13 de abril de 2018, 17h46

O golpe na perspectiva de Karl Marx

Em sua estreia como colunista da Fórum, Marcelo Hailer Sanchez pontua que qualquer semelhança entre a discussão proposta por Marx em "O 18 de brumário de Luís Bonaparte” e o atual momento político-histórico brasileiro não é mera coincidência. Entenda

“(…) grandes personagens da história mundial são encenados, por assim dizer, duas vezes […] a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.

Essa é provavelmente uma das frases mais famosas de Karl Marx, que está no primeiro parágrafo de seu livro “O 18 de brumário de Luís Bonaparte” (Ed. Boitempo), um clássico obrigatório para quem se propõe a fazer análise de conjuntura.

Porém, a frase completa é: “Em algumas passagens de suas obras, Hegel comenta que todos os grandes fatos e todos os grandes personagens da história mundial são encenados, por assim dizer, duas vezes. Ele se esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.

Mas, a minha sentença favorita desta obra é “a tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que comprime o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem estar empenhados em transformar a si mesmos e as coisas, em criar algo nunca antes visto, exatamente nessas épocas de crise revolucionária, eles conjuram temerosamente a ajuda dos espíritos do passado, tomam emprestados os seus nomes, as suas palavras de ordem, o seu figurino, a fim de representar, com essa venerável roupagem tradicional e essa linguagem tomada de empréstimo, as novas cenas da história mundial”.

Qualquer semelhança com o nosso momento histórico-político não é coincidência. Mas claro, Marx está falando do golpe de Luís Bonaparte que colocou fim a Segunda República na França (24 de fevereiro de 1848 a 2 de dezembro de 1851). Aliás, o título do livro “O 18 brumário de Luís Bonaparte” é uma ironia que Marx faz, pois, comparado com o golpe dado pelo tio de Luís – Napoleão – o segundo golpe contra a República francesa era, para o autor, uma tremenda de uma paródia.

Mas, por que trazer o livro de Marx – que trata dos descaminhos a partir da revolução francesa – para falar do golpe em curso no Brasil? O primeiro motivo já está meio óbvio: a maneira como setores golpistas resgatam valores do passado – sempre tradicional – para justificar ações do futuro. Na outra ponta, Marx atenta para o fato de que, enquanto os revolucionários não abandonarem o passado, a revolução nunca será de fato.

É preciso levar em conta apenas a análise conjuntural proposta por Marx. Mas, ainda que pareça um tanto absurdo uma aproximação entre o golpe de Estado liderado por Luís Bonparte e o golpe liderado por Temer e Cunha no Brasil, algumas questões críticas feitas por Marx em relação ao papel do líderes revolucionários à época são válidas para o nosso contexto histórico, a saber: a confiança nas instituições fundadas pela burguesia, principalmente a Justiça, a qual sempre trabalhará para proteger a propriedade privada e os meios de produção da burguesia. Acreditar no contrário disso, para Marx, é uma ingenuidade.

É fato que no tempo em que Marx escreveu o referido texto o mundo era completamente outro, porém, a divisão global do mundo entre os séculos XVII, XVIII e XIX não mudou muito de lá para cá. Pois, ainda que hoje tenhamos uma série de órgãos internacionais que afirmam prezar pela democracia ao redor do mundo – quanta prepotência, não? – vivemos atualmente uma segunda fase de golpes na América Latina e com o silêncio abissal e, de acordo com internacionalistas, até mesmo com o apoio das velhas potências: Inglaterra, Alemanha, França e, mais recentemente, EUA. E todos estes golpes possuem características em comum: é pela via jurídico-parlamentar e alicerçado em valores tradicionais do passado. Como costumava brincar uma amiga: “Marx já sabia”.

Outras duas questões que Marx levanta em seu texto e que espantam pela proximidade com algumas questões que levaram ao golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff de seu cargo: o primeiro azedume entre a burguesia nacionalista da França com os revolucionários começou pelo fato de a nova Constituição dar “muitas liberdades” ao povo, inicia-se a partir daí uma guerra de interpretações da Constituição; o outro fator é a imprensa nacionalista e, claro, burguesa. Marx destaca o papel dos jornais a partir de seus editoriais o clamor pela moral e bons costumes destruídos pela revolução. Nem é preciso destacar aqui o papel da imprensa brasileira na alimentação do golpismo brasileiro, assim como também é para lá de irritante o quanto certa parcela da esquerda brasileira continua a apostar as suas fichas na Justiça. Novamente: vai dar errado.

Poderíamos ainda fazer tantas outras relações entre a análise de Marx com o nosso contexto histórico-político mas, daí, seriam necessárias muitas páginas e não é o caso. Mas, resumindo bem a crítica central do autor, trata-se do equívoco e da velha confiança nas instituições fundadas a partir dos valores burgueses. Pois, ainda que tenhamos uma Constituição Cidadã, acompanhamos ao longo de nossa história recente a sua total deturpação e destruição por estes setores criticados por Marx, a saber a elite nacional. Daí voltamos para a proposta de uma nova Constituinte… mas, uma nova Constituição alicerçada em que tipo de poderes? Qual Estado? São questões político-filosóficas que aí estão.

O golpe não acabou com a prisão de Lula e o setor burguês/golpista também não vai permitir que qualquer candidato do campo da esquerda – caso tenha eleição – ganhe e assuma o comando do país. Mas aí voltamos ao cerne da questão abordada por Marx em seu 18 de brumário: abandonar as ilusões liberais. No Ocidente, o Estado moderno foi edificado para manter a ordem e a propriedade privada. É preciso de um ponto de virada à esquerda, mas, isso talvez leve muito tempo para acontecer, ou seja, um processo histórico.

Por fim, destaco uma outra citação do livro “O 18 de brumário de Luís Bonaparte” que considero bem pertinente:

(…) um Poder executivo que vislumbra a sua força na sua própria debilidade e a sua respeitabilidade no desprezo que inspira; uma República que nada mais é que a infâmia conjugada […] com uma etiqueta imperialista – uniões cuja primeira cláusula é a separação; lutas, cuja primeira lei é a indecisão; em nome do sossego, agitação caótica e sem conteúdo; em nome da revolução, pregação solene do sossego; paixões sem verdade, verdades sem paixão; heróis sem feitos heroicos, história sem eventos […] quando finalmente surgiu o espectro vermelho, constantemente conjurado e esconjurado pelos contrarrevolucionários, ele não apareceu com o barrete frígio do anarquismo na cabeça, mas trajando o uniforme da ordem, com as suas bombachas vermelhas.