09 de fevereiro de 2012, 12h06

O forró conquista o mercado

No decorrer das décadas, ritmo tem expressado à perfeição a máxima da música que é feita para o povo – e pelo povo. Entre os personagens da sua volta à cena nacional estão os jabás, a pirataria e o preconceito

Por Pedro Alexandre Sanches

 

Emanuel Gurgel veio de uma família muito pobre, mas era um empreendedor por natureza. Trabalhou como professor de Educação Física e árbitro de futebol antes de virar produtor musical. Quando resolveu se aventurar pela música, estava “muito bem de vida” – tinha confecção com cem funcionários, loja de roupas, tinturaria.
“Fui na Santa Efigênia aí em São Paulo e comprei todo o equipamento, tudo importado”, conta, por telefone, da varanda da fazenda onde mora, no interior do Ceará. “Montei o estúdio e botei pra rodar. Todo mundo dizia: ‘Rapaz, como esse maluco bota US$ 150 mil num estúdio? Nunca mais ele vai ver esse dinheiro na vida’”. Equipamento montado, Emanuel fundou a empresa Somzoom, que adquiriu status de império no nicho do forró. Além do estúdio de gravação, montou editora musical, administradora de 13 bandas, rede de rádio com 113 afiliadas, gravadora e distribuidora de discos, produtora de shows.

Já Isaías Duarte nasceu na fazenda Serra das Cobras, no município de Santa Quitéria, a 200 quilômetros de Fortaleza, para onde se mudou com 11 anos. “Na fazenda nem energia elétrica tinha, fui me iniciar em forró quando vim morar em Fortaleza”, conta, também por telefone, da empresa A3 Entretenimento, da qual é hoje um dos três sócios. Antes, foi pasteleiro, vendedor de água, servente de construtora. Por três anos, foi funcionário da Somzoom, servindo café e trabalhando como zelador. “Emanuel foi meu amigo, meu pai, um cara que inspirou em tudo que fui fazer na minha vida. Devo muito a ele. Se não fosse a oportunidade que me deu como zelador, eu não estaria aqui hoje”, afirma.

Emanuel Gurgel criou e passou a dirigir há 20 anos a banda de forró Mastruz com Leite, pioneira em reformatar e revitalizar um gênero musical então decadente, que fora consolidado e tivera glória a partir do final dos anos 1940, quando Luiz Gonzaga eternizou canções como “Asa Branca” e “Baião”. Isaías Duarte deu partida à futura A3 oito anos atrás, ao inventar o grupo Aviões do Forró, líder atual de um mercado que já foi do pernambucano Gonzagão, do paraibano Jackson do Pandeiro, dos paraibanos Magníficos, do cearense Mastruz com Leite…

No decorrer das décadas, o forró tem expressado à perfeição a máxima da música que é feita para o povo – e pelo povo. Como tal, espalha raízes por todo o Brasil, mas não conta com selo de legitimidade conferido por determinadas camadas sociais e certas regiões geográficas. Reprovação estética e preconceito de classe se interpenetram e se misturam, deixando borradas as fronteiras entre uma coisa e outra, e tornando confusos os motivos da muralha erguida e sempre conservada.

“O forró é considerado brega porque a Globo, quando bota na novela, bota como tema da mulher que trai o marido, numa sacanagem”, afirma Emanuel, em referência ao hit nacional “Você Não Vale Nada” (“tudo que eu queria era saber por que/ você não vale nada, mas eu gosto de você”), composto pelo sanfoneiro potiguar Dorgival Dantas, interpretado por bandas como a sergipana Calcinha Preta e assimilado pela Globo na trilha da novela Caminho das Índias. “Sempre enquadram o forró como pejorativo, música da empregada, do porteiro, do garageiro. Existe uma discriminação muito violenta ainda, como existe com o vanerão do Rio Grande do Sul, que tem uma harmonia muito grande com o forró e o xote”, continua.

Emanuel enumera entre os integrantes originais do Mastruz com Leite um catador de ossos para fabricar botões, um tocador de sanfona “dos bregas dentro dos matos”, um motorista entregador de mercadorias, um trabalhador de depósito de construção. “Pensei: vou pegar só bicho brabo, que não tenha medo de forró”, diz, remetendo-se ao final da década de 1980, quando Luiz Gonzaga morreu e o ritmo era malvisto até mesmo no Nordeste natal.

