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05 de abril de 2018, 16h59

O exagerado Cazuza e seu tempo de liberdade

Lembrar Cazuza hoje nos remete a outro momento onde, depois de anos de ditadura, poderíamos nos dar ao luxo de brincar feito crianças

Cazuza. Foto: Divulgação
Cazuza teria feito 60 anos na última quarta-feira (4). Logo ele – e isso sempre é dito a respeito de roqueiros e outros malucos – um ícone de rebeldia, juventude e que tais. Foi, assim como todo bom artista, um reflexo de seu tempo, e este é outro lugar comum inevitável. Minha opinião sobre a sua música era na época, e continua sendo agora, mais ou menos a mesma de seu pai, o produtor musical João Araújo, que o perguntava por que não cantava canções do Milton Nascimento. Cazuza surgiu em um ambiente único, com a ditadura em seus estertores...

Cazuza teria feito 60 anos na última quarta-feira (4). Logo ele – e isso sempre é dito a respeito de roqueiros e outros malucos – um ícone de rebeldia, juventude e que tais. Foi, assim como todo bom artista, um reflexo de seu tempo, e este é outro lugar comum inevitável. Minha opinião sobre a sua música era na época, e continua sendo agora, mais ou menos a mesma de seu pai, o produtor musical João Araújo, que o perguntava por que não cantava canções do Milton Nascimento.

Cazuza surgiu em um ambiente único, com a ditadura em seus estertores e os grandes nomes da nossa música gravando o que seriam os seus últimos grandes discos. Junto com a sua geração de roqueiros, vindos de várias partes do Brasil, sobretudo Rio de Janeiro e Brasília, ocupou o espaço.

De uma hora para a outra, a nossa canção tão rica em harmonias e textos melódicos, passou a falar em quatro acordes, interpretada por garotos que mal sabiam tocar e muito menos cantar, como é o caso do próprio. O que tinham de sobra, era o mesmo que o produtor George Martin percebeu nos Beatles assim que os conheceu. Um charme inconfundível, uma enorme capacidade de sedução.

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E, neste quesito, Cazuza era único. Amado intensamente por todos os homens e mulheres de então, era desbocado, sexy, despudorado. Suas canções falavam de experiências próprias, sexo, drogas, namoros, triângulos, losangos e poliedros amorosos, enfim, do total desbunde dos anos oitenta.

O Brasil, com vinte anos de atraso, por conta de um malfadado regime militar, chegava aos seu flower power. Com uma mistura onde cabiam desde o British pop até o punk do Clash e congêneres, Cazuza e o seu Barão Vermelho eram, enfim, os Rolling Stones de Ipanema.

Ao lado de Frejat, seu mais frequente parceiro, fez rocks memoráveis, divertidos e inesquecíveis. “Pro Dia Nascer Feliz” é um clássico que cabe em qualquer antologia da época. Tinha a verve poética, apesar de não ter tido tempo de aprofundar e esmerar o talento.

A versão de Caetano Veloso para “Todo o Amor que Houver Nessa Vida” convence a qualquer um assim como fez com o seu pai, que ao ouvir a versão duvidou que a composição fosse do filho.

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“O Tempo não Para” virou uma espécie de hino daqueles anos:

“Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não para”

No momento em que decolava como autor, foi contaminado pelo vírus da AIDS, o pesadelo de seu tempo. À sua revelia, quase o transformaram em um mártir, tudo o que menos precisava e queria. Foi uma das grandes vítimas do fascismo da revista Veja, com uma capa horrorosa que o colocava um tanto como vítima e outro tanto como oportunista, “agonizando em praça pública”.

A capa da Veja com Cazuza

Cazuza morreu em 7 de julho de 1990, com apenas 31 anos. Deixou uma discografia um tanto irregular quanto promissora. Aos poucos, assim como vários colegas de sua geração, sofisticou a sua música, ameaçando uma subida de patamar que acabou não tendo tempo de cumprir.

Não por isso, deixou de ser um dos grandes de seu tempo, um interlocutor de um Brasil em transição, finalmente liberto e, talvez até por isso mesmo, derramado em excessos.

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Lembrar Cazuza hoje nos remete a outro momento, cheio de esperanças. Um tempo e local onde, finalmente, poderíamos nos dar ao luxo de brincar feito crianças.

 

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