18 de novembro de 2018, 14h18

O fantástico mundo da classe média: ensaio sobre um conflito de marionetes

Os economicamente corretos são aqueles que compram tudo que tem: educação, saúde etc.. E, muitos, iludidos pela ideia de que o público está sendo deteriorado pelo Estado corrupto, clamam pela privatização.

Pixabay

Por Raphael Silva Fagundes

Em um texto anterior, esbocei os conceitos de economicamente incorreto e economicamente correto para pensar sobre o conflito que conflagra a sociedade atual. Cheguei a conclusão de que a principal farsa que esconde esse conflito, é um outro, estabelecido no campo moral: o politicamente incorreto e o politicamente correto.

Essa dialética, desenvolvida de forma ideológica com propósitos alienantes, consegue mobilizar grande parte das pessoas a não perceber que, ou estão no campo do economicamente correto, ou no campo do economicamente incorreto.

Fórum precisa ter um jornalista em Brasília em 2019. Será que você pode nos ajudar nisso? Clique aqui e saiba mais

Os que se enquadram neste último campo são aqueles incapazes de consumir o que o mercado oferece à sociedade. Ser pobre é ser ilegal, é algo que deu errado em um sistema que privilegia e homenageia quem compra. Comprar é a principal ação nesse sistema, pois é através da compra que se gera emprego e renda, possibilitando uma vida digna.

Os que não tem poder de compra são incorretos porque não foram feitos para esta sociedade, são excluídos, embora possuam uma função dentro dela: servem de vitrine do que não deu certo, algo que ninguém deseja ser.

Esses incorretos dependem de um consumo indireto, isto é, vivem das instituições públicas que nascem a partir da contribuição de todos. A escola pública, o hospital público, a assistência social etc., são o que permite a sobrevivência desse grupo. E seria para melhorar estes setores que estes indivíduos deveriam lutar. Mas a ideologia, em muitos casos, os impedem de se mobilizar em prol de tais questões. E acabam sendo convencidos de que os problemas que afetam a classe média são também os seus.

Economicamente incorreto não seria obter recursos de forma ilegal para poder comprar os produtos ofertados pelo mercado. De modo que um político ou um empresário corruptos não podem ser enquadrados nessa categoria. Economicamente incorreto é aquele que, mesmo trabalhando honestamente, não tem recursos suficientes para comprar aquilo que o mercado apresenta como padrão, nos comerciais de TV, enfim. Se ele adquirir algo deste tipo, logo é observado com dúvida. Quando um economicamente correto vê um economicamente incorreto portando algo caro, observa, mesmo que em cochichos entre seus pares, a ilegitimidade do fato, pois se acredita que, ou adquiriu de forma ilícita, no mercado negro (o que de fato acontece em muitos casos), ou é negligente, porque, em vez de investir em estudo, compra as coisas que foram feitas para o economicamente correto consumir.

Fórum precisa ter um jornalista em Brasília em 2019. Será que você pode nos ajudar nisso? Clique aqui e saiba mais

Contudo, ao economicamente incorreto (aqui partindo dos estudos de Jessé Souza) é vetado o principal elemento que o faria crescer: tempo. As classes médias “podem comprar o tempo livre dos filhos apenas para o estudo”. Tempo para estudar, para investir nas gerações futuras o capital cultural que permitirá entrar na categoria dos economicamente corretos. Sem esse tempo, investe apenas no que é prático para o momento ou em um lazer que o faz permanecer na classe que se encontra. Seu espaço de experiência está muito próximo de seu horizonte de expectativa. Não tem tantos planos (não confundir com sonhos) quanto um indivíduo da classe média. E, de fato, não tendo dinheiro para pagar um plano de saúde, uma escola privada etc., recorre aos serviços públicos.

Em um sistema capitalista dependente como o nosso, isto é, um neoliberalismo subdesenvolvido, a pirataria e os serviços públicos são maus necessários. São coisas que o sistema não queria que existissem, mas o mantém porque precisa que os economicamente incorretos sobrevivam fisicamente e com doses parcas, mas indispensáveis, de prazer.

Por que o tráfico de drogas se instala na favela? Simplesmente porque lá existe uma mão de obra disponível para realizar tal serviço. Em um prédio em Copacabana, o trabalho de pequeno traficante não seria tão sedutor, porque lá há maiores oportunidades e perspectivas devido ao capital cultural investido na formação e no círculo social dos indivíduos. Existe um sistema que permite a reprodução do economicamente correto que ali habita.

Na favela é diferente. A falta de emprego e de perspectiva em arrumar um trabalho seguro no futuro, as condições humilhantes pelas quais o precariado passa em suas atividades laboriosas em regiões mais abastadas da cidade, dentre outras questões degradantes, servem como força motriz que empurra o jovem para a vida do crime. O empregado e o desempregado, o trabalhador informal e o pequeno traficante, na favela, consomem basicamente o mesmo tipo de produto de qualidade inferior, ou, em alguns casos, ilícitos, que vendem no pé do morro ou no trem e ônibus a caminho do trabalho. Em sua maioria, dependem da escola pública, do hospital público, não pagam água, raramente luz etc..

Fórum precisa ter um jornalista em Brasília em 2019. Será que você pode nos ajudar nisso? Clique aqui e saiba mais

Os cidadãos reconhecidos aqui como economicamente corretos têm ódio desse consumidor distorcido e o vê como uma anomalia. Se volta contra o seu tipo de consumo, produção e costume. Reclamam que o preço que pagam pelas coisas, o preço alto da luz e da conta da TV etc.. é proveniente desse consumo clandestino.

