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25 de março de 2019, 06h00

“O festival de Iacanga é uma grande lição de ativismo cultural”, diz o diretor Thiago Mattar

Thiago Mattar estreia na direção com o documentário “O Barato de Iacanga”, filme que conta a história do Festival de Águas Claras, ocorrido entre o final da década de 70 e começo da de 80

Thiago Mattar. Foto: Facebook
Eu estive lá. Faz mais de 35 anos. Chovia à cântaros, fazia um frio danado, tinha lama pra tudo que é lado, era difícil comer, beber, ir ao banheiro etc. Mas, foi sim, um grande barato. Só que quem vai contar a história não vai ser nem eu nem nenhum outro dos milhares de participantes ou protagonistas, mas sim alguém que não tinha nem nascido na época. O jovem diretor Thiago Mattar, jornalista e estreante como cineasta, impulsionado pela incrível e misteriosa história do obscuro Festival de Águas Claras, que ele nunca havia ouvido falar, ocorrido entre o final dos...

Eu estive lá. Faz mais de 35 anos. Chovia à cântaros, fazia um frio danado, tinha lama pra tudo que é lado, era difícil comer, beber, ir ao banheiro etc. Mas, foi sim, um grande barato. Só que quem vai contar a história não vai ser nem eu nem nenhum outro dos milhares de participantes ou protagonistas, mas sim alguém que não tinha nem nascido na época.

O jovem diretor Thiago Mattar, jornalista e estreante como cineasta, impulsionado pela incrível e misteriosa história do obscuro Festival de Águas Claras, que ele nunca havia ouvido falar, ocorrido entre o final dos anos 70 e início dos 80, em uma fazenda em Iacanga (SP), a pequena cidade onde morou a sua bisavó, resolveu, há dez anos, começar a pesquisar sobre o assunto.

Foto: Divulgação

O resultado virou o filme “O Barato de Iacanga”, que começa a circular nos primeiros meses de 2019 em vários festivais pelo Brasil e pelo mundo. Sobre o interesse pelo assunto, Thiago diz: “Meu pai me contou essa história quando eu era adolescente. Eu estava assistindo ao documentário “Woodstock – três dias de paz, amor e música” na TV, quando ele parou na sala e me disse que tinha ido ao Woodstock brasileiro. Esse foi o ponto de partida inicial para que eu começasse a juntar as peças dessa história, até então apagada de nossa memória coletiva pela sombra dos anos de repressão vividos até 84, ano da última edição do festival”, conta.

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Thiago afirma ter ficado realmente intrigado com o fato de, até os 19 anos, nunca ter ouvido falar do Festival. “Por que eu não conheço essa história? Por que não existe nada sobre essa história? Parece que teve um grande acordo nacional para que se esquecesse o passado: ‘Agora nós temos um novo governo, uma nova maneira de fazer festivais, um novo Brasil’, parece que diziam”, afirma.

Para ele, o Festival de Águas Claras é uma lição às novas gerações, sobretudo aos mais conservadores. “Muitas pessoas da minha geração, pensando o Brasil, são conservadoras, não entendem muito de história. Não conseguem entender o que foi a ditadura, minimizam a falta de liberdade. Reunir um monte de malucos, cabeludos, você podia ir preso”, alerta.

O diretor afirma que é preciso aprender olhando o passado “E eu acho que Águas Claras é um grande exemplo disso. É uma grande lição de ativismo cultural pra minha geração. Mostra que, mesmo que tudo esteja contra você, há esperança. Vamos nos conectar com a música, que é o grande carro-chefe da nossa cultura. É onde a gente consegue realmente se sentir revolucionário. Não foi um festival político, mas a atitude de sair fora, queremos sair nesse momento horrível de cerceamento de liberdade, foi uma maneira de dizer: ‘chega disso’”, exclama.

Foto: Divulgação

O curioso do Festival de Águas Claras, ao contrário de todas as probabilidades, é que não se tratou, em nenhum momento, de um evento de rock. Apesar de todos os outros elementos roqueiros estarem presente, como a nudez, maconha correndo solta, cabelos longos e desgrenhados etc., os músicos que fizeram aquela história foram Gilberto Gil, Hermeto Pascoal, Luiz Gonzaga, Egberto Gismonti, Sandra de Sá, Raul Seixas, Alceu Valença e, pasmem, João Gilberto.

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Sobre isso, Thiago afirma: “o que mais me encantou foi esse contraste entre o hippie e essa música instrumental, a música regional brasileira, tinha uma cara muito diferente. Não era o Woodstock brasileiro, era uma coisa totalmente diferente. Foi um festival rico musicalmente”, afirma.

Foto: Arquivo Pessoal

Pra fazer o filme, Thiago conversou com inúmeras pessoas. Foi para Iacanga, entrevistou participantes, resgatou imagens, histórias e descobriu, surpreso, que a cidade não guardou basicamente nada sobre o festival.

O produtor do festival, que era então um jovem inexperiente de 20 anos, apelidado de Leivinha, realizou na fazenda da família, junto com os seus irmãos, as quatro versões do evento, em 1975, 1981, 1983 e 1984. Ele é uma espécie de fio da meada de toda a história. “O Leivinha me contou que aquilo lá era a internet física. A gente queria se conectar, se encontrar, era tudo uma tribo só”, conta Thiago.

O filme relata o extremo amadorismo que foi a produção de tudo aquilo, que acabou resultando em algo muito maior do que qualquer um de seus participantes poderia imaginar. “Era um projeto muito ambicioso, meio megalomaníaco mesmo e a gente ficou muito feliz em transformar em realidade.”

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Veja o trailer:

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