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27 de setembro de 2018, 19h03

“O futuro é feminino”, diz uma das organizadoras do ato contra Bolsonaro em Londres

A jornalista Ali Rocha, que desde 2015 vive em Londres, se juntou com outras brasileiras que vivem no exterior para organizar um dos atos internacionais que se somarão à mobilização nacional contra Jair Bolsonaro no próximo sábado (29). Em entrevista à Fórum, Ali constatou: "Essa guinada para a extrema direita é mundial". Saiba mais

Arte utilizada na divulgação do ato de Mulheres Contra Bolsonaro em Londres (Reprodução)
O movimento #EleNão, criado por mulheres que se colocam contra as posições opressoras de Jair Bolsonaro (PSL) com relação à mulheres, negros, LGBTs, pobres e outros segmentos marginalizados da sociedade, tomou proporções internacionais. Além da mobilização nacional, que contará com atos contra o candidato à presidência em cidades de todo o Brasil no próximo sábado (29), haverá também manifestações em dezenas de capitais do exterior. Uma delas será em Londres (Inglaterra) e uma das organizadores é a jornalista brasileira/britânica Ali Rocha. Em entrevista à Fórum, Ali, que vive no país desde 2015, contou que decidiu organizar um ato em Londres...

O movimento #EleNão, criado por mulheres que se colocam contra as posições opressoras de Jair Bolsonaro (PSL) com relação à mulheres, negros, LGBTs, pobres e outros segmentos marginalizados da sociedade, tomou proporções internacionais. Além da mobilização nacional, que contará com atos contra o candidato à presidência em cidades de todo o Brasil no próximo sábado (29), haverá também manifestações em dezenas de capitais do exterior.

Uma delas será em Londres (Inglaterra) e uma das organizadores é a jornalista brasileira/britânica Ali Rocha.

Em entrevista à Fórum, Ali, que vive no país desde 2015, contou que decidiu organizar um ato em Londres após ver a possibilidade do capitão da reserva vencer as eleições em primeiro turno e constatar que havia um movimento grande de mulheres no Brasil contra sua candidatura. “Até pouco tempo eu não acreditava que a candidatura de Bolsonaro se sustentaria, que assim que começasse a campanha e os debates ele seria desconstruído e destruído politicamente. Mas, para minha surpresa e preocupação, ela continuou a crescer a ponto de existir a possibilidade de ele ganhar as eleições no primeiro turno. Eu fui adicionada ao grupo Mulheres Unidas Contra Bolsonaro no Facebook e fiquei impressionada com a quantidade de mulheres e a mobilização no grupo. Assim que foi definida a data para os atos contra o inominável, dia 29 de setembro, resolvi organizar algo aqui também”, relatou.

O evento no Facebook do ato contra Bolsonaro em Londres já conta com 900 pessoas confirmadas. A concentração será a partir das 15h no Old Palace Yard e a manifestação sairá em marcha até Westminster Bridge. Depois, o ato retorna para Old Palace Square e haverá um espaço aberto para falas no microfone, música e debates. As organizadoras deixaram claro, na descrição do evento, que apesar de o ato ser aberto a todos, o protagonismo será das mulheres.

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Cenário internacional 

À Fórum, Ali afirmou que não acredita que as mobilizações internacionais possam ter impacto direto nas eleições, mas ajudam a dar visibilidade, pressionar governo e conectar movimentos. De acordo com a jornalista, atos como esses são importantes pois a “guinada para a extrema direita” seria um “fenômeno global”.

A jornalista Ali Rocha, uma das organizadoras do ato contra Bolsonaro em Londres (Foto: Arquivo Pessoal)

Essa guinada para a (extrema) direita é um fenômeno global. Eu mudei para cá no final de 2015, quando a situação no Brasil já estava degringolando e a direita dava sinais de inquietude, pensando que aqui estaria mais tranquila, já que Londres é uma cidade com muitos imigrantes onde as diferenças e a diversidade sempre foram celebradas. Mas, em 2016 tivemos o referendo do Brexit em junho com o resultado totalmente inesperado de saída da União Européia e poucos meses depois houve a vitória de Trump nas eleições nos Estados Unidos. Isso só para citar dois grandes exemplos. Parece que a partir daí as pessoas com ideais mais conservadores foram se sentindo mais à vontade para explicitar seus preconceitos e ganhando mais espaço”, pontuou.