Os economicamente corretos são aqueles que compram tudo que tem: educação, saúde etc.. E, muitos, iludidos pela ideia de que o público está sendo deteriorado pelo Estado corrupto, clamam pela privatização. O que mais temem é a falta de segurança, e só dizem defender saúde e educação de qualidade porque é um desejo universal, de modo que reproduzem sem pensar (vide que contestam Paulo Freire, apoiam uma educação à distância e o fim do Mais Médicos que deixará milhões sem atendimento). Na verdade, pouco se importam e, se fosse possível escolher entre segurança e educação ou saúde públicas, não pensariam duas vezes.

Mas esse cidadão é iludido pelas mais diversas maneiras a não pensar política e economicamente, acreditando que o problema da administração pública encontra-se na moralidade e que sua condição de economicamente correto nada tem que ver com o Estado, pois está convencido de que tudo que tem foi fruto do seu trabalho. Sua ignorância política e econômica não o permite pensar para além disso.

Todavia, se vê como correto porque é economicamente correto, porque paga impostos, porque compra no shopping, e, sem dúvida, para ele, é somente isso que deve ser valorizado. Tanto que não se importa em defender o que se chama de politicamente incorreto, isto é, não se importa em ser homofóbico, racista ou sexista, pois acredita estar certo por ser economicamente correto, tendo o direito de ser dominante porque paga pelo que tem.

Contudo, a ideologia o descreve como cidadão de bem, moralmente correto, jamais como um cidadão economicamente correto, embora tenha ciência dessa posição, mas prefere não revelá-la claramente, jamais trazê-la para a discussão política, pois não conseguiria convencer o economicamente incorreto a defender a sua causa.

Quer punir apenas os que impedem que sua condição de consumidor padrão se realize. Por isso, a opressão sobre o negro, o homossexual, a mulher, não o incomoda, desde que as ruas fiquem limpas da bandidagem e a política, por sua vez, dos que roubam o dinheiro dos seus impostos. Consegue, através dessa ideia, persuadir o economicamente incorreto a pensar da mesma forma.

Fórum precisa ter um jornalista em Brasília em 2019. Será que você pode nos ajudar nisso? Clique aqui e saiba mais

Mas na verdade, se a política adotada pelo governo prejudicar o pobre, ou melhor, o economicamente incorreto, pouco importa para esta parcela da classe média que se vê como correta economicamente, porque tudo está sendo feito para a promoção deste grupo. E não é isso que o jargão: “direitos humanos para humanos direitos” quer dizer, embora se esconda por trás do slogan “bandido bom é bandido morto”? A partir daí se julgam justos, porque sem eles a roda do capitalismo não giraria. Aliás, defendem esse sistema porque acreditam fielmente que esse é um mundo feito para eles: o fantástico mundo da classe média.

Assim, estabelece-se o conflito. Mas logo este é coberto pela ideologia do politicamente incorreto, que por sua vez, agrada também muitos setores dos economicamente incorretos por estes serem moralmente conservadores, frequentadores assíduos das seitas neopentecostais. Desta forma, o economicamente correto que clama por um governo que deixe de investir nas minorias e nas classes subalternas, passando a investir nos setores que o privilegie, isto é, que facilite o seu consumo, apoia-se em uma ideologia conservadora tal qual a do economicamente incorreto.

Quando a sua situação econômica era agradável, os economicamente corretos não se manifestavam contra o governo, mesmo este abrindo espaço para as minorias, mas quando a sua situação piorou, eles logo se convenceram de que foi o investimento nessas minorias e nos economicamente incorretos (maioria) que prejudicou o país não resolvendo o problema de ninguém, principalmente daqueles  que consomem honestamente.

A ideologia conservadora é originária da classe média, isto é, do economicamente correto. Mas ela quer apenas corroborar a dominação de quem consome corretamente (trabalho honesto e consumo honesto), ou melhor, alienadamente. Contudo, a ideologia conservadora é manobrada pelos que tem muito dinheiro e sede de poder que dispõem dos melhores instrumentos para expandi-la a outras classes, atingindo agora até mesmo as classes dominantes. Porque estas, conforme nos lembrou Cornelius Castoriadis, precisam alienar a si mesmas para poder alienar as outras classes.

Cabe lembrar que o economicamente correto e o incorreto pode ser tanto politicamente correto quanto incorreto, assim como o economicamente incorreto, por isso que esse conflito é apenas ideológico, não muda a estrutura social em si. O momento pelo qual passamos é de adesão das diversas camadas sociais ao politicamente incorreto.

O politicamente correto, ideologia criada pela classe média, e o politicamente incorreto, ideologia que possui bases nos valores compartilhados entre os membros mais pobres da população, mas que também foi criada pelas camadas médias da sociedade, pois elas se julgam as guardiãs da moralidade e do espírito capitalista, são instrumentos manipulados pelas classes dominantes para esconder as exigências econômicas dos economicamente incorretos e dos economicamente corretos. Esse conflito moral transforma as classes em marionetes nas mãos dos que tem o verdadeiro poder econômico. Se essas exigências viessem à tona, o conflito entre esquerda e direita não seria tão fútil, talvez não seria marcado pelo ódio, mas pela racionalidade e por uma conscientização real rumo à mudança.

Raphael Silva Fagundes é Doutor em História Política pela UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

Agora que você chegou ao final desse texto e viu a importância da Fórum, que tal apoiar a criação da sucursal de Brasília? Clique aqui e saiba mais