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10 de dezembro de 2018, 15h38

O governo mais ideológico da história recente

Raphael Silva Fagundes: “O governo que se instalará em 2019 precisa ser ideológico para poder impor uma dominação de classe mais claramente, um modelo de dominação econômica que rejeita qualquer tipo de migalha que possa sobrar para as classes trabalhadoras”

Foto: Divulgação

Os ministros da Educação, Relações Exteriores, Meio Ambiente e Direitos Humanos, nomeados por Bolsonaro, são claramente uma escolha ideológica. Seria óbvio, pois um governo composto por tantos militares não pode ser outra coisa senão ideológico.

O das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é um entreguista que agrada aquela classe média desbotada dos anos 90 que acha que tudo que vem da terra do Tio Sam é bom. O da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, é um combatente antimarxista padrão Guerra Fria. A dos Direitos Humanos, Damares Alves, prega o retorno da condição feminina a padrões oitocentistas. E, enfim, o do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é réu por fraude ambiental, uma raposa colocada para tomar conta do galinheiro. Tudo que está ligado à cultura e à política tem a intenção de regredir e se corromper nas mãos do mercado orquestrado pelos EUA. Tudo se parece com um museu de grandes novidades.

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A ideologia conservadora e o mercado

Tirando alguns naturistas e hippies, dificilmente vamos encontrar alguém que deseja voltar no tempo quando se trata de aspectos científicos e tecnológicos. Poucos desejam um mundo sem celulares ou computadores, sem carros velozes ou tratamentos que rejuvenescem. Mas quando se trata de aspectos políticos e culturais, a coisa muda.

Com o aumento dos movimentos da extrema direita, vemos o desejo de um retorno à condição tradicional da mulher, a uma contenção a liberdade LGBT, à tortura do encarcerado etc. Há uma utopia que, como qualquer outra, quer se realizar baseada no mito do eterno retorno, no sonho de uma Idade de Ouro pautada em sangue e ódio.

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É lógico que isso tem razões históricas. Podemos dizer que o discurso político sempre teve como referência o passado. Mesmo nas épocas em que predominava uma grande estimação pelo progresso, os discursos políticos sempre tiveram em sua retórica exemplos arrancados da história, embora, com o advento da modernidade, o desejo de um retorno ao passado foi abolido. A própria palavra “revolução” deixou de significar uma volta completa em torno do eixo da Terra e passou a dizer mudança. Mas as referências a tempos antanhos não deixaram de existir.

A cultura, por sua vez, é mais saudosista. Mesmo com o fim do romantismo, nenhum país deixou de cultuar seus antigos poetas e escritores. Muitos se inspiram até hoje em Shakespeare no teatro e Camões é ainda o escritor lusitano mais referenciado em Portugal. Quem não se lembra do filme de Woody Allen, “Meia Noite em Paris”, em que o protagonista (um escritor) deseja voltar para a Paris dos anos de 1920, e, quando consegue, apaixona-se por uma mulher que deseja voltar à França da Belle Epóque?

No entanto, em relação à tecnologia, poucos bradam por um retorno a uma condição anterior. E não é porque ela é eficiente, mas porque ela é mercadoria. Em uma sociedade de consumo, pelo menos no nível que atingimos, deixamos de consumir coisas e passamos a consumir signos. Associamos a “mercadoria-signo” a elementos simbólicos e imaginários. Enfim, seguindo os ensinamentos de Jean Baudrillard, estamos mais interessados no significado da mercadoria, em esbanjá-la, no estilo que ela nos proporciona, que na sua funcionalidade.

Hoje o mercado desenvolveu uma gama de “estilos” de modo que ninguém jamais irá querer voltar a uma época em que as cores eram desbotadas, onde os carros eram todos iguais, onde a TV não tinha cor, onde o estilo de vida era muito similar dependendo da classe social que você fizesse parte. Poucos são contrários ao tipo de diversidade que hoje o mercado propõe através da multidão de produtos consumíveis.

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Mas por que estão surgindo cada vez mais grupos que se voltam contra a diversidade étnica, sexual, familiar etc.? As pessoas que compram o discurso conservador querem empregos, mas lutam por uma pedagogia da moral. Elas não lutam contra os empresários que as mandam embora e aliciam o governo para controlar os preços e salvar suas fortunas. Elas não relacionam a sua pobreza com os produtos que consomem. E há um interesse capitalista nisso, porque é necessário, mesmo em crise, continuar a vender.

Elas se voltam contra a liberdade de ir e vir do estrangeiro, ou do gay e, em muitos casos, da mulher. Querem o fim da violência usando antigas formas de repressão que não funcionaram e por isso foram abandonadas. Não param para pensar que os países que possuem o menor índice de violência são os que menos reprimem (Dinamarca, Islândia, Áustria etc). Os países mais violentos são os países mais pobres, com as piores distribuições de renda. Não é uma questão de moral!

No entanto, muitos países, cada um com os seus motivos (imigração, violência, corrupção), desejam o retorno a um modelo político e moral mítico. Os capitalistas, por sua vez, por mais liberais que sejam, não vão se queixar, pelo contrário. A política vai lentamente se fechando em uma questão moral (a própria ideia de corrupção se encaixa na ideia de moralidade) para encobrir interesses econômicos repugnantes. Por isso a escolha dos ministros é muito mais ideológica que técnica.

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Os governos petistas foram menos ideológicos porque promoveram uma conciliação de classes, fechando acordos com diversos partidos. Mas o governo que se instalará em 2019 precisa ser ideológico para poder impor uma dominação de classe mais claramente, um modelo de dominação econômica que rejeita qualquer tipo de migalha que possa sobrar para as classes trabalhadoras.

Outro fato que fará deste governo mais ideológico que todos os outros é que veremos em suas fileiras diversos membros do fundamentalismo protestante, fenômeno novo na política devido a proporção que tomou. A bancada evangélica terá uma grande influência mesmo com as pequenas desavenças que já vem ocorrendo.

A extrema direita tem a função de impedir o avanço dos ideais progressistas, forjando a relação destes com o antigo comunismo (um embuste retórico quixotiano). Mas não se trata de comunismo e nem de fascismo, até porque não vejo nenhum dos lados (progressistas e conservadores) terem o trabalhador como o centro (cabe lembrar que o fascismo cedeu muitos direitos aos trabalhadores), ou são as minorias ou o cidadão de bem. Por isso, as pessoas não devem se iludir pelo discurso moral que quer esconder a verdadeira razão da condição degradante na qual se encontram: a exploração econômica do mais fraco.

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