a cidadania, com as populações desfavorecidas. O negócio deles é negócio.

Bancam golpes, repassam para os trabalhadores os prejuízos decorrentes das crises e defendem com unhas e dentes as margens de lucro de suas empresas.

Para eles, nada de política externa que proporcione autonomia, independência do país.  Nada de falar grosso com as nações centrais

Eles são os mesmos. Agora, mantêm o ex-presidente Lula num cativeiro em Curitiba, a fim de impedi-lo de se candidatar à presidência da República.

A campanha para libertação do ex-presidente Lula é tão importante para o país quanto foi a campanha pelas eleições diretas e a convocação da Assembleia Nacional Constituinte, no final da jornada de lutas pelo restabelecimento da democracia.

Não só por ser a prisão dele uma das maiores injustiças da história do Brasil e o objetivo final do golpe de estado, mas pelo resgate da legalidade, da democracia, do estado democrático de direito, pela soberania nacional, sobretudo pela anulação dos atos do governo ilegítimo por meio de um referendo popular.

O cenário político do Brasil, guardado o devido tempo, tem os  mesmos elementos de séculos idos.

Lula, líder dos de baixo, num cativeiro em Curitiba, na presidência da República um chefe de quadrilha entregando as riquezas, o patrimônio do país, e o aparato judiciário e policial-militar dando respaldo, “em nome da lei e da ordem”.