Perguntada sobre os efeitos que essa mobilização de mulheres podem criar, Ali foi direta: “Eu não tenho dúvidas de que o movimento de mulheres veio para ficar e tende a crescer cada vez mais (…) Eu acho que as mulheres podem decidir essa eleição e esse empoderamento tende a aumentar ainda mais. O futuro é feminino”.

Confira a íntegra da entrevista.

Fórum – O que te motivou a criar um evento em Londres contra Bolsonaro?

Ali Rocha – Mesmo morando em Londres eu acompanho tudo o que acontece no Brasil. Há tempos eu não acreditava que a candidatura de Bolsonaro se sustentaria, que assim que começasse a campanha e os debates ele seria desconstruído e destruído politicamente. Mas, para minha surpresa e preocupação, ela continuou a crescer a ponto de existir a possibilidade de ele ganhar as eleições no primeiro turno. Eu fui adicionada ao grupo Mulheres Unidas Contra Bolsonaro no Facebook e fiquei impressionada com a quantidade de mulheres e a mobilização no grupo. Assim que foi definida a data para os atos contra o inominável, dia 29 de setembro, decidi organizar algo aqui também. Contatei algumas brasileiras que conheci em outros movimentos aqui, criamos um evento e tivemos grande adesão relativamente rápido. Eu já tinha organizado uma homenagem para Marielle dentro da marcha contra o racismo e participei de alguns atos contra o impeachment de Dilma Rousseff.

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Fórum – Qual acredita ser a importância de eventos contra Bolsonaro no exterior? Acha que a repercussão internacional possa ter efeitos diretos na eleição?

Ali Rocha – A meu ver as mobilizações no exterior são muito importantes para dar visibilidade ao que acontece no

Confecção de faixas para o ato contra Bolsonaro. Foto: Marcia Alves

Brasil e em alguns casos, dependendo do alcance, podem até ajudar a pressionar governos por mudanças. Não acho que terão efeitos diretos na eleição mas ajudam a incomodar de um lado e fortalecer de outro. Outra coisa positiva é que elas possibilitam a interconexão com movimentos e ativistas daqui e de outros países que estejam vivendo situações similares e lutando pelas mesmas causas.

Essa guinada para a (extrema) direita é um fenômeno global. Eu mudei para cá no final de 2015, quando a situação no Brasil já estava degringolando e a direita dava sinais de inquietude pensando que aqui estaria mais tranquila, já que Londres é uma cidade com muitos imigrantes onde as diferenças e a diversidade não são apenas respeitadas, são celebradas. Mas, em 2016 tivemos o referendo do Brexit em junho com o resultado totalmente inesperado de saída da União Européia e poucos meses depois houve a vitória de Trump nas eleições dos Estados Unidos. Isso só para citar dois grandes exemplos. Parece que a partir daí as pessoas com ideais mais conservadores foram se sentindo mais à vontade para explicitar seus preconceitos e ganhando mais espaço. 

Fórum – Qual a sua percepção sobre a pauta do #EleNao em Londres? As pessoas na Inglaterra sabem o que está acontecendo no Brasil?

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Ali Rocha – As pessoas de modo geral não sabem muito o que acontece no Brasil porque não há muito interesse e cobertura da imprensa. Em outros tempos, quando a economia brasileira chegou a ser a quinta maior do mundo e quando o Brasil se preparava para sediar Copa e Olimpíadas, o interesse e espaço na mídia eram bem maiores. Depois foram diminuindo e hoje em dia pouco se vê sobre o Brasil na imprensa local. Ainda assim, os principais veículos de mídia impressa daqui fizeram alguma matéria, negativa, sobre (a ‘ameaça’) Bolsonaro, e alguns falaram também desse movimento das mulheres, mas o alcance é pequeno.

Fórum – Acredita que esse movimento de mulheres passará a ser algo permanente no processo político no Brasil? Isto é, essa mobilização contra Bolsonaro pode iniciar um processo de participação maior das mulheres na política brasileira?

Ali Rocha – Eu não tenho dúvidas de que o movimento de mulheres veio para ficar e tende a crescer cada vez mais. Esse movimento já vem se fortalecendo desde a Primavera das Mulheres em 2015, quando as mulheres saíram às ruas em várias cidades para protestar contra a cultura do estupro, após a divulgação no Twitter de um vídeo de estupro coletivo no Rio de Janeiro, e passaram a abarcar outras pautas feministas, como a luta contra o assédio, o feminicídio, pelo direito ao direito ao aborto, pela equidade salarial, etc. Eu acho que as mulheres podem decidir essa eleição e esse empoderamento vai ser cada vez maior. O futuro é feminino.

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