Cada vez mais populares por estouros como “Coração” (2004), “Pode Chorar” (2006) e “Mulher Não Trai, Mulher Se Vinga” (2009), os Aviões do Forró também espelham em corpo e alma o universo de espectadores a que se dirigem primordialmente. “Fui à procura de um cantor na cidade de Apodi, no Rio Grande do Norte, e lá encontrei Alexandre, que tocava com um trio numa churrascaria. Solange é de Alagoinha, na Bahia, mas já fazia parte da banda Caviar com Rapadura em Fortaleza. Cantava e fazia backing. Juntei os dois e formatei os Aviões do Forró”, lembra Isaías, descrevendo um formato de dupla feminina-masculina adotado também pelos paraenses Joelma e Chimbinha, da Banda Calypso.

“No início foi muito difícil, porque eles eram gordinhos, e naquela época o perfil tinha que ser de mulher bonita. Solange e Alexandre são pessoas que vieram do nada como eu, do zero, muito humildes, e que adotei como filhos. Ele e ela me chamam de pai. A banda mudou não só a minha vida, como a de toda a equipe, dos músicos e cantores. Hoje graças a Deus todo mundo vive bem, uma vida boa.”

Os Aviões seguem o modelo que tornou obsoleta a indústria fonográfica multinacional instalada no eixo Rio-São Paulo e que fez progredirem, à revelia dos esquemas de sempre, nomes como a Banda Calypso e todo o tecnobrega paraense. Os CDs foram produzidos por gravadora própria e circularam principalmente pelo Nordeste, à exceção do volume 7, o mais recente, distribuído pela Som Livre, da Globo. Isaías estima que já foram vendidos 10 milhões de discos oficiais, 300 mil deles do CD da Som Livre.

“Hoje Solange e Alexandre são bonitos, porque ficaram com condição melhor de se cuidar. No início ela pesava 110 quilos, ele era bastante gordo”, relata o produtor. “Hoje Solange pesa 64 quilos, fez redução de estômago. Alexandre deve pesar uns 80 quilos. Mas fizeram sucesso gordinhos, foi legal, porque realmente o público aceitou a banda do jeito deles.”

Mercadoria e arte

Multinacionais de nomes como Universal, Warner ou Sony perderam o domínio sobre o artesanato musical nordestino, e até por isso o forró até o momento não se impôs sobre o país da maneira como o fez, por exemplo, a axé music baiana dos anos 1990. Mas trata-se de uma indústria com pontos em comum com aquelas que foram hegemônicas no passado, como insinua a seguinte frase de Isaías, ao relatar sua participação nos Aviões: “Sou um dos donos da banda, mas não toco nenhum instrumento”.

O termo “donos” indica que, até certo ponto, as bandas de forró são tratadas como produtos de mercado pelos empresários. A A3 hoje possui cinco grupos além dos Aviões: Forró do Muído (formado por duas paulistas que eram vocalistas do cantor piauiense Frank Aguiar), Solteirões do Forró, Forró do Bom Forró dos Play’s e Boca a Boca. O know-how é, em grande medida, aquele aprendido com Emanuel Gurgel. “Quase todos os meninos dos Aviões do Forró trabalhavam comigo antes”, diz o precursor. “Toda banda que você vê mexendo com forró é cópia do Mastruz com Leite, sem exceção. Foi a primeira que teve destaque, embora tivessem bandas mais velhas do que ela, como Limão com Mel. Hoje o forró deve movimentar talvez umas 100 mil pessoas no Nordeste. Devem existir umas 3 mil bandas de forró, 700 só no Ceará.”

Emanuel refere-se ao início da constituição dessa indústria: “Como não existiam músicas de forró na época, a gente transformava tudo em forró. “Imagine” do John Lennon, “Detalhes” do Roberto Carlos, “Entre Tapas e Beijos” do Leandro & Leonardo. Lennon em xote fica altamente divertido, dançante. Era uma sacada”. Ele reconhece a indústria musical baiana como fonte de inspiração. “O axé foi projetado para o carnaval, e carnaval são quatro dias. Os baianos conseguiram transformar os quatro dias em 365. O forró é música junina, que vem de junho, a gente tinha 30 dias. Se os baianos conseguiram tocar o ano todo, o forró também poderia”, raciocina.

Descreve sem papas na língua o pontapé inicial para a conquista de mercado, ancorada em outros pontos de semelhança com os vícios da velha indústria multinacional. “Ninguém conseguia convencer o pessoal de rádio, então a solução foi montar uma rede, distribuir uma afiliada em cada pracinha e empurrar goela abaixo. Os jabás eram feitos e os caras não honravam os compromissos. Só tinha um meio de eu evitar que os caras me enganassem: comprar os espaços nas rádios e mandar o som já pronto. A parte comercial ficava com eles e eu tocava o que queria tocar”. Na conclusão, expõe a visão de produtor, provavelmente de “dono” de bandas: “Eu sempre tratei música como mercadoria, embora seja uma obra de arte – às vezes sim, às vezes não, porque tem muita merda também. Quando uma música dá certo, dá direito autoral, show, reportagem, um comércio violento”.

Essa trajetória foi apanhada pelo advento da pirataria de massa, sobre a qual Emanuel discorre com apetite. “Todas as multinacionais hoje estão quebradas, a pirataria toma conta de tudo que você imaginar, copia computador, camisa, meia, cueca. Em Santa Cruz do Capibaribe se faz o que você imaginar, igualzinho, não tem diferença nenhuma. E o maior comandante de pirataria do mundo chama-se China. Há dez anos apareceu na TV, os chineses apreenderam, vamos dizer, 500 mil CDs piratas. Desses, uns 300 eram do Mastruz, porque era uma mercadoria que vendia muito. Os chineses falsificavam, faziam tudo igual e botavam no mercado”.

De início, Emanuel pretendeu combater a pirataria chinesa. “Eles demoravam seis meses para botar meu CD dentro do Brasil. Pegavam, levavam para a China, faziam, despejavam em São Paulo. De São Paulo, caía para o Brasil todo. O que eu fiz? Como descobri o ciclo de seis meses dele, quando completava soltava outro CD do Mastruz. Por isso a banda tem 48 CDs em 20 anos. Assim consegui rebater os chineses.”

Mesmo assim, o auge da Somzoom já se foi, como o próprio fundador reconhece: “Quando o Mastruz estava estourado, chegamos a ter 8,4% do mercado de CDs vendidos no país. Eram entre 250 mil e 300 mil CDs por mês. Hoje vende mil CDs, nas festas. Todas as lojas de discos no Ceará quebraram, CD deixou de ser negócio. A Somzoom chegou a ter 528 funcionários, todos com carteira assinada. Hoje tem 120. Ou seja, 400 perderam emprego. Mas estão em outras bandas. A pirataria quebrou a minha empresa. De 13 bandas, hoje só tenho três: Mastruz com Leite, Cavalo de Pau e Doce Aventura”. Emanuel se afastou do comando, hoje entregue a alguns de seus sete filhos.

Várias das marcas criadas 20 anos atrás, no entanto, permanecem e se espalham por diversos ecossistemas musicais Brasil adentro. O hábito paraense das bandas e DJs de tecnobrega de se autoanunciarem no meio de cada gravação, por exemplo, era praticado desde o início por Emanuel. “Criei por hábito assinar no meio da música toda vez que o grupo gravar: ‘É o Mastruz com Leite’. Por quê? Porque as FMs nunca diziam quem estava tocando, como é hábito até hoje não dizerem. Se forem artistas de vozes e timbres semelhantes, você não vai saber quem é um nem quem é outro. Talvez você saiba [que é] o Raça Negra, daí para frente fica tudo japonês”, afirma.

É intenso o, digamos, intercâmbio entre essas diversas cenas musicais locais. “O Novo Namorado” e “Mulher Não Trai, Mulher Se Vinga”, dos Aviões, se transformaram em sucessos de massa no Pará, em versões tecnobrega por bandas como Puro Desejo e Bonde do Batidão. O sistema cresce descontrolado e algo autofágico. Foi o que aconteceu quando as bandas paraenses, na outra ponta, foram tomadas de surpresa pelo sucesso nacional da “invenção” do tecnobrega pela Banda Djavú.

“O que é a Djavú?”, pergunta Emanuel. “Havia uma banda pronta no Pará, que marcou um show na Bahia e não foi cumprir. Um gaiato pegou as músicas todinhas, mandou ensaiar, botou nome e tocou as músicas paraenses como se fosse a banda. Foi uma brincadeira de mau gosto que deu certo, até hoje eles brigam na Justiça por causa disso”, completa. “Hoje está tudo muito poluído”, opina Isaías. “O axé toca forró, o forró toca axé, o sertanejo rouba músicas do forró para levar para o Sul. A verdade é que a maioria das bandas tira o som das outras. Tem pessoa que pode até se destacar com suas músicas, mas termina não conseguindo porque as outras roubam.”

O Sudeste também recebe em cheio a influência da música nordestina moderna, embora nem sempre pela porta da frente e nem de modo assumido. “Geralmente os empresários de São Paulo gostam de colocar as bandas em lugares frequentados por nordestinos”, afirma Isaías, referindo-se a casas de espetáculos localizadas em bairros periféricos da capital. Emanuel completa: “Quando o Mastruz entrou pela primeira vez em São Paulo, as casas eram de 2 mil pessoas. Foi crescendo tanto que passaram a ter até 15 mil lugares. Mastruz passava três meses em São Paulo, fazia cinco festas no Patativa e botava 40, 50 mil pessoas”.

Preconceito e novas fronteiras

Tais evidências trazem de volta o tema das fronteiras imprecisas entre reprovação estética e/ou os preconceitos travestidos atrás dessa rejeição. O forró é uma música simples, direta, frequentemente fundada nos duplos sentidos maliciosos com conotação sexual – desde Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Não tem ambições além de divertir, fazer sacudir, embalar encontros sexuais e namoros.

Emanuel entra afiado no assunto: “Em São Paulo, a Nativa FM tem um programa de forró. A Band nunca teve coragem de tocar um forró durante um dia, e durante dez anos foi primeiro lugar entre 4 horas da madrugada e 6 horas da manhã, com forró. Mesmo sendo primeiro lugar durante dez anos, nunca teve coragem de botar uma música de forró para tocar em horário comum”. É um mistério, essa discrepância? “Não é mistério, não. É preconceito.” Preconceito de capitalistas, que os levam a ter lucros encolhidos? “Sabe por quê? Eles dizem que é porque é brega, e o brega ninguém tem coragem… Quando fiz o Mastruz com Leite, todo mundo dizia que era música de cabaré.”

O preconceito se estenderia, de modo mais amplo, por sobre os nordestinos em geral, os que ficam na terra natal e os que vêm construir os edifícios, viadutos e aneis rodoviários do Sudeste. “Tenho amigo gaúcho que achava que aqui se passava fome, tinha só vaca seca, pé de cacto”, ironiza Emanuel. “Aquilo aqui não existe, é tudo folclore. É meio de político arrastar dinheiro lá de Brasília para vir roubar os outros aqui. Moro numa fazenda que tem 42 açudes, está tudo verde aqui, com passarinho cantando”.

Isaías, um homem simples como o forró dos Aviões, tem um diagnóstico mais descomplicado – e também mais otimista. “Não tem mais preconceito. A gente toca bastante em São Paulo e no Rio. Já fizemos turnê nos Estados Unidos, vamos voltar para Portugal e Espanha. Graças a Deus, o forró hoje está no mundo todo, e eu acho que não está ainda em 50% de onde vai chegar”.

Talvez seja cedo para afirmar isso, mas de fato o forró se esgueira para entrar no vocabulário musical, para além das fronteiras brasileiras e do idioma português. Em Nova Iorque, um grupo de brasileiros formou o Forro in the Dark por amor a Luiz Gonzaga e cia. – e sem sanfona, por enquanto. Com David Byrne fazem uma versão em inglês de “Asa Branca”, com Miho Hatori (do grupo Cibo Matto) vertem “Paraíba” para o japonês, e assim por diante.

“Tinha uma certa discriminação, de achar que o forró é brega, mas graças a Deus forró não tem mais branco nem preto, brega ou não brega. Todo mundo gosta, hoje forró vai do pobre ao rico”, prossegue Isaías. Se for mesmo assim, São Luiz Gonzaga deve estar dando uma festa no céu. Com sanfona, triângulo, zabumba e chapéu de Lampião.

No Twitter: @pdralex.